25 novembro 2014

Só um voltou

Eram dez, mas só um voltou para agradecer (Lucas 17, 1-19). Jesus notou isso e queixou-se: "Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser esse estrangeiro?". Todos eles tinham pedido ajuda aos gritos, implorando: "Jesus, tem compaixão de nós".  E até obedeceram a orientação do Mestre de ir logo a Jerusalém para apresentarem-se aos sacerdotes e pedirem o atestado de que estavam curados da lepra podendo retornar às suas famílias. Foram, na verdade, em espírito de fé, porque ainda estavam doentes quando tomaram a estrada. Mas, no caminho, na obediência da fé, viram-se curados. Foi aí que um voltou. E os outros prosseguiram.

Poderíamos até tentar entender as razões dos nove que seguiram para o Templo: eles foram tomar providências para poderem se reintegrar logo em seus povoados. A lei mandava assim: adoeceu de lepra, fica excluído da cidade, vá morar nos matos, não se aproxime de ninguém; ficou bom, vá ao Templo e pegue um atestado pra poder entrar de novo no seu povoado.  Só que ficar bom de lepra era muito difícil. Enquanto caminhavam, viram-se curados. Voltar para avisar a Jesus e agradecer ou seguir pra resolver logo o seu problema? Eles nem titubearam. Prosseguiram para Jerusalém. Com certeza, se não foram capazes de voltar e reconhecer a obra que Jesus tinha feito por eles, em Jerusalém não iriam dizer que foram curados por ele. Com certeza, relataram que estavam curados, e pronto. Pensaram apenas neles mesmos. Precisaram, imploram. Ficaram bons, esqueceram-se. Não viram necessidade de reconhecer a intervenção de Deus, por meio de Jesus. Usufruiu da graça, tá bom demais. Gente egoísta só pensa em si. Estou falando dos nove de hoje. Os nove de ontem mostraram-se egoístas, interesseiros, mal-agradecidos. Os nove de hoje continuam os mesmos de ontem.

Mas um preferiu voltar para agradecer, para bendizer a Deus pela cura. Sentiu-se na obrigação de voltar. Lucas descreveu assim: "Um deles, ao perceber que estava curado, voltou glorificando a Deus em alta voz; prostrou-se aos pés de Jesus e lhe agradeceu. E este era um samaritano". O fato de ser samaritano foi notado por Jesus: "Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?". O fato de ser samaritano possivelmente lhe trazia maior dificuldade de reconhecer que a obra de Deus teria acontecido em sua vida pelas mãos de um judeu. Isso era muito mais difícil para ele, que vinha de uma tradição religiosa um pouco diferente, em conflito com a religião e o mundo dos judeus. Mas, logo ele, um estrangeiro, manifesta sua gratidão, bendiz a Deus e reconhece a presença de Deus em Jesus, pois se prostra aos seus pés em sinal de adoração. "A tua fé te salvou", lhe disse Jesus.

27 outubro 2014

Morrendo a cada dia

Não era para o cristão ter medo de morrer, não era mesmo. Toda a vida cristã está marcada pela dinâmica da morte e ressurreição, pela dinâmica da Páscoa de Cristo. A gente já começa a vida cristã fazendo um exercício de morte. O que é o batismo senão uma participação na morte de Cristo? Só há ressurreição se houver morte, ou não? O apóstolo Paulo ensinou isso claramente: no batismo mergulhamos nas águas da morte, com Cristo. Ali afogamos o pecado, morremos para o pecado. Renascemos para a graça. Ressuscitamos justificados por Cristo.

Então, a gente já começa a vida cristã se exercitando na morte. Renunciamos ao pecado, às seduções do maligno. E toda essa renúncia para abraçar o bem e a verdade que há em Deus. É esse o nosso ato de fé no batismo. Mas, batismo não é só na pia batismal. É todo dia. Todo dia procuramos viver como batizados, como filhos de Deus. Exercitamos cada dia a renúncia ao mal, morrendo para o que não presta e só prejudica os outros e a nós mesmos e ofende a Deus.

A espiritualidade cristã fala de sacrifício, de fuga da ocasião de pecado. Cada dia, procuramos viver o batismo como adesão incondicional ao Deus da vida, desmascarando o mal, vencendo o maligno. Assim, a vida cristã vai se tornando um exercício de morte. É morrendo que se ressuscita para a vida eterna, diz a oração de São Francisco. São Paulo explica assim: Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor. Jesus foi claro: “Quem quiser salvar sua vida vai perdê-la. Mas quem perder sua vida por minha causa, vai salvá-la”. Conclusão: viver como cristãos é viver continuamente a dinâmica da morte. Se quisermos viver para Deus, temos que nos desapegar de tantas coisas, nos desviar de muitos maus caminhos, mantermo-nos longe do mal deste mundo. É que nós rezamos no Pai Nosso: Livrai-nos do mal. 

Batizado não era para ter medo de morrer. Já vive na dinâmica da morte e ressurreição. Já mergulhou sua vida na páscoa de Cristo. A cada dia, procura aperfeiçoar-se no caminho do evangelho que é o caminho daquele que avisou que “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos amigos”. E quando chegar o momento de apresentar-se ao Pai, já está acostumado a entregar-se por inteiro nas mãos de Deus. Viveu para este encontro. Não é naquela hora que vai querer fugir dele. Caminhou desde o batismo para esse encontro definitivo. Confia que a morte é apenas uma passagem para vida plena e verdadeira. Mesmo assim, sabe que o negócio não é brincadeira. Por isso todo dia reza: Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém.

E como a morte é certa, é melhor a gente ir se preparando, vivendo bem. Vivenciando o batismo, na dinâmica de morrer cada dia para o mundo, para o egoísmo, para o mal que nos habita. Para ressuscitar cada dia mais íntegro, mais de Deus.


Pe. João Carlos Ribeiro, sdb

09 outubro 2014

Salvar a família para consertar o mundo

É só abrir os jornais ou ler os noticiários para ver que há uma grande preocupação com as guerras, a crise econômica, a corrupção na política. De fato, o avanço do terrorismo do estado islâmico é uma grande ameaça para o mundo. E o desemprego continua a empurrar os jovens em migração em busca de oportunidades em outras terras.  E a corrupção destrói a credibilidade dos governos e enfraquece a confiança das pessoas na política. Mas, talvez haja um problema mais de fundo, uma coisa mais básica e mais vital que esteja em profunda crise. É, não tenha dúvida, a família. Estamos passando por uma profunda mudança cultural que está esfacelando ou ao menos redesenhando a família. A crise do mundo passa pela crise da família.

O Papa Francisco convocou um duplo Sínodo para tratar deste assunto: os desafios pastorais da família, no contexto da evangelização. Sínodo é uma grande reunião com representantes da Igreja de todo o mundo, para refletir e propor soluções no serviço da evangelização. Após a reunião extraordinária neste ano, o Sínodo volta a se reunir no ano que vem e aí deve tomar decisões importantes, com o Papa, sobre este tema tão candente. Antes do Sínodo, em todas as Dioceses do mundo foi respondido um longo questionário que indagou sobre os problemas da família, o que está acontecendo, o que se está fazendo e o que poderá ser feito melhor. O Sínodo será a grande resposta da Igreja: como nós, missionários do evangelho de Jesus, vamos contribuir para fortalecer a família como uma célula básica da sociedade e da Igreja.