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20 fevereiro 2020

ARREDA, SATANÁS!

Vai para longe de mim, Satanás! Tu não pensas como Deus, e sim como os homens (Mc 8, 33)

20 de fevereiro de 2020

Não sei se você já reparou. Tem amigos que fazem o papel do diabo, do tentador. Alguns parentes também. Esses tais nos aconselham exatamente aquilo que Deus não gostaria que fizéssemos. Numa crise conjugal, por exemplo, tem um amigo que chega junto e aconselha: “cara, deixa essa mulher. Ela não merece você!”. Olha que conselho! Em vez de incentivar a reaproximação, a reconciliação, aconselha a separação. Faz o papel do tentador. O tentador procura afastar a pessoa do caminho de Deus, em nome da modernidade dos costumes ou do que parece mais prazeroso ou do que exige menos esforço. Agora, me diga, o que vai pra frente sem entrega, doação, compromisso? Bandeando-se pro lado do se dar bem a qualquer custo, a gente, na verdade, está renunciando a verdadeira felicidade.

Olha o que conta o evangelho de hoje. Jesus estava explicando aos discípulos que ele devia ir a Jerusalém e sofrer muito, na realização de sua missão. Notou isso? “Sofrer muito”. Seria rejeitado pelos líderes do seu povo que o entregariam à morte, mas ressuscitaria ao terceiro dia. Essa era uma passagem difícil do caminho de Jesus: a rejeição e a morte. E ele não queria fugir desse momento. Estava resolvido a enfrentar esse sofrimento, com a doação de sua vida e com total confiança no Pai.

Se dependesse de Pedro, a história de Jesus teria sido outra. Ele dispensaria o capítulo da paixão e da morte. Jesus realizaria toda a sua missão sem sofrimento, sem precisar passar pelo vexame da cruz. O que Pedro queria é o que nós queremos. Não queremos assumir os sofrimentos, as provações que vêm junto com nossa opção por Jesus Cristo e pelo seu evangelho. Seguir Jesus, tudo bem. Sofrer como ele, alto lá. Triunfo, sim; cruz, não. Na primeira crise, o casamento deságua em divórcio. Numa avaliação mais rigorosa do professor, abandona-se a faculdade. No meio de uma crise existencial, o reverendo abandona o ministério. Basta uma cara feia do coordenador de minha pastoral que eu desisto, ‘não estou aqui para sofrer’. Fugimos de qualquer sofrimento.

Pedro chamou Jesus à parte e o repreendeu. “Não diga uma coisa dessa. Tire da cabeça esse negócio de se dar mal em Jerusalém. Deus não vai permitir uma desgraça dessa. Isso não vai lhe acontecer”. A reação de Jesus espantou os discípulos: “Vade retro, satanas!”- “Afaste-se de mim, satanás! Você não está pensando segundo o que Deus quer, mas segundo a vontade do homem”. Foi um choque para Pedro e para os seus colegas. Um pouco antes, Pedro tinha sido elogiado porque tinha reconhecido que Jesus era o Messias. E agora, Jesus o estava tratando como satanás, o tentador. É isso mesmo! Quem proclama que Jesus é o Messias tem também que subir com ele o calvário.

Todo o evangelho é um convite a nos tornarmos seguidores de Jesus. Seguidor é o que percorre a mesma estrada do Mestre, quem faz o seu caminho. O caminho de Jesus é a entrega total de si mesmo pelos outros. Discípulo é quem o segue. E quem o segue, por causa de sua fé, por causa do Reino que Jesus pregou, pode passar também por alguma dificuldade, por algum sofrimento. Pode ser que, por causa de sua adesão a Jesus e sua Igreja, vá passar por críticas, discriminação, difamação. É bom fazer como Jesus: reconhecer a tentação de afastar-se do caminho de Deus e assumir com firmeza, destemor e coerência o seu caminho de fé, na Igreja. 

Guardando a mensagem

Ninguém quer sofrer. Todo mundo foge do sofrimento. Vivemos a ‘civilização do analgésico’. O evangelho nos faz um convite: seguir Jesus. Jesus nos alerta sobre o sofrimento que existe no seu caminho. Quem o quiser seguir, precisa renunciar a ser o centro de sua vida, para realizar a vontade de Deus. Claro, a vontade de Deus não é que a gente sofra. E não é de qualquer sofrimento que Jesus está falando. A sua escolha foi entregar sua vida pelos outros, em obediência à vontade salvadora do Pai. Quem o quiser seguir, tem que estar pronto para participar também da travessia difícil do sofrimento que vem por causa da fé e do evangelho que se abraça. Seguir com Jesus não é estar com ele só nos Aleluias da Páscoa, mas estar com ele também nas dores da Paixão.

Vai para longe de mim, Satanás! Tu não pensas como Deus, e sim como os homens (Mc 8, 33)

Rezando a palavra

Senhor Jesus,

O mundo de facilidades que temos hoje, comparando com outros tempos, pode nos tentar a desistir de nossas opções, quando as dificuldades aparecem. Não procuramos sofrimentos, mas pagamos sempre um preço por nossas escolhas. Sermos teus seguidores, Jesus, tem também seu preço. São renúncias a se fazer, o peso da fidelidade e da perseverança nas horas difíceis, a incompreensão, a discriminação, até a perseguição, em muitos casos. Tu, Senhor Jesus, fizeste a escolha de comunicar a vida de Deus aos pecadores e a realizaste com absoluta fidelidade. A cruz que te impuseram, tu a abraçaste com amor. Deste a tua vida por nós. Ensina-nos a trilhar o teu caminho. Seja bendito o teu santo nome, hoje e sempre. Amém.

Vivendo a palavra

Pode ser que hoje apareça uma oportunidade pra você aconselhar alguém num momento de dificuldade. Aconselhe a fazer como Jesus, a não desistir dos seus sonhos e dos sonhos de Deus. 

20 de fevereiro de 2020

Pe. João Carlos Ribeiro, sdb




27 dezembro 2019

O APÓSTOLO E EVANGELISTA SÃO JOÃO

Ele viu e acreditou (Jo 20, 8).
27 de dezembro de 2019.
No dia em que celebramos o apóstolo João, lemos o trecho do seu evangelho que fala do túmulo de Jesus. O que tem João com esse tempo do Natal? E o que essa cena do túmulo nos inspira neste final de ano? Um pouco de paciência e a gente chega lá...
O evangelho que São João escreveu é um livro maravilhoso, inspirado pelo Espírito Santo como os outros evangelhos, claro, mas que tem uma contribuição muito original. Mais do que contar episódios da vida de Jesus, ele faz uma leitura do significado de sua missão. O prólogo, por exemplo, que nós lemos no dia de natal, nos diz, de uma maneira poética, que a vinda de Jesus é a realização da promessa que Deus fez, desde o início na criação. Lá, ele prometeu um salvador para a humanidade que se afastou da amizade com o Criador, pelo pecado. O filho, que já existia em Deus, como sua palavra criadora, fez-se carne e habitou entre nós.  Jesus é a descendência da mulher que vai esmagar a cabeça da serpente, isto é, que veio vencer o mal, o pecado e a morte. Essa pregação de São João, portanto, tem tudo a ver com o natal do Senhor, meditando sobre o significado de sua encarnação.
Na cena do evangelho de hoje, ele e Pedro foram correndo ao túmulo, onde Jesus fora sepultado. Era a madrugada do domingo. E Madalena viera correndo avisar que tinham roubado o corpo do Senhor. Ele chegou primeiro do que Pedro ao túmulo, claro, corria mais rápido, era mais jovem. Mas, não entrou, esperou Pedro chegar. Nesse gesto, ele está reconhecendo o papel de liderança de Pedro. Ele viu o túmulo vazio, as faixas de linho no chão. As faixas enrolavam todo o corpo do morto. Pedro, entrando no túmulo, viu também o pano que cobria a cabeça do morto dobrado num canto. Os dois entraram... Pedro não sabia o que pensar... Mas, João não teve dúvida: viu e creu. Viu e acreditou: Jesus havia ressuscitado como tinha anunciado.
Nesse primeiro momento, eles não viram Jesus ressuscitado. Madalena imaginou que tinham roubado o corpo. Pedro ficou sem saber o que pensar... Mas, João, diante dos sinais, acreditou: Jesus está vivo, ressuscitou. Os sinais estavam ali... João é que captou o significado deles. O túmulo vazio, as faixas de linho no chão, o pano do rosto dobrado num canto... sinais a indicar uma realidade surpreendente: a ressurreição do Senhor, a sua vitória sobre a morte e sobre o pecado e o mal.



Guardando a mensagem
Olha que lição especial o jovem apóstolo João está nos deixando hoje... há tanta crise nesse mundo, tanto sonho sepultado, tantos dramas na vida das pessoas, pode ser até o seu caso... Nessa situação, as lágrimas, a dor podem enuviar, embaçar nossos olhos... e sermos levados a enxergar apenas o fim, a destruição, o túnel sem saída. Madalena e Pedro estavam assim... na sua dor, no seu desalento, não enxergaram o que os sinais estavam indicando. O túmulo vazio, as faixas pelo chão, o pano dobrado num canto estavam indicando uma virada, uma revolução, a vitória de Jesus, a sua ressurreição. João viu aquilo e acreditou. Encheu seu coração de esperança.
Ele viu e acreditou (Jo 20, 8).
Rezando a palavra
Senhor Jesus,
Como Pedro e Maria Madalena, muitas vezes ficamos como cegos diante dos sinais de Deus que age em nossa vida e em nossa história. Dá-nos, Senhor, a fé do teu jovem apóstolo João, que viu no túmulo vazio um indício claro de que tu não estavas mais na morte, mas tinhas ressuscitado. A vitória da justiça, da paz, da verdade, da honestidade está sinalizada em pequenos gestos e atitudes do nosso dia-a-dia. Dá-nos, Senhor, olhos para ver que a criança na manjedoura é, na verdade, o rei no seu trono, reinando a partir dos humildes e desprezados, na surpreendente lógica do amor. Seja bendito o teu santo nome, hoje e sempre. Amém.   
Vivendo a palavra
No seu diário espiritual, aquele caderno que você ficou de adquirir, escreva uma pequena oração a Jesus no seu presépio.

Pe. João Carlos Ribeiro, sdb - 27 de janeiro de 2019.

06 setembro 2019

UM POVO UNIDO E ORGANIZADO

Ao amanhecer, chamou seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de apóstolos (Lc 6, 13)
10 de setembro de 2019.
Depois de uma noite toda de oração, na montanha, ao amanhecer, Jesus chamou os discípulos e escolheu doze entre eles. Doze é o número do povo de Deus organizado. Israel tinha doze tribos. Estas se organizaram, simbolicamente, em torno de doze patriarcas, os filhos de Jacó. Doze são também os Juízes do Antigo Testamento, bem como os profetas maiores. Doze, então, é o número da organização, da liderança. O trabalho de Jesus começa a ter um novo nível de organização, com essa escolha dos doze. O seu grupo mais próximo, com quem ele vai habitualmente se deslocar e a quem vai dedicar uma maior atenção à sua formação, é formado, então, por doze lideranças. Eles serão a referência para todos os seus discípulos, seus seguidores.
Jesus escolheu os doze para ficar com ele e para enviá-los a pregar, segundo o evangelista Marcos. Ficar com ele é a condição de discípulos, dos que estão aprendendo sobre o Reino de Deus. Serem enviados a pregar é a condição de missionários, de apóstolos. Em seu nome, eles vão dar continuidade à missão. Ter escolhido doze não quer dizer que não havia outras lideranças reconhecidas. Certamente, havia. As mulheres, por exemplo, que também eram discípulas, tinham suas funções no grupo e, mais tarde, tiveram um papel decisivo no testemunho da ressurreição e na formação das comunidades.
Certamente, a escolha não agradou a todo mundo. Alguém não foi escolhido e ficou meio emburrado. Alguém pode ter considerado a escolha um tanto equivocada e com aparente razão (Judas Iscariotes, por exemplo, não parece ter sido uma boa escolha). Mas, quando Jesus não estava mais presente fisicamente, depois de sua ressurreição e ascensão, foram esses líderes que, mesmo em sua fraqueza, sustentaram o testemunho sobre o Messias e espalharam o seu evangelho pelos quatro cantos, com a força do Espírito Santo.
Notemos que na lista dos doze escolhidos, dos apóstolos, figura, em primeiro lugar, a pessoa de Simão, a quem Jesus chamou de Pedro. Pedro foi escolhido por Jesus, como pedra na fundação de sua comunidade. Ele é um sinal de unidade na Igreja. São João Crisóstomo, que foi bispo de Constantinopla, no final do quarto século, escreveu: “Pedro, na verdade, ficou para nós como a pedra sólida sobre a qual se apoia a fé e sobre a qual está edificada a Igreja. Tendo confessado ser Cristo o Filho de Deus vivo, foi-lhe dado ouvir: “Sobre esta pedra – a da sólida fé – edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18). Na figura de Pedro, hoje Francisco, nos reconhecemos como Igreja edificada por Jesus sobre a fé e o testemunho dos apóstolos.  
Guardando a mensagem
Jesus estava conduzindo o povo de Deus para um novo momento de organização. A escolha dos doze é um sinal do seu trabalho de restauração do povo de Deus. Com a escolha dos doze, estão lançadas as bases de organização da igreja cristã. É por isso que dizemos que a Igreja é apostólica, porque ela nasce da liderança, do testemunho e do ensinamento dos apóstolos que Jesus escolheu e formou. Os apóstolos de Jesus, aos poucos, foram comunicando sua mesma autoridade e responsabilidade a outros líderes, pela oração da Igreja e pela imposição de suas mãos. Esses são os bispos, que sucederam os apóstolos. Um bispo não se inventa. Os bispos têm a sucessão apostólica. Eles são os apóstolos de hoje, aqueles que o Senhor escolheu e lhes deu participação na sua autoridade. Na atuação dos apóstolos de ontem ou de hoje, independentemente de suas fraquezas ou virtudes, reconhecemos o bom pastor Jesus que nos ensina, nos abençoa e nos conduz, na força do seu Santo Espírito.
Ao amanhecer, chamou seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de apóstolos (Lc 6, 13)
Rezando a palavra
Senhor Jesus,
Pessoalmente, chamaste os doze. Eles seguiam sempre contigo. Tu tinhas o cuidado de explicar-lhes as parábolas, as coisas do Reino. E eles te seguiam com toda boa vontade, mas eram fracos como nós e te deram muita dor de cabeça. Na hora da paixão mesmo, houve quem dissesse até que não te conhecia, além daquele que te traiu. Mas, tu não desististe deles, nem os desautorizaste. Tu, Senhor, conheces a nossa fraqueza e ainda assim confias em nós. Obrigado, Senhor. Hoje, nós queremos te pedir, de maneira muito especial, pelos nossos líderes, nossos diáconos, padres, bispos e pelo Papa Francisco, referência de unidade para todo o teu povo santo. Nós te pedimos pelos frutos de sua visita a Moçambique, Madagascar e Maurício, de onde acaba de chegar. Nós te pedimos por sua saúde e pelo êxito do Sínodo da Amazônia. Que as críticas que aqui e ali se levantam contra tua Igreja nos ajudem a ser um povo mais santo e mais fiel. Seja bendito o teu santo nome, hoje e sempre. Amém.
Vivendo a palavra
Faça, hoje, uma oração pelo Papa Francisco, pelo Bispo de sua Diocese e pelo Padre de sua comunidade.
Pe. João Carlos Ribeiro – 10 de setembro de 2019.

12 agosto 2019

FILHOS RESPONSÁVEIS


O mestre de vocês não paga o imposto do Templo? (Mt 17, 24)
12 de agosto de 2019.
Várias vezes, participei da Santa Missa, no terceiro domingo do mês, na cidade pernambucana de Carpina. Esse é o dia em que os fiéis daquela paróquia oferecem o seu dízimo. Na hora do ofertório, o povo forma uma longa fila e, um por um, traz o seu envelope, e com ele toca o altar e o deposita num grande cesto. O fato de tocar o altar com o envelope é facilmente compreensível: o que está dentro do envelope representa a participação daquele fiel na oferta que a Igreja faz a Deus. De fato, durante a apresentação das oferendas em cada Missa, o presidente da celebração bendiz o Senhor pelo “fruto da terra e do trabalho do homem”, no sinal do pão e do vinho.
Mas, realmente, o que me chamava a atenção naquela grande fila de pessoas, cantando e apresentando o seu dízimo, em Carpina, era a presença do pároco e do vigário paroquial na fila também. Pe. José Rolim e Pe. Brenno, que estavam à frente da Assembleia, iam também pra fila e cada um apresentava o envelope com o seu dízimo. No início, muita gente estranhou. Achavam, com razão, que os dois padres não precisavam ir pra fila como todo mundo, eles estavam dispensados do dízimo. Já eram ministros do altar, já davam do seu tempo e de sua vida a serviço da Igreja, não havendo mais necessidade de devolver o dízimo. Aliás, do dízimo do povo já saía a sua côngrua, o seu pro labore. Mas, os dois padres não faltavam na fila e nem se preocupavam de fornecer qualquer explicação.

Tudo isso ilustra o evangelho de hoje. Num dia em que Jesus e seu grupo estavam chegando a Cafarnaum, cobradores do imposto do Templo perguntaram a Pedro se Jesus pagava aquela taxa. Pedro, para facilitar as coisas, disse que sim. E quando entrou em casa, Jesus puxou logo o assunto. Perguntou se, num reino, a quem se cobra os impostos, aos filhos do rei ou aos estranhos? Pedro respondeu que, claro, aos estranhos. Os filhos estavam mais do que dispensados; o reino era do pai deles, ora essa. Ainda assim, para não ser motivo de escândalo, Jesus mandou Pedro providenciar o pagamento. Assim, lhe indicou que fosse pescar, que era a profissão de Pedro. No primeiro peixe fisgado, encontraria uma moeda – o estáter – que daria para pagar o imposto por si e pelo Mestre.
Três coisas, pelo menos, podemos aprender com essa página do evangelho de hoje. O primeiro ensinamento vem dos chatos que cobraram o imposto. O imposto de que se fala, nessa passagem, não é o dízimo. Nem o imposto de César. No dízimo, apresentava-se como oferta a Deus os primeiros frutos da agricultura e os primeiros animais de corte do rebanho. O dízimo tem a ver, então, com ganhos, salários, rendimentos. Também, claro, não se trata do imposto ao império romano, devido pela condição de povo subjugado. Este era pago com muita má vontade e, no meio, de muitos conflitos. Além da prática do dízimo, havia, no povo de Deus do tempo de Jesus, um imposto anual para sustentação do Templo (levitas, cantores, sacerdotes, lenha, funcionamento do Templo e do seu culto). O imposto do Templo era anual, pago pelos homens, e equivalia a dois dias de trabalho, pagos com uma moeda grega chamada dracma.Somos responsáveis pela manutenção da Casa de Deus.
O segundo ensinamento vem do exemplo de Jesus. Ele não estava obrigado, como filho de Deus, a pagar esse imposto. Aliás, muita gente, pela sua ligação com o Templo, estava dispensada: sacerdotes, levitas, rabinos. Mas, Jesus fez questão de participar, de dar bom exemplo, de mostrar-se também comprometido. Nessa responsabilidade com a Casa de Deus, ninguém deve se omitir. As lideranças podem ajudar muito, como Jesus, como os padres de Carpina, dando bom exemplo.
O terceiro ensinamento vem do peixe. É verdade que Pedro foi pescar. Mas, o que se conseguiu para a oferta do imposto não foi só trabalho de Pedro, mas foi, particularmente, providência divina. Ele encontrou a moeda na boca do peixe, conforme a palavra de Jesus. Há aqui uma lição muito importante: para as coisas de Deus, quando há boa vontade de nossa parte, mesmo não tendo, aparece um jeito, coisa da providência de Deus. Muita gente já experimentou isso.
Guardando a mensagem
O evangelho de hoje nos chama à responsabilidade de filhos na manutenção da Casa de Deus.  Somos responsáveis pela casa do Senhor. Jesus mesmo deu exemplo: mesmo sendo filho, estando dispensado, participou também com sua contribuição para o Templo. O dinheiro que Pedro achou na boca do peixe nos mostra que o próprio Senhor, na sua Providência Divina, nos ajuda a encontrar modos de participar na manutenção de sua Casa e de sua Obra.
O mestre de vocês não paga o imposto do Templo? (Mt 17, 24)
Rezando a palavra
Senhor Jesus,
Muito temos que andar em matéria de corresponsabilidade na manutenção da Igreja e de sua missão evangelizadora. O nosso dízimo nem devia ter esse nome, pois não passa de uma simples oferta que não tem relação com os nossos ganhos reais. E as nossas ofertas, ao menos as que oferecemos nas celebrações, são trocados dignos de um esmoler. Damos esmolas, não sustentamos a Casa de Deus. Senhor, converte o nosso coração. Que o teu exemplo nos ajude a partilhar com amor e confiança para o sustento da tua Casa e para a realização de suas responsabilidades para com os mais pobres, com a formação dos nossos ministros, com a evangelização do mundo. Seja bendito o teu santo nome, hoje e sempre. Amém.
Vivendo a palavra
É hora de você rever a sua participação de filho na Casa de Deus. Hoje, tome uma boa decisão nesse assunto.

Pe. João Carlos Ribeiro – 12 de agosto de 2019.

08 agosto 2019

CAINDO EM TENTAÇÃO


Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço (Mt 16, 23)
 08 de agosto de 2019 – Dia de São Domingos de Gusmão.
 Jesus estava explicando aos discípulos que ele devia ir a Jerusalém e sofrer muito. Notou isso? “Sofrer muito”. Seria rejeitado pelos líderes do seu povo que o entregariam à morte, mas ressuscitaria ao terceiro dia. Essa era uma passagem difícil do caminho de Jesus: a rejeição e a morte. E ele não queria fugir desse momento. Estava resolvido a enfrentar esse sofrimento, com a doação de sua vida e com total confiança no Pai.
Se dependesse de Pedro, a história de Jesus teria sido outra. Ele dispensaria o capítulo da paixão e da morte. Jesus realizaria toda a sua missão sem sofrimento, sem precisar passar pelo vexame da cruz. O que Pedro queria é o que nós queremos. Não queremos assumir os sofrimentos, as provações que vêm junto com nossa opção por Jesus Cristo e por seu evangelho. Seguir Jesus, tudo bem. Sofrer como ele, não. Triunfo, sim; cruz, não. Na primeira crise, o casamento deságua em divórcio. Numa avaliação mais rigorosa de um professor, abandona-se a faculdade. No meio de uma crise existencial, o reverendo abandona o ministério.  Basta uma cara feia do coordenador de minha pastoral que eu desisto, não estou aqui para sofrer. Fugimos de qualquer sofrimento.
Pedro chamou Jesus à parte e o repreendeu. “Não diga uma coisa dessas. Tire esse negócio de se dar mal em Jerusalém da cabeça. Deus não vai permitir uma desgraça dessa. Isso não vai lhe acontecer”. A reação de Jesus espantou os discípulos: “Vade retro, satanas! Sai daqui, afaste-se! Você não está pensando segundo o que Deus quer, mas segundo a vontade do homem”. Foi um choque para Pedro e para os seus colegas. Um pouco antes, Pedro tinha sido elogiado porque tinha reconhecido que Jesus era o Messias, o filho do Deus vivo. E agora, Jesus o estava tratando como satanás, o tentador.  É isso mesmo! Quem aconselha a desistir ou a não enfrentar as dificuldades, com medo do sofrimento, está agindo como o tentador, o diabo. Quem proclama que Jesus é o Messias e nega-se a subir com ele ao calvário está caindo na tentação.
 Todo o evangelho é um convite a nos tornarmos seguidores de Jesus. Seguidor é o que pega a mesma estrada de Jesus, quem faz o seu caminho.  No caminho de Jesus tem a cruz, a rejeição do seu povo, a traição dos amigos, a inveja dos chefes, a violência dos dominadores. Discípulo é quem o segue. E quem o segue, por causa de sua fé, por causa do Reino que Jesus pregou, vai passar também por alguma dificuldade, por algum sofrimento por causa de sua fé e do seu amor a Cristo. Por isso, Jesus disse: “quem quiser me seguir, tome sua cruz e me siga”.
Guardando a mensagem
Ninguém quer sofrer. Todo mundo foge do sofrimento. Vivemos a ‘civilização do analgésico’. O evangelho nos faz um convite: seguir Jesus. Jesus nos alerta sobre o sofrimento que existe no seu caminho. Quem o quiser seguir, precisa renunciar a ser o centro de sua vida, para realizar a vontade de Deus. Claro, a vontade de Deus não é que a gente sofra. E não é de qualquer sofrimento que Jesus está falando. Trata-se do sofrimento que é inerente à nossa escolha, à nossa opção de viver como seguidores de Jesus. Quem o quiser seguir, tem que estar pronto para participar também da travessia difícil do sofrimento que vem por causa da fé e do evangelho que se abraça. São as renúncias a se fazer, o peso da fidelidade e da perseverança nas horas difíceis, a incompreensão, a discriminação, até a perseguição... Seguir com Jesus não é estar com ele só no triunfo, é estar com ele também na paixão.
Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço (Mt 16, 23
Rezando a palavra
Senhor Jesus,
O mundo de facilidades que temos hoje, comparando com outros tempos, podem nos tentar a desistir de nossas opções, quando as dificuldades aparecem. Não procuramos sofrimentos, mas pagamos sempre um preço por nossas escolhas. Sermos teus seguidores tem também seu preço. Tu, Senhor Jesus, fizeste a escolha de comunicar a vida de Deus aos pecadores e a realizaste com absoluta fidelidade. A cruz que te impuseram, tu a abraçaste com amor. Deste a tua vida por nós. Ensina-nos a trilhar o teu caminho. Seja  bendito o teu santo nome, hoje e sempre. Amém.
Vivendo a palavra
Pode ser que hoje apareça uma oportunidade para você aconselhar alguém num momento de dificuldade. Aconselhe a fazer como Jesus, a não desistir dos seus sonhos e dos sonhos de Deus.  

Pe. João Carlos Ribeiro – 08 de agosto de 2019.

23 junho 2019

O SENHOR JESUS


Mas Jesus perguntou: E vocês, quem dizem que eu sou? Pedro respondeu: O Cristo de Deus (Lc 9, 20) 


23 de junho de 2019 – 12º Domingo do Tempo Comum


Outros estão dizendo isso e aquilo. Tudo bem. Mas, vocês, em que creem? Pra vocês, quem sou eu? Foi a pergunta de Jesus aos discípulos. O que o povo estava dizendo, tudo bem, era já uma aproximação da verdade, estava no caminho. Mas, os apóstolos, os doze, que estavam sempre com ele, tinham que saber certinho quem era ele. E sabiam. Pedro, o líder do grupo, falou em nome de todos: ‘Tu, Jesus, és o Cristo de Deus!’ Disse tudo, disse certo. Jesus é o Cristo de Deus, o enviado do Pai para nossa salvação. Mas, faltava ainda eles passaram pela grande provação da paixão para poderem explicar melhor isso. Por isso, Jesus falou-lhes de sua paixão, da rejeição das autoridades do seu povo, de sua morte e de sua ressurreição ao terceiro dia. Sem a cruz, não se entende Jesus. 

Hoje, muita gente fica dizendo que conhece Jesus e dá os seus palpites. Tudo bem, estão tentando se aproximar da verdade. Mas os doze, os apóstolos, guardam o conhecimento verdadeiro de quem é Jesus. Eles foram, por ele, constituídos suas testemunhas. E nós guardamos os seus ensinamentos. Nós cremos no JESUS DE PEDRO, no testemunho dos apóstolos. Por isso, dizemos que nossa fé é apostólica, tem seu fundamento nos apóstolos. A Igreja é a comunidade edificada por Jesus sobre a fé de Pedro, sobre a pregação e o testemunho dos apóstolos. Somos a Igreja dos doze. Somos a Igreja de Pedro. Cremos com Pedro, o líder dos doze: ‘Jesus é o Cristo de Deus’. Igreja sem Pedro não é a de Jesus. 

Outros continuam dando seus palpites. Tudo bem, estão no caminho. Aliás, não faltam novas opções reduzindo Jesus a senhor de curas de milagres. Mas, Jesus insistiu na cruz, na paixão, no seu sacrifício. Nós cremos no JESUS DA CRUZ. Jesus mesmo insistiu com os doze: não dá para compreendê-lo sem sua paixão e morte de cruz. E não dá para segui-lo sem cada um tomar sua cruz cada dia, com ele. Igreja sem cruz não é a de Jesus. 

Outros tem lá suas teorias e seus interesses. E negam-se a acolher Maria como mãe. Com os apóstolos e a longa história da fé cristã em mais de 20 séculos, nós cremos no JESUS DE MARIA. Para nos salvar, ele assumiu nossa humanidade no seu seio virginal. Ela o educou na fé do povo eleito e o seguiu como primeira discípula. Na cruz, ele no-la entregou como mãe. E ela acompanhou os passos da Igreja nascente, como mãe da comunidade redimida. Na glória de Deus, ao lado do seu filho, ela é um sinal a nos lembrar que lá é o nosso lugar. De lá, continua cuidando de nós. Cremos no JESUS DE MARIA, a senhora sua mãe, a senhora mãe da Igreja. Igreja sem Maria não é a de Jesus. 

Quem quiser invente sua doutrina, a nossa nós a recebemos dos apóstolos, as testemunhas que Jesus escolheu e enviou. Com eles, nós cremos no JESUS DA EUCARISTIA. Na última ceia pascal, com os discípulos, Jesus consagrou a oferta de sua vida na cruz em nosso favor. E deu-se em alimento, no pão e no vinho, seu corpo entregue, seu sangue derramado. E instruiu os apóstolos para fazerem isso em sua memória. Celebrando a santa Missa, renovamos o único sacrifício redentor de Cristo em favor da humanidade, reapresentando a oferta de sua vida em favor de todos. Somos a Igreja da Eucaristia. Nela, somos alimentados na comunhão com o seu corpo e o seu sangue. Por ela, elevamos ao Pai o maior louvor, o da obediência do seu filho na cruz e nos unimos a ele. Na Eucaristia, recebemos as mais altas bênçãos do Deus uno e trino a quem servimos. Nela, o Senhor Jesus está realmente presente no sacramento do pão e do vinho consagrados. Igreja sem Eucaristia não é a de Jesus. 

Guardando a mensagem 

Cremos em Jesus, o filho do Deus vivo, que assumiu nossa condição humana no seio de Maria. Pela cruz, ele redimiu o mundo. Pela ação do seu Santo Espírito, ele continua presente, nos conduzindo através dos pastores que agem em seu nome e nos santificando pelos sacramentos com os quais nos sustenta no caminho da fé. Cremos no Jesus de Pedro. Cremos no Jesus da Cruz. Cremos no Jesus de Maria. Cremos no Jesus da Eucaristia. 

Mas Jesus perguntou: E vocês, quem dizem que eu sou? Pedro respondeu: O Cristo de Deus (Lc 9, 20) 

Rezando a mensagem 

Rezemos o trecho do credo apostólico que se refere a Jesus: 

Creio em Jesus Cristo seu único filho, Nosso Senhor
que foi concebido pelo poder do Espírito Santo

nasceu da Virgem Maria

Padeceu sob Pôncio Pilatos

Foi crucificado, morto e sepultado

desceu a mansão dos mortos

ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus

está sentado à direita de Deus Pai, todo poderoso,

de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.

Amém. 

Vivendo a palavra 

Participar da Santa Missa é a tarefa mais santa para o dia de hoje. Podendo, compartilhe esta meditação com outras pessoas. 

Pe. João Carlos Ribeiro – 23 de junho de 2019.

06 junho 2019

FRAQUEZA E GRANDEZA DO PASTOR

Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas (Jo 21, 17).
07 de junho de 2019
Mesmo Pedro tendo sido purificado pela palavra de Jesus, caiu na tentação. Negou o Mestre, por três vezes. Acovardou-se diante do risco de ser sua testemunha. Negou conhecê-lo, ser seu discípulo, ter parte com ele. E o galo cantou duas vezes, denunciando a fraqueza do apóstolo, reprovando a covardia do profeta. E a palavra de Jesus ecoou forte no coração de Pedro: “Antes que o galo cante duas vezes, tu me negarás três vezes”. É, Pedro estava devendo uma conta a Jesus. Mas, coitado, quando Jesus preso passando o olhou, Pedro, envergonhado e decepcionado consigo mesmo, chorou amargamente. Um pecador arrependido de sua falta, precisando redimir-se.
Mas, Pedro, não fique triste! Você negou Jesus três vezes. É hora de professar que o ama, por três vezes. Pedro, é o amor que nos redime dos nossos pecados: o amor de Jesus que o levou a morrer por nós e o nosso amor por ele, que nos faz acolher a sua obra redentora, de coração aberto. Pedro, é o amor que passa a limpo a nossa vida de erros e pecados. E, mais, Pedro: Jesus é fiel no seu amor. Ele chamou você para ser pescador de gente, pois vai confirmá-lo à frente do seu rebanho. E você, Pedro, fique certo, só poderá realizar essa missão de pastor se você amar muito a Jesus, se o amar mais do que os outros.
Ressuscitado, o Mestre voltou a olhar Pedro de frente. E Pedro já não desviou o olhar. Seu coração arrependido tinha acompanhado o Mestre na descida à mansão dos mortos. Mas, subira com ele. Ressuscitara com ele. Como se fazia quando se descia às águas, na piscina batismal do início do cristianismo. Nascemos de novo. Já não tem mais vez o Adão que nos habitava. O Ressuscitado traz pela mão o Pedro renascido na sua morte redentora. Três vezes traiu. Três vezes vai declarar seu amor incondicional ao Mestre. Como um neófito, um catequisando, vai subindo degrau por degrau da piscina batismal. “Simão, tu me amas?”. “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo.” “Então, cuida dos meus carneiros”. Sim, é isso, nossa fraqueza não conta mais. Conta a força da ressurreição do Senhor que nos ergue. Conta o amor com que respondemos ao seu chamado. Mais um degrau. “Simão, tu me amas?”. “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. “Então, toma conta das minhas ovelhas”. Tantos quantos foram os degraus que descemos, tantos subimos, ressuscitando com ele. E assumindo a sua mesma missão. Identificando-nos com ele. “Já não sou eu que vivo. É Cristo que vive em mim”. “Simão, tu me amas?”. E Pedro um pouco entristecido: “Sim, Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo”. “Então, toma conta do meu rebanho”. Apóstolo é que o foi escolhido. E enviado. Não porque é o melhor, o mais santo, o mais douto, mas porque amado pelo Mestre, porque escolhido por ele. Escolhido e enviado, porque ama o Senhor, porque confia apenas na fidelidade do seu Senhor, não na sua força, no seu poder, na sua sabedoria.
Guardando a mensagem
É para você a mensagem do evangelho de hoje, mesmo que você não se chame Pedro. O pecado leva você a se esconder de Deus, a se sentir indigno de estar em sua presença, como Pedro. O amor de Jesus por você, provado na sua morte na cruz, comunica-lhe vida nova, por sua ressurreição. É o amor que passa sua vida a limpo, cancelando as manchas do pecado, e fazendo de você uma testemunha do amor de Deus, um missionário de sua misericórdia, um cuidador, uma cuidadora do seu rebanho.
Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas (Jo 21, 17).
Rezando a palavra
Senhor Jesus,
Na palavra de hoje, entendemos que é o amor por ti que nos sustenta na missão. Pai e mãe, como bons pastores de sua família, receberam de ti essa missão e, apesar de sua fraqueza, são confirmados na sua missão na medida em que te amam verdadeiramente. Ao assumirmos o cuidado com os outros, nas muitas funções que a vida nos reserva, todos nos espelhamos em ti. Tu és o bom pastor que, por amor, dá a vida por suas ovelhas. Concede-nos, como Pedro, amar-te verdadeiramente e, nesse amor, cuidar daqueles que nos confias. Seja bendito o teu santo nome, hoje e sempre. Amém.
Vivendo a palavra
Em suas orações, hoje, inclua uma prece em favor dos padres que você conhece, dos líderes de sua comunidade, do bispo de sua Diocese. Peça em favor deles, para que sejam bons pastores do rebanho de Deus.

Pe. João Carlos Ribeiro – 07 de junho de 2019

19 abril 2019

EU VI VOCÊ NA CASA DE ANÁS

Não és tu, também, um dos discípulos dele? (Jo 18, 25) 



19 de abril de 2019 



Estamos na sexta-feira da paixão. Hoje, fazemos memória do julgamento, condenação, execução e sepultamento de Jesus. Estamos celebrando o Tríduo Pascal. O Tríduo é como um único dia, com três momentos: a entrega que Jesus fez de sua vida ao Pai e aos seus (a última ceia com o lava-pés da quinta-feira santa), sua paixão e morte na cruz (a celebração da Paixão do Senhor no dia de hoje) e sua ressurreição dos mortos (a Vigília Pascal do sábado santo). A alegria da vitória de Cristo, e de nossa vitória com ele, proclamada na Vigília continua no domingo da páscoa e em todos os domingos do ano. 

Para meditação do grande mistério da paixão, nesta sexta-feira, além da solene celebração das três da tarde, hora da morte do redentor, as comunidades realizam também vias sacras, procissão do Senhor Morto, sermão das sete palavras, encenações da paixão de Cristo, sermão do descimento e várias outras práticas piedosas. Uma de minhas tarefas pastorais hoje é o sermão das sete palavras na Catedral da Sé, em São Paulo. 

Na narração da paixão, lendo João capítulos 18 e 19, há muita coisa a meditar. Vou meditar com vocês sobre um elemento apenas. Jesus assumiu sua identidade. Pedro escondeu sua identidade. Talvez você esteja fazendo como Pedro. Todos já passamos por isso. 

Depois da ceia de páscoa com os discípulos, o que chamamos de última ceia, Jesus foi para o Jardim das Oliveiras, com os discípulos. Como estava sendo perseguido e sob ameaça de prisão, ele se refugiava fora da cidade. Em lugares como aqueles, com árvores, era comum muitos romeiros acamparem durante a grande festa da páscoa. Judas tinha saído da ceia e não voltara mais. Mas, já tarde da noite, reapareceu ali no Jardim com soldados e guardas do Templo para Jesus. Ele já estava esperando e foi ao encontro deles. ‘Quem é que vocês estão procurando?'. ‘Jesus, o nazareno’. Jesus se identificou: ‘Sou eu’. Esse ‘sou eu’ deu um susto neles, que recuaram e caíram por terra. Jesus voltou a perguntar quem estavam procurando e a afirmar: ‘Sou eu’. 

Jesus não esconde sua identidade. Não se esconde. Pede para não fazerem nada com os discípulos. Mas, se apresenta: ‘Sou eu’. O susto deles certamente se refere ao conteúdo bíblico dessa afirmação de Jesus. ‘Sou eu’ é a forma como Deus se apresentou a Moisés no Monte Sinai. ‘Diga ao Faraó que ‘Eu sou’ mandou libertar o seu povo’. Essa é a identidade de Deus. Ele é. E ponto. Jesus já tinha se apresentado assim muitas vezes: Eu sou a luz do mundo; eu sou o pão descido do céu; eu sou a ressurreição e a vida; eu sou a porta das ovelhas; eu sou o bom pastor. Esse ‘eu sou’ ressoa como manifestação do próprio Deus. Certamente, por isso, a tropa recua e cai. Diante de Pilatos, Jesus também disse: ‘Eu sou’- ‘Eu sou rei’. Não se esconde, nem camufla sua identidade. Assume quem ele é, identifica-se aos soldados e à tropa do Templo: ‘Sou eu’. Enfrenta a traição e a injustiça da prisão com sua própria verdade: ‘Sou eu’. E o afirma por três vezes. 

Neste evangelho de São João, o interrogatório de Jesus na casa de Anás vem junto com o interrogatório de Pedro. Jesus está dentro da mansão do sumo-sacerdote. Pedro está no pátio da mansão, junto com serviçais e guardas. Lá dentro, Jesus assume sua identidade e sua missão. Lá fora, Pedro age bem diferente. 

Pedro, mesmo que ficasse exposto à perseguição, poderia ter confirmado: “Sou eu”. Primeiro, foi na porta do palacete de Anás. A empregada o reconheceu e perguntou se ele não era um discípulo do homem que chegara preso. Pedro respondeu: “Não sou”. Enquanto Jesus estava sendo interrogado e maltratado na mansão de Anás, Pedro, meio por fora, se esquentava na fogueira com guardas e criados. Fizeram-lhe a mesma pergunta. E ele, quase fazendo eco à bofetada que Jesus recebera dentro da mansão naquele momento, respondeu: “Sou não”. E Pedro ainda teve uma terceira chance. Um parente daquele que ele tinha cortado a orelha, lá no Jardim das Oliveiras, o identificou. ‘Eu vi você lá no Jardim.” ‘Eu? De jeito nenhum”. Por medo, para fugir da perseguição, Pedro negou sua identidade. Era discípulo. Mas, disse que não era. Andava com Jesus. Mas, disse que não o conhecia. Pedro o negou por três vezes. 

Guardando a mensagem 

Neste dia de jejum e oração, acompanhamos a paixão do nosso Redentor. Na narração da paixão, podemos contemplar a sua fidelidade, a sua obediência ao Pai, o seu amor misericordioso pelos pecadores pelos quais está entregando a vida. Não fugiu, não jogou culpa nos outros, não desconversou. Ele assumiu corajosamente a sua identidade: “Sou eu”. Disse isso por três vezes. Nesta sexta-feira da paixão, contemplemo-nos também nesse drama que marcou a história e deve marcar nossa vida igualmente. Nós somos Pedro. Na hora da provação, escondemos nossa identidade. Quando surgem críticas e oposições, tiramos o time de campo. Imitamos Pedro. “Sou não”. 

Não és tu, também, um dos discípulos dele? (Jo 18, 25) 

Rezando a palavra 

Senhor Jesus, 
O galo da madrugada alertou Pedro de sua infidelidade, de sua traição. Essa sua falta lhe trouxe um grande sofrimento, um grande arrependimento. Caiu num choro de dias. Chorava pela humilhação que tu estavas padecendo, chorava pela infidelidade do seu “Sou não”. Nesta sexta-feira da paixão, dá-nos, Senhor, verdadeira contrição dos nossos pecados, de nossas infidelidades. Dá-nos a conversão de Pedro. Queremos imitar-te em tua fidelidade, na firmeza de tua entrega à vontade de Deus. E assumir com destemor nossa identidade de discípulos teus. E sustentá-la abertamente nas horas difíceis, na hora da provação. Nós te adoramos, Senhor Jesus Cristo, e te bendizemos, porque pela tua santa cruz, remiste o mundo. Amém. 

Vivendo a palavra 

Caso você não tenha oportunidade de participar, hoje, da “Celebração da Paixão” às 15 horas, em sua comunidade, ou de uma via sacra ou outra prática de piedade cristã no dia de hoje, sugiro que, pelo menos, reze o terço, contemplando os mistérios dolorosos. No meu site, vou deixar a relação dos mistérios dolorosos, para o caso de você não lembrar bem deles. 

Vou lhe deixar outra dica. Baixe o meu aplicativo no seu celular. No seu celular, vá até à loja play store e baixe o aplicativo PADRE JOÃO CARLOS. Lá você vai encontrar a meditação, o rádio, local para pedidos de oração, redes sociais e muito mais. Válido para celular android. 



Pe. João Carlos Ribeiro – 19.04.2019


TERÇO - MISTÉRIOS DOLOROSOS

No Primeiro Mistério contemplamos a Agonia de Jesus no Horto das Oliveiras. 

No Segundo Mistério contemplamos a Flagelação de Nosso Senhor Jesus Cristo 

No Terceiro Mistério contemplamos a Coroação de espinhos de Nosso Senhor. 

No Quarto Mistério contemplamos Nosso Senhor carregando penosamente a Cruz até o Calvário.

No Quinto Mistério contemplamos a Crucifixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

16 abril 2019

DÊ UM JEITO EM JUDAS ENQUANTO É TEMPO

Então Jesus molhou um pedaço de pão e o deu a Judas (Jo 13, 26)



16 de abril de 2019.

Chegamos à terça-feira da semana santa. No domingo, caminhamos com Jesus que montou o jumentinho. Ficou claro: ele é o rei manso e desarmado que Deus mandou para cuidar de nós. É o que está escrito no Profeta Zacarias. Ontem, segunda-feira santa, estivemos com ele no jantar em Betânia, na casa de Marta, Maria e Lázaro. Maria lavou os pés de Jesus com meio litro de perfume caro. Nesse gesto, Maria mostrou o seu amor pelo Mestre. Mostrou que aprendeu a amar como Jesus amava, de maneira gratuita, generosa e total. Ele ama, dando-se a si mesmo. Judas fez uma cara de desacordo com a ação de Maria. É o tipo do discípulo que não aprendeu a amar como Jesus.

Hoje, já estamos sentados com os discípulos na ceia da páscoa. No evangelho de João, a ceia é o espaço para uma conversa muito longa com os discípulos e para uma longa e bela oração de Jesus pelo seu pequeno rebanho. Jesus está triste, comovido. E revela a razão de sua tristeza: está para ser traído por um deles. Todo mundo quer saber quem é, mas Jesus não o diz claramente. João estava perto dele e perguntou quem seria. A João, Jesus deu uma pista: “É aquele a quem eu der o pedaço de pão passado no molho”. Molhou o pedaço de pão no molho e o deu a Judas. Disse alguma coisa a Judas e este se levantou e saiu. Os discípulos não entenderam que era Judas o traidor. Pensaram que ele tinha saído pra fazer algum mandado de Jesus.

O que é que estava acontecendo com Judas? Há muito tempo, ele estava com o pé atrás. A uma certa altura, começou a agir com desonestidade em relação ao caixa do grupo que ele tomava conta. Você lembra bem como ele reagiu na casa de Marta. Ficou revoltado com o gesto de Maria. Achou um desperdício ela gastar aquele perfume todo com Jesus. Ele não tinha assimilado o jeito de Jesus pensar e fazer as coisas. Não aprendeu a amar como Jesus. Não estava disposto a dar a sua vida, como Jesus estava para fazê-lo. De descontente, ele tinha passado à condição de aliado dos inimigos de Jesus. E já tinha feito um trato com eles. Entregaria Jesus, em troca de dinheiro.

O que é triste em Judas é que ele era um discípulo, uma pessoa que Jesus escolhera, confiava e queria bem. Como diz o salmo que Jesus também citou: “Quem comia comigo, levantou contra mim o calcanhar”. A traição que mais dói é a dos amigos e dos parentes. E, claro, da pessoa que se ama. Essa é a traição mais dolorosa. Até o fim, Jesus o tratou bem, esteve em comunhão com ele, não o denunciou ao grupo. Ali, na ceia, pegou o pão repartido, passou no molho e lhe deu. No final das contas, esse pão repartido, esse pedaço de pão, lembra a Eucaristia. Não era, com certeza, o momento sagrado que conhecemos, mas o contexto é o da Ceia. Parece uma última chance. Jesus está em comunhão com ele, o trata com deferência, come com ele. Ainda assim, Judas o rejeita. Deixa o seu coração ser tomado pelo mal. O evangelista escreveu tristemente: Satanás entrou em Judas. Judas permitiu que o mal o dominasse. João escreveu: Judas saiu. Era noite. Foi concluir as negociações para entregar o seu Mestre, naquela mesma hora.

Guardando a mensagem

O texto de hoje nos apresenta o caso de um discípulo, que tinha andado com Jesus nos seus três anos de ministério, que aos poucos foi se afastando do evangelho. De infidelidade em infidelidade, Judas chegou a romper com o seu Mestre, justo na ceia pascal, onde Jesus consagrou ao Pai a oferta de sua própria vida em resgate pelos pecadores. Pedaço de pão é uma expressão que faz referência ao contexto da Eucaristia. “Fração do pão” foi o nome da celebração da Ceia nas primeiras comunidades. Na mesa da comunhão, celebramos a nossa união com Jesus que se entregou por nós. Uma lição que você poderia tirar, hoje, dessa leitura, seria a necessidade de fazer um bom exame de consciência, para saber quanto de Judas tem dentro do seu coração. E ficar alerta: a traição começa nas coisas pequenas. Dê um jeito em Judas, enquanto é tempo!

Então Jesus molhou um pedaço de pão e o deu a Judas (Jo 13, 26)

Vamos rezar a Palavra

Senhor Jesus,

Pedro pensou que, com ele, a coisa seria diferente. Jurou que te seguiria, para onde quer que fosses. Tu disseste que naquela hora não era possível, mas depois ele seguiria mesmo. Mas, Pedro era mesmo impetuoso, decido. Disse logo que daria a sua vida por ti. Que grandeza de coração, a de Pedro. Mas, coitado, não contava com o galo. Tu o chamaste para a realidade, dizendo que ele te negaria três vezes, antes que o galo da madrugada cantasse. Somos fracos e pecadores, Senhor. Tem misericórdia de nós. Seja bendito o teu santo nome, hoje e sempre. Amém.

Vivendo a palavra

Faça, hoje, um bom exame de consciência. Identifique pequenas ações ou omissões que podem ir, devagarinho, afastando você de Jesus, do seu evangelho e de sua Igreja.

Pe. João Carlos Ribeiro – 16.04.2019