09 fevereiro 2020

AJUDANDO O MUNDO A SER MELHOR

Vocês são o sal da terra. Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? (Mt 5, 3)

09 de fevereiro de 2020

Estamos no Sermão da Montanha. Nele, Jesus começou sua pregação, proclamando as bem-aventuranças.  Com as bem-aventuranças, conforme o evangelho de Mateus, que estamos lendo neste ano litúrgico, Jesus traçou o perfil do cidadão do Reino de Deus: alguém desapegado dos bens desta terra, solidário com as dores dos seus irmãos, manso nos seus relacionamentos, comprometido com a verdade e a justiça, misericordioso com os seus semelhantes, correto em suas intenções, artesão da paz, perseverante nas provações. O primeiro que cabe nesse perfil é o próprio Jesus. As bem-aventuranças são a carta de identidade do cristão. Esta é a nossa vocação: viver, nesse mundo, como filhos de Deus que somos, tendo Jesus como nosso modelo e guia.  

Depois que Jesus fez essa linda declaração das bem-aventuranças, ele deu mais um passo em sua explicação. Aí entra o evangelho de hoje, que vem logo em seguida. As bem-aventuranças, o que são? Elas traçam o perfil do cristão. Ótimo. Vocês são os abençoados por Deus, os bem-aventurados, por obra de sua graça e do compromisso de vida de vocês. Muito bem. Mas, não para formarem uma comunidade de santos separada do mundo.  O que vocês são deve ajudar o mundo a ser melhor. Vocês são o sal da terra! Vocês são a luz do mundo!

Sempre houve uma tentação de se querer viver a fé fora do mundo real. No tempo de Jesus, os essênios formavam uma comunidade que vivia no deserto, sem contato com ninguém de fora. E toda aquela cobrança que havia, por parte dos fariseus, sobre o puro e o impuro, no fundo era querendo que o povo de Deus não tivesse contato com os pagãos ou com os não praticantes da Lei. E Jesus insistiu: vocês são o sal da terra, a luz do mundo. São uma cidade construída sobre um monte, não podem não ser uma referência para o peregrino, um farol para os navegantes. Uma luz no candeeiro da sala, num lugar alto, é o que vocês são.

Sobre a luz, já falamos em outras ocasiões. Vamos, hoje, considerar melhor esse “sal da terra”. No tempo de Jesus, o sal vinha de uma região do Mar Morto, que era chamado de Mar do Sal. E tinha muitas utilidades, além de condimentar os alimentos. Por exemplo, todos os sacrifícios (de animais) oferecidos no Templo levavam sal. Pedras de sal recolhidas no Mar Morto, em estado bruto, serviam também para manter o fogo aceso. E muitos outros usos.

Para a compreensão do evangelho de hoje, é bom não perdermos de vista duas preciosas utilidades do sal: preservar e dar sabor. De maneira especial, o sal era usado para preservar da corrupção. Naquele tempo não havia geladeira. O peixe, a carne precisavam levar sal para não se estragar. E, claro, comida insossa não tem graça. O sal realça o sabor dos alimentos, dá sabor.

E é disso que Jesus está falando: o cristão, no mundo, é sal. A sua condição de filho de Deus deve influir no seu ambiente, deve influenciar positivamente sua casa, sua rua, seu trabalho. O cristão é sal para preservar o mundo da corrupção, que é o pecado, a injustiça, a maldade. A condição do cristão é a do sal, um influenciador. A comunidade cristã não pode se fechar no seu mundinho de paz, mas precisa ser no seu ambiente uma força em favor da justiça, da educação de qualidade, do respeito à vida.  Se o cristão e sua comunidade se negam a ser sal da terra, o mundo fica privado da força de Deus que renova todas as coisas. Se o cristão e sua comunidade se negam a ser luz do mundo, o mundo fica privado da luz de Cristo.    

Guardando a mensagem

Nas bem-aventuranças, Jesus traçou o perfil dos filhos de Deus, dos seus seguidores. Ele é o que mais se encaixa nesse perfil. Assim, ser cristão é ser seu seguidor, seu imitador. No evangelho de hoje, Jesus dá um segundo passo: explica que essa condição de filhos de Deus não nos afasta da realidade, mas nos faz influenciadores no mundo. Neste sentido, nos disse, vocês são o sal da terra (não do céu), a luz do mundo. Sal para preservar da corrupção, da degradação que o mal provoca no mundo dos negócios, da cultura, da vida em sociedade. Sal para conferir sabor, para sublinhar o sentido da vida, do trabalho, da família. Cristo é a luz do mundo. A comunidade cristã e cada batizado iluminam o mundo com suas palavras, com seu testemunho, com suas ações. Por eles, Cristo ilumina o mundo.

Vocês são o sal da terra. Ora, se o sal se tornar insosso, com que salgaremos? (Mt 5, 3)

Rezando a palavra

Senhor Jesus,

Tu nos disseste, hoje, que a nossa condição de filhos abençoados de Deus, de bem-aventurados, nos faz pessoas e comunidades comprometidas com o bem, a verdade e a justiça no mundo. Nossas palavras, nossas ações, nosso testemunho oferecem a tua luz e a tua verdade a todos, influenciando positivamente os ambientes onde vivemos, trabalhamos, nos divertimos. Se o sal perde sua força de salgar, para que serve, perguntaste. Livra-nos, Senhor, de ser sal que não preserva e que não dá sabor, que não está no mundo como uma força em favor da vida, da liberdade, da inclusão, do cuidado com a casa comum. Em nós, apesar de nossa fraqueza, és tu que ages salgando, salvando, iluminando o mundo. Seja bendito o teu santo nome, hoje e sempre. Amém.

Vivendo a palavra

Reze, na sua Bíblia, o Salmo 111 (ou 112). Começa assim: Feliz aquele que teme o Senhor e que muito se compraz em seus mandamentos.

09 de fevereiro de 2020
Pe. João Carlos Ribeiro, sdb



08 fevereiro 2020

COMO OVELHAS SEM PASTOR


Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor (Mc 6, 34)


08 de fevereiro de 2020

A pregação da palavra de Deus é uma coisa maravilhosa. Ninguém duvida. A celebração ou liturgia, outra coisa fantástica. Mas, nem a pregação, nem a celebração se explicam sem a compaixão, a caridade. A evangelização e a celebração começam e terminam na caridade. Está tudo no evangelho de hoje.

“Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor”. Aí começa tudo, na compaixão. Jesus viu aquele povo que o procurava e lhe doeu o coração vê-lo tão necessitado, tão fragilizado. Para uma pessoa do interior como Jesus, dava pena ver um rebanho sem pastor: as ovelhas se dispersam, os carneirinhos viram presas fáceis para as feras e os ladrões, não têm quem guie a um bom pasto. E olha que Jesus estava levando os discípulos para um lugar afastado para eles descansarem um pouco, pois estavam voltando, muito cansados, de uma missão. Diante daquela cena – ovelhas sem pastor – esqueceu-se o descanso e Jesus começou a “ensinar-lhes muitas coisas”, diz o evangelho.

O que será que Jesus ensinou àquela gente? Podemos imaginar, pois o que ele disse ao povo, certamente, é o que está no evangelho. Ele explicava, contando parábolas, como Deus ama os seus filhos, como fica feliz quando um filho ou uma filha escolhe o bom caminho; como o Pai cuida das aves e das plantas e mais ainda cuida de cada filho. E ainda: como são felizes aqueles que Deus ama. E Deus preza antes de tudo os mais pobres e os mais sofridos. Aí, ele lhes falava do Reino de Deus. Ah, esse mundo fica melhor se Deus for obedecido como bom pai que é e se cada filho for fraterno e bom com seu irmão, com sua irmã. Quanta coisa Jesus tinha para dizer àquele povo maltratado pela violência, pela doença, pela pobreza! E aqueles corações amargurados iam se enchendo de paz, de esperança. Riam com as histórias de Jesus (‘Imagine, o filho disse que ia, mas não foi, mas que malandro!’ - ‘E a festa que o Pai fez pra receber o filho que saiu de casa, ô festão!’ –‘ ‘Mas aquelas moças que foram para o casamento e esqueceram o óleo, que povo sem juízo!). Gente, olha a hora!

Quem falou “olha a hora!”? Os discípulos. Já está ficando tarde. Isso aqui é um lugar deserto. Esse povo precisa voltar pra casa. Já está tudo com cara de fome. Tenha paciência Jesus, a conversa está muito boa, mas está na hora de mandar o povo embora. ‘Mandar o povo embora, como assim? Sem comer nada? Vocês providenciem alguma coisa’. Aí a coisa esquentou... Providenciar, nós? Aí, eles foram pragmáticos, como muitos administradores de hoje. Gastar dinheiro para alimentar essa gente? Não tem dinheiro que chegue. Mande esse povo embora enquanto é tempo. Eles se viram por aí... Olha a mentalidade deles: gastar dinheiro, despedir, mandar embora, não se sentir responsável por ninguém. E Jesus acalmou o grupo. Pera aí... O que vocês têm aí pra comer? Vão, vão ver... Cinco pães e dois peixes? Tragam pra cá. Aí Jesus mandou todo mundo se sentar, formaram grandes grupos, ele pegou aqueles poucos pães e peixes, deu graças a Deus, fez a oração da bênção dos alimentos, partiu (preste atenção a este “partiu”) e ia dando os pedaços aos discípulos para que eles distribuíssem com o povo. Depois, dividiu também os peixes. O resultado, você já sabe. E até a sobra recolhida foi grandiosa. Olha a mentalidade de Jesus: alimentar, por em comum, partilhar, repartir, dividir, somos responsáveis uns pelos outros.

Guardando a mensagem

Antes de tudo, a compaixão. Jesus viu o povo e sentiu seu coração amargurado por vê-lo tão sofrido, tão fragilizado. Ele deixou de lado outro projeto e dedicou-se a “ensinar-lhe muitas coisas”. Isto é a evangelização. A evangelização é o anúncio do amor do Pai pelo seu povo, que nos mandou Jesus como pastor e salvador. A evangelização nasce da compaixão. E gera compaixão, caridade, amor a Deus e ao próximo.

Antes de tudo, a compaixão. Era tarde, o lugar deserto, o povo faminto. Jesus envolveu os discípulos numa linda celebração. Pode ver que todos os detalhes lembram a última ceia, como se fosse uma preparação para a Santa Missa. A celebração nasce da compaixão de Deus pelo seu povo e de nossa compaixão pelo próximo. E gera compaixão, solidariedade, caridade, novas relações.

Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor (Mc 6, 34)


Rezando a palavra


Senhor Jesus,

Hás de nos desculpar. Nós continuamos a pensar igualzinho aos discípulos naquela cena da multiplicação dos pães. Vemos as situações de sofrimento e abandono e cruzamos os braços. Ficamos paralisados por nossa mentalidade pragmática: não temos dinheiro, não temos condições, nem é responsabilidade nossa. A solução que temos é mandar embora, cada um se virar. Senhor, ajuda-nos em nossa conversão. Na evangelização e na celebração, aprendemos contigo outra forma de ver e agir: sermos responsáveis uns pelos outros, fazer alguma coisa com o que temos e, sobretudo, confiar na providência de Deus que se manifesta na partilha e na solidariedade. Seja bendito o teu santo nome, hoje e sempre. Amém.


Vivendo a palavra

Leia o texto do evangelho de hoje em sua Bíblia: Marcos 6,30-34. Anote alguma frase deste evangelho no seu caderno espiritual.

08 de fevereiro de 2020
Pe. João Carlos Ribeiro, sdb



07 fevereiro 2020

PERSEVERAR NAS PROVAÇÕES

Herodes tinha mandado prender João,e colocá-lo acorrentado na prisão. (Mc 6, 14).


07 de fevereiro de 2020

No aniversário de Herodes, certamente no palácio de sua capital Tiberíades, oferece-se um banquete aos grandes da Galileia: a corte, os oficiais, os cidadãos importantes. Herodes se casara com a cunhada, Herodíades, mulher do seu irmão Filipe. Além de cunhada, a mulher era sua sobrinha. A filha dela, enteada do rei, portanto sua sobrinha-neta, boa dançarina, apresentou-se dançando na festa. A dança e os gingados da moça agradaram em cheio os convidados e o rei. Este lhe prometeu um presente, o que ela pedisse, mesmo que fosse metade do seu reino. A mãe combinou com ela que pedisse a cabeça de João Batista. O rei, mesmo entristecido com o pedido, cumpriu sua promessa. É a triste história do martírio de João Batista.

Por que o evangelho de Marcos nos conta essa história tão triste? Uma razão é ir preparando o nosso coração para a morte de Jesus. Na história de João Batista, o ódio da mulher do rei desencadeou a morte do profeta. Na história de Jesus, foi o ódio das lideranças do seu povo que o levaram à morte. Herodes mostrou-se fraco, reticente, objeto de manipulação de Herodíades. Na história de Jesus, foi Pilatos, o governante fraco e manipulado pelo Sinédrio dos hebreus. 

Por que o evangelho de Marcos nos conta essa história de tanta violência? Para podermos fazer uma comparação entre o banquete da morte e a multiplicação dos pães, o banquete da vida, que vem logo em seguida. No banquete de Herodes, o prato é a violência, a cabeça decapitada de João Batista. No banquete de Jesus, o prato é a partilha, a providência divina, a própria vida de Jesus entregue. Cinco mil homens se alimentaram com o que seria cinco pães e dois peixes.

Por que o evangelho de Marcos nos conta essa história de final tão desalentador? Para aprendermos o caminho da fidelidade com o profeta João Batista. No anúncio, ele foi claro e forte, denunciando os desmandos e o mau exemplo da vida irregular do rei e sua concubina. |João foi fiel até o fim, sem se acovardar, nem recuar na palavra que devia proclamar.

Por que o evangelista Marcos nos conta essa história? Para nos indicar que o caminho de João Batista continua no caminho de Jesus. Exatamente depois que João foi preso, Jesus voltou para a Galileia e começou a pregação, proclamando o evangelho do Reino de Deus.

Guardando a mensagem

Em todos os tempos, os profetas são perseguidos. Jesus disse que, em contraponto, os falsos profetas são aplaudidos. Lendo o fim de João Batista, nos preparamos para a paixão de Jesus. Ele tomará o caminho dos profetas, homens da verdade de Deus, que terminam incompreendidos pelo povo e perseguidos pelas autoridades. Também nos ajuda a entender a graça da multiplicação dos pães que prepara a Eucaristia: Jesus comunica vida, dando-se a si mesmo. Herodes comunica morte, poupando-se a si mesmo. João Batista foi fiel à sua missão, denunciando o erro e perseverando na provação. Esse é o caminho do cristão. Não desistir, não se intimidar diante das dificuldades. Jesus continua o caminho de João. Nós continuamos o caminho de Jesus.

Herodes tinha mandado prender João,e colocá-lo acorrentado na prisão. (Mc 6, 14).

Rezando a palavra

Senhor Jesus,

A atuação do governante Herodes, violento no exercício do poder e escandaloso em sua vida pessoal, produziu morte na história do seu povo: exploração, fome, perseguição política. É o que nos diz essa cena do martírio de João Batista. Já a tua atuação, Jesus, a atenção às necessidades daquela gente e o compromisso com Deus produziram vida na história do teu povo: acolhimento, partilha, fartura. É o que nos diz a cena da multiplicação dos pães que vem logo em seguida. Dá-nos, Senhor, tomar distância dos banquetes dos Herodes de hoje e pautarmos nossa vida e nossas opções pelo teu banquete no deserto. Seja bendito o teu santo nome, hoje e sempre. Amém.

Vivendo a palavra

Hoje é um dia bom pra você fazer um exame de consciência. Pergunte-se, em um momento de recolhimento do seu dia, se está sendo fiel ao que Deus tem lhe confiado como missão. 

07 de fevereiro de 2020
Pe. João Carlos Ribeiro, sdb

06 fevereiro 2020

PORQUE ELES DEVIAM LEVAR UM CAJADO

Recomendou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um cajado (Mc 6, 8).

06 de fevereiro de 2020



Jesus está enviando os doze em missão. Só isso, já vale uma meditação. Toda a Igreja é missionária. Bom, Jesus está enviando os doze e lhes faz algumas recomendações, sobretudo que eles partam em missão, em grande despojamento. Não levem pão, nem sacola, nem dinheiro. Só com a túnica do corpo, sandálias nos pés e um cajado. Um cajado. Por que deviam levar um cajado?

Cada evangelista, mesmo narrando a mesma cena, deixa seu toque especial. Cada pessoa, mesmo contando a mesma história, marca sua diferença num detalhe, não é assim? O evangelista Marcos diz que Jesus mandou levar um cajado. Mateus e Lucas dão outros pormenores, e incluem o cajado na lista do que Jesus disse que não levasse. E agora? Agora, é ver qual é o sentido desse cajado na história.

Bom, vamos deixar o evangelho de Marcos de molho e vamos para o livro dos Salmos. O Salmo 23, que você conhece bem, diz assim: “O Senhor é o meu pastor, nada me falta. Em verdes pastagens, me faz repousar... Ainda que eu caminhe por vale tenebroso nenhum mal temerei, pois estás junto a mim. Teu bastão e teu cajado me deixam tranquilo”. Viu que entrou o cajado nessa oração? O Senhor é o meu pastor. Deus é o nosso pastor. Nós somos as ovelhas do seu rebanho. Ele nos conduz para boas pastagens e para águas correntes. E mesmo que você esteja numa situação muito difícil, como é ele que o(a) conduz, você não tem o que temer. O bastão e o cajado dele são a sua segurança, a nossa segurança. Bom, bastão e cajado são a mesma coisa. É a vara com uma haste arredondada que o pastor tem sempre na mão. E por que o cajado de Deus, nosso pastor, é a sua segurança?

Bom, aí eu preciso lhe dizer para que servia o cajado ou bastão, na mão do pastor. Você não tem ideia como a profissão de pastor era trabalhosa, no tempo da Bíblia! O pastor tinha que levar as ovelhas, todo dia, para pastar, num lugar que tivesse também água, coisa difícil naquela terra seca (grande parte da Palestina) e complicada, se encontrasse pela frente um roçado, uma plantação. E você pode imaginar, ovelha é bicho obediente, mas em grande número, é um quebra-cabeça pra manter o rebanho junto ou no caminho certo. Aí o cajado é importante para tanger ou conter ovelhas afoitas. Já tem uma haste arredondada própria para segurar as ovelhas que estiverem se afastando, por exemplo. E mais, no campo havia muitas feras doidas pra comer uma ovelha gordinha: lobos, ienas, leões... Aí o cajado era a arma para enfrentar as feras e defender as ovelhas. E, de noite, tinha-se que ficar vigilante... não faltava ladrão querendo carregar as ovelhas. Aí o cajado era a arma do pastor. Ele partia com tudo pra cima do ladrão e o bandido saía todo machucado. Os pastores eram quase sempre jovens, fortes e briguentos. Ninguém se metesse com eles, não. Percebeu? Eram três os usos do cajado: organizar a marcha das ovelhas, afugentar as feras do campo e lutar contra os assaltantes. 

Voltemos ao Salmo 23: “O Senhor é o meu pastor, nada me falta. Em verdes pastagens, me faz repousar.... Ainda que eu caminhe por vale tenebroso nenhum mal temerei, pois estás junto a mim. Teu bastão e teu cajado me deixam tranquilo”. Deus defende você. Ele enfrenta o lobo ou o ladrão e não permite que lhe façam mal. O seu cajado é a sua segurança. Deus toma a sua defesa. Ele cuida de você. Jesus disse, no evangelho de João: “Eu sou o bom pastor. O mercenário, quando o lobo ataca, corre e larga as ovelhas. Eu dou a vida pelas minhas ovelhas”.

Guardando a mensagem

Jesus enviou os doze em missão. A recomendação foi que não levassem nada, a não ser um cajado. Cajado é coisa de pastor. O pastor é Jesus. Os doze participam da missão de Jesus, de cuidar do rebanho. O cajado representa a responsabilidade do pastor de cuidar das ovelhas (com o cajado, ele tange as mais lentas e segura as mais apressadas). Mas representa também o zelo que eles devem ter na defesa do rebanho (com o cajado, o pastor afugenta as feras do mato e enfrenta os larápios). Os doze são, então, os pastores do rebanho de Deus, nossos líderes religiosos. É por isso que os nossos bispos têm um báculo, imitando o cajado dos pastores. O báculo representa a responsabilidade que eles receberam de cuidar do povo de Deus como bons pastores e de defendê-lo de todas as ameaças (heresias, ideologias totalitárias, divisões, etc.).

Recomendou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um cajado (Mc 6, 8).

Rezando a palavra

Senhor Jesus,

Está dito no evangelho de hoje, que os doze partiram e fizeram três coisas: pregaram que todos se convertessem, expulsaram muitos demônios e curaram numerosos doentes. Realmente, tinham mesmo que levar o cajado, assim começaram a entender que são pastores do teu povo: organizam o rebanho, expulsam o mal e derrotam as doenças. Senhor, nós te bendizemos porque somos ovelhas do teu rebanho. E te pedimos que, com o teu Santo Espírito, sustentes os teus ministros em sua missão de ensino, de pastoreio e de santificação do rebanho. Seja bendito o teu santo nome, hoje e sempre. Amém.

Vivendo a palavra

Reze, hoje, pelo padre de sua comunidade. Faça uma prece pelo seu bispo, também.

06 de fevereiro de 2020
Pe. João Carlos Ribeiro, sdb



05 fevereiro 2020

OS IRMÃOS DE JESUS

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Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares (Mc 6, 4)
05 de fevereiro de 2020
Diga-me uma coisa: a sua família é numerosa ou é bem pequena? ... O pessoal de outra geração tinha família muito grande, não é verdade? No tempo de Jesus, na Palestina, as famílias eram numerosas. Todos os aparentados com o chefe da casa ou que morassem juntos pertenciam à mesma família. Os parentes moravam na mesma casa ou eram vizinhos. E os filhos, claro, se criavam juntos, convivendo com os parentes da mesma idade. No hebraico, não há palavras específicas para parentes próximos. Todos são chamados de irmãos. Irmãos podem ser primos, tios, sobrinhos, etc.  Irmãos são todos os que pertencem à grande família.
No evangelho de hoje, aparece uma lista de irmãos de Jesus. Seriam irmãos mesmo ou é uma forma de designar os parentes próximos? Vamos à sinagoga de Nazaré pra ver o que está acontecendo. Jesus está pregando. É um dia de sábado. As pessoas dali mais ou menos devem ser conhecidas dele. É verdade que ele ficou um tempo fora, mas foi ali que se criou. As pessoas estão admiradas com sua pregação. Mas, já começa um burburinho, gente que está estranhando ou querendo desqualificar a presença de Jesus. Vamos ouvir...  “Oi, este homem não é o carpinteiro? É ele mesmo. Oi, e ele não é o filho de dona Maria? Não é irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as irmãs dele não vivem todas por aqui? Onde é que arrumou tanta sabedoria? E esses milagres que dizem que ele anda fazendo por aí? Como é isso?”.
Vamos sair um pouquinho da sinagoga, para eu lhe dar uma explicação. Venha aqui fora... Escute só:  “Irmãos” é uma forma de nomear os parentes próximos, possivelmente seus primos, aqueles com quem ele tinham se criado. Esses supostos irmãos Tiago, José, Simão e Judas aparecem em outras partes do evangelho, como filhos de outros pais e outras mães. A Igreja sempre entendeu, lendo a Bíblia Sagrada e escutando a Tradição desde o tempo dos apóstolos, que Maria teve apenas Jesus. Ele é o seu primeiro e único filho. Ser primogênito no povo de Deus era uma coisa muito especial, porque tinha uma relação especial com Deus, era consagrado ao Senhor. Jesus era um primogênito. Mas, isso não quer dizer que depois dele, vieram outros filhos. Tira qualquer dúvida o fato de Jesus, antes de sua morte na cruz, ter entregue sua mãe aos cuidados do seu discípulo João, este era filho de Zebedeu. Se Maria não ficou com nenhum filho é porque não os tinha, como não tinha mais o seu esposo José, àquela altura.
Bom, o importante é notar que ter conhecido Jesus, tê-lo visto crescer entre os seus muitos parentes, foi uma razão para muita gente em Nazaré não acolher a sua pregação. Tinham um conhecimento superficial da pessoa de Jesus. Julgavam conhecê-lo. E isso foi para eles um motivo para fechar o coração para a mensagem de Deus da qual ele era portador, para a pessoa divina que ele era e para sua mensagem sobre o Reino de Deus.
Guardando a mensagem
O povo de Nazaré, por ter acompanhado superficialmente a infância e a juventude de Jesus, por conhecer seus pais e seus parentes, negaram-se a crer na sua pregação. Fecharam o coração às maravilhas de Deus que ele testemunhava com suas palavras, suas atitudes e seus milagres. Que grande oportunidade eles perderam para reconhecer e acolher a manifestação de Deus na pessoa do seu filho humanado! Eles fecharam-se no sentimento mesquinho da inveja e do preconceito. Isso pode acontecer com você, com todos nós. Podemos permanecer com uma vaga ideia sobre a pessoa de Jesus, perdendo a chance de nos deixar evangelizar com maior profundidade. Ou nos deixar iludir por discussões inúteis que nos tiram do foco a pessoa do filho de Deus e seu anúncio sobre o Reino. Não faça como o povo de Nazaré, pelo amor de Deus.
Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares (Mc 6, 4)
Rezando a palavra
Senhor Jesus,
Ficaste triste em Nazaré, decepcionado. Não te acolheram. Então, não acolheram o Pai que te enviou. Deram as costas ao anúncio do Reino de Deus. Foi quando disseste, com certo amargor: “É, um profeta só não é estimado em sua própria pátria, entre seus parentes e familiares”. Senhor, longe de nós, hoje, te decepcionar. Não queremos que nenhum preconceito ou opiniões duvidosas nos impeçam de acolher o evangelho do Reino que tu nos trazes. Seja bendito o teu santo nome, hoje e sempre. Amém.
Vivendo a palavra
Sabe quem conhece bem Jesus, em sua humanidade? A mãe dele. Ela pode lhe dizer muita coisa sobre ele. Faça hoje uma prece a essa nossa boa mãe: “Mãe, me diz quem é Jesus, me fala sobre ele”.
Vou deixar, no meu blog, depois do texto da Meditação uma página com mais explicações sobre essa história dos irmãos de Jesus. É só clicar no link da Meditação ou digitar o endereço www.padrejoaocarlos.com.
05 de fevereiro de 2020
Pe. João Carlos Ribeiro, sdb
OS IRMÃOS DE JESUS - UMA EXPLICAÇÃO
Evangelho (Mc 6,1-6)

Naquele tempo, 1Jesus foi a Nazaré, sua terra, e seus discípulos o acompanharam. 2Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam: “De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos? 3Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco?” E ficaram escandalizados por causa dele. 4Jesus lhes dizia: “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares”. 5E ali não pôde fazer milagre algum. Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos. 6E admirou-se com a falta de fé deles. Jesus percorria os povoados das redondezas, ensinando.

Neste texto, são mencionados os irmãos de Jesus: Tiago, José, Judas e Simão. E ainda se fala genericamente de suas irmãs. Muita gente fica confusa com essa informação. No Novo Testamento, há sete lugares onde há referências assim aos irmãos de Jesus.

A língua falada pelo povo de Jesus era o aramaico. Nesta língua bastante pobre, a palavra “irmão” servia tanto para irmãos de sangue como para os parentes mais próximos. Especialmente a palavra ‘irmãos’ referia-se a primos. No livro das Crônicas, há uma passagem em que se diz que fulano não teve filhos, só filhas. E as filhas se casaram com os filhos do irmão do seu pai, portanto com os primos. Lá está escrito: “Elas se casaram com os seus irmãos” (1 Cr 23,22). É só um exemplo. Temos muitos deles na Bíblia: Tio e sobrinho, como Abraão e Lot são irmãos (Gn 13,8).  Parentes próximos são irmãos, como se lê abundantemente no livro de Tobias. Então, concluímos Tiago, José, Judas e Simão podem ser primos de Jesus.

Observando as listas de mulheres que estavam aos pés da cruz de Jesus, na sua morte, nos quatro evangelhos, encontramos também algumas pistas (Mt 27, Lc 23, Mc 15, Jo 19).  Na lista do apóstolo João, tem Maria, sua mãe, a irmã de sua mãe e Maria Madalena. Notou? Aos pés da cruz, tem uma tia de Jesus. Na lista de Mateus, além de Maria Madalena e a mãe dos filhos de Zebedeu, tem uma Maria, mãe de Tiago e José. Notou? Tiago e José estão na lista dos irmãos de Jesus. Se essa Maria for irmã da mãe de Jesus, então, eles são seus primos.

Na dúvida, temos uma observação prática muito convincente. Do alto da cruz, em suas dores de morte, Jesus entregou sua mãe aos cuidados do apóstolo João, que não era seu irmão.  “Mulher, eis aí o teu filho”. E está escrito que daquela hora em diante Maria foi morar na casa de João. Tivesse filhos ou filhas, eles não permitiriam isso, nunca. A mãe ir morar com um estranho, imagine!  

Cremos com a Igreja que Maria não teve outros filhos, só Jesus. E ela o concebeu por obra do Espírito Santo. Ele é o filho único de Deus, o unigênito do Pai.

05 de fevereiro de 2020
Pe. João Carlos Ribeiro, sdb

04 fevereiro 2020

QUEM ME TOCOU?

Os discípulos disseram: “Estás vendo a multidão que te comprime e ainda perguntas: ‘Quem me tocou?’” (Mc 5, 31)


04 de fevereiro de 2020.

Você recorda o evangelho de ontem? Naquela cena, Jesus estava em terras pagãs. Naquela região, ele encontrou um homem possuído por uma legião de espíritos maus que o mantinham morando no cemitério. O homem possuído pode muito bem ser uma representação do povo pagão. A cena ficou marcada pela presença dos porcos. O porco era sinal de impureza. Para os hebreus, os pagãos eram uma gente sem a bênção de Deus.

Hoje, Jesus volta à terra de Israel. Uma mulher e uma menina estão dolorosamente enfermas. A menina e a mulher podem estar representando o povo de Deus. E sabe por quê? As duas estão ligadas ao número 12. Doze é o número do povo de Deus, o povo das doze tribos. A comunidade de Jesus, a sua Igreja, está em torno dos doze apóstolos. 

Uma menina de doze anos estava morrendo. Ela era filha do chefe da sinagoga, Jairo. Uma mulher estava sofrendo de uma hemorragia há doze anos. O sangue era um problema grave na vida e na religião do povo da Bíblia. Qualquer contato com sangue gerava impureza nas pessoas. O impuro estava excluído do contato com os outros e das bênçãos de Deus. As mulheres eram as maiores prejudicadas por este sistema religioso da pureza legal, que vigorava no tempo de Jesus. E vou lhe dizer o porquê. Por causa da menstruação e do parto. Mensalmente, a mulher enfrenta a perda de sangue, na menstruação. Ficava impura. No parto, a mulher tinha que se purificar, com uma quarentena e sacrifícios no Templo. Sangue, que era sinal da vida, não podia ser desperdiçado, nem tocado. Gerava impureza. A impureza afastava a pessoa da bênção de Deus.

Então, no fundo, no fundo, o problema no texto de hoje é com o sangue, isto é com a impureza. Podemos imaginar, pensando um pouco ou seguindo os comentadores do evangelho, que a menina aos doze anos poderia estar na sua primeira menstruação. Poderia ser esse o seu problema, associado a alguma doença. E a mulher também sofria com uma hemorragia (de sangue) há muito tempo e já tinha gasto o que possuía com médicos e tratamentos. Pode-se pensar numa menstruação desordenada dessa senhora, um drama sem tamanho para sua vida religiosa.

Veja que imagem vai surgindo.... O povo de Deus está representado pela menina de 12 anos e pela mulher que sofria há 12 anos. O povo de Deus, em sua vivência religiosa, estava marcado pela lei da pureza legal, que acabava marginalizando muita gente, sobretudo as mulheres. A menina e a mulher estão em grande sofrimento por causa do sangue, por causa das leis de pureza. É em Jesus, que este povo encontrará vida, saúde, purificação. Jesus nos salvou assumindo nossos pecados, tomando nosso lugar. De certo modo, ao ser tocado pela mulher impura, ele assume a sua impureza. O mesmo se diga, tocando na menina como o fez, tomando-a pela mão.

Guardando a mensagem

Na terra dos pagãos, Jesus libertou o homem que vivia no cemitério, limpando simbolicamente toda aquela terra da impureza dos porcos. Na história do homem do cemitério, Jesus está libertando o povo pagão daquela região. Jesus purificou aquela terra vencendo e expulsando o maligno. Na terra do povo de Deus, Jesus liberta as duas mulheres, devolvendo-lhe a saúde e incluindo-as na família e na comunidade, libertando-as da impureza da sua perda de sangue. Nesta história das duas mulheres, Jesus está libertando todo o povo de Deus. Claro que o evangelho tem muitas mensagens maravilhosas para nossa vida, mas elas precisam partir de uma compreensão dos elementos do texto.

Os discípulos disseram: “Estás vendo a multidão que te comprime e ainda perguntas: ‘Quem me tocou?’” (Mc 5, 31)

Rezando a palavra

Senhor Jesus,

Tu és o redentor da humanidade. Redentor dos de longe, os pagãos, e dos de perto, os membros do povo eleito. Lá, na região dos pagãos, encontraste a opressão do mal sobre o ser humano. E o venceste, atraindo para ti a ira daquela gente que te expulsou de suas terras. Na terra do povo santo, também encontraste a opressão da lei religiosa da pureza, que causava exclusão e sofrimento, sobretudo das mulheres e dos doentes. E, pela fé, comunicaste vida e saúde, tomando o lugar dos pecadores, carregando-te de suas dores. Tu és o nosso redentor. Seja bendito o teu santo nome, hoje e sempre. Amém.

Vivendo a palavra

Aparecendo uma oportunidade hoje, ajude alguma pessoa doente a viver o seu momento de enfermidade como verdadeiro encontro com o Senhor.

Sendo hoje o Dia Mundial de Combate ao Câncer, em nosso programa de rádio, nesta semana, estamos rezando por quem está lutando contra o câncer. Neste sentido, tendo algum pedido de oração, mande pra gente. 

04 de fevereiro de 2020

Pe. João Carlos Ribeiro, sdb