22 abril 2017

Os três erros de Tomé

Meu Senhor e Meu Deus! (Jo 20, 28)

Chegamos ao segundo domingo da Páscoa. Domingo passado, poderíamos dizer, foi o domingo de Maria Madalena. Ela foi ao sepulcro cedinho, descobriu que estava aberto e vazio e avisou aos discípulos. Hoje, podemos dizer, é o domingo de Tomé. Ele precisou ver para crer. E mereceu um bom puxão de orelhas de Jesus.

Tomé cometeu três erros, penso eu. O primeiro foi o seguinte: Ele faltou à celebração. No domingo da ressurreição, à tardinha, os discípulos estavam reunidos... essa era a hora em que a comunidade se reunia nos primeiros tempos do cristianismo, ao entardecer do domingo. Nessa celebração do domingo de páscoa, o próprio Jesus ressuscitado se apresentou no meio deles. Tomé não estava nesta reunião. Não sei onde andava, mas faltou a esse momento tão importante.  Jesus fez a saudação do shalom: A paz esteja com vocês! Mostrou-lhes as mãos e o lado, para eles terem certeza que era ele mesmo, o que fora crucificado. E a comunidade ficou, claro, exultante de alegria. Jesus lhes comunicou o Espírito Santo, soprando sobre eles. E lhes enviou em missão, a mesma missão de reconciliação que ele recebera do Pai. Tomé perdeu esse momento tão importante da vida da comunidade.

Por falar em faltar à celebração, hoje tem muito Tomé ausentando-se da celebração do domingo. Cada um tem sua desculpa, nem sempre válidas. Faltando, acabam perdendo experiências significativas que elevam qualitativamente a vida cristã naquela comunidade. Perdem o encontro com o Senhor ressuscitado que se revela presente no meio de sua Igreja, comunicando-lhe a sua paz, enchendo os seus corações da alegria de Deus e dando-lhe o seu Santo Espírito para confirmar a todos na missão.  Em toda celebração pascal, que é particularmente a Santa Missa dominical, acontece isso mesmo. Várias vezes o presidente da celebração faz a saudação invocando o ressuscitado: “O Senhor esteja convosco!” e a comunidade diz com toda convicção: “Ele está no meio de nós”. Se você, Tomé, faltar à celebração, você está perdendo muita coisa e vai ficando de fora da caminhada da graça em sua comunidade. Esse foi o primeiro erro de Tomé: faltou à celebração.

Faltar já é uma falta. Agora, duvidar... ah, esse foi o seu segundo erro: Tomé duvidou do testemunho da comunidade.  Todo mundo disse a ele o que tinha acontecido. Jesus ressuscitado em pessoa esteve lá, mostrou as marcas de sua crucifixão, soprou sobre eles, os enviou em missão. Não acredito. Mas, como assim não acredita? Isso é invenção, é fantasia, é conversa de vocês. Não, Tomé, nós vimos o Senhor. Viram nada! Se eu não vir a marca dos pregos na sua mão e não por o dedo também no seu lado aberto pela lança, eu não acredito. Não diga uma coisa dessas, Tomé! Duvidou do testemunho da comunidade.

Quando o cristão ausenta-se das celebrações da Igreja, começa a se distanciar da fé. Vai incorporando o espírito do mundo: começa a duvidar,  achar defeito na sua religião, a por sob suspeita os ministros da Igreja e por aí vai. Perde a graça comunicada pelo ressuscitado em cada celebração e vai perdendo o amor pelo seu Senhor e por sua comunidade. É bom não faltar. Mas, se faltar, tenha cuidado para não se distanciar da Igreja. Não deixe que o individualismo do mundo lhe diga que você se resolve diretamente com Deus. A comunidade é quem tem o testemunho sobre Jesus. Não deixe a dúvida entrar no seu coração.

O terceiro erro de Tomé recebeu uma boa reprimenda de Jesus. Precisou ver para crer. Ele só acreditou porque viu.  No domingo seguinte ao da ressurreição, como hoje, eles estavam reunidos de novo, à tardinha. Jesus de novo se apresentou no meio deles e fez a saudação de paz. Chamou logo Tomé e o mandou por o dedo nas marcas das chagas de suas mãos e no seu lado. E lhe disse: “Não seja incrédulo, mas fiel”. Tomé, graças a Deus, mostrou-se humilde  e cheio de fé. Exclamou: “Meu Senhor e meu Deus”. Estava reconhecendo que Jesus era o Senhor, o servo glorificado. E que ele era Deus, como o Pai. “Meu Senhor e meu Deus”. Possivelmente essa é a proclamação de fé mais solene evangelho de João. “Meu Senhor e meu Deus”.

Claro, precisamos fazer experiência de Deus, isto é, ter um encontro pessoal com o Senhor Jesus. Não é só de ouvir falar. Eu preciso falar com Deus. Isso é uma coisa. Outra, é andar só pela lógica da comprovação, só aceitar o que for cientificamente provado ou querer entender tudo de Deus, como se tudo coubesse em nossa cabeça ou em nossa lógica humana. A ressurreição, por exemplo, só podemos alcançar essa verdade pela fé. Só pela fé, podemos encontrar Jesus ressuscitado. Olha o que Jesus falou para toda a comunidade ali reunida e para nós também: “Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”. É o nosso caso. Não conhecemos Jesus presencialmente, nunca o vimos, mas cremos nele. Cremos que ele vive e está conosco.

Então, este é o domingo de Tomé. Ele cometeu três erros: Faltou à celebração, duvidou do testemunho da comunidade e precisou ver para crer. Por sorte, teve um acerto de contas misericordioso com Jesus: “Meu Senhor e meu Deus!”.

Pe. João Carlos Ribeiro – 22.04.2017

15 abril 2017

Os sinais que eles não compreenderam

Impressionante como os discípulos tiveram dificuldade para perceber que Jesus estava ressuscitado. Também pudera, a ressurreição é algo radical, surpreendente e diverso de qualquer expectativa que eles tivessem! Eles estavam fixados na morte, no túmulo. Nesse texto, a palavra “túmulo” se repete sete vezes.

Preocupados como estavam com o túmulo, isto é, presos no horizonte da morte, não se dão conta dos sinais que estão à sua volta que estão apontando para a ressurreição. Dá para perceber pelo menos quatro sinais,  nesse breve relato de São João, que sinalizam a vitória de Jesus sobre a morte. O primeiro é a indicação de ser a madrugada do primeiro dia da semana. É nessa hora, ainda escuro, que Madalena vai ao túmulo. Com a ressurreição, está começando a nova criação, a nova humanidade redimida. Foi numa semana que Deus criou o mundo. O povo de Deus da antiga aliança guardava o sábado, o dia do descanso, o coroamento da obra de Deus. O povo cristão começou a guardar o domingo, o início da nova criação, o dia em que Jesus ressuscitou. Com a ressurreição, começou um novo tempo.

08 abril 2017

O segredo do jumentinho

Quando Jesus entrou em Jerusalém, a cidade inteira se agitou, e diziam: “Quem é este homem?” (Mt 21, 10).

Com certeza, você já participou de muitas romarias. Uma romaria ou uma peregrinação é uma experiência única, que desperta muitos sentimentos e nos deixa muitas saudades. Imagine-se participando da peregrinação anual da páscoa, indo a Jerusalém, com muitos peregrinos. Vamos lá... imaginação funcionando. Pronto?! Já estamos no meio dos peregrinos que estão indo à cidade santa de Jerusalém, na romaria da páscoa. Agora, não haja como turista. Nós somos desse povo. Vai todo mundo a pé, claro. Alguma família leva seu burrinho ou seu jumento com alguém montado e com provisões para a viagem. A páscoa é aquela festa em que se celebra a saída do Egito: Deus libertou nosso povo da escravidão do faraó.  O povo que vem da Galileia, do norte do país, como nós, que é uma região mais baixa, diz sempre que está subindo a Jerusalém.  Então, estamos subindo a Jerusalém, peregrinando para a festa da páscoa.