13 julho 2014

Compreender a Palavra

Jesus não contou por acaso a parábola do semeador. Ele descreveu o que estava acontecendo. Muita gente o escutava, mas a palavra não mudava nada em sua vida.

A semente que caiu no caminho é quem escutou a palavra e não a entendeu. Seu terreno (seu coração) não pode acolher a palavra, porque não a entendeu. Não a recebeu como um terreno preparado para a plantação, para a semeadura.E aí, contou Jesus na parábola, vieram os pássaros e comeram a semente. E ele explicou: vem o maligno e rouba a semente. É quem não compreende a Palavra.

O que é a que a gente pode fazer para compreender a Palavra? Primeiro: prestar atenção. Sem atenção, não se escuta bem, não se entende o teor da comunicação. Prestar atenção. Abrir bem os ouvidos para ouvir bem. Há muita coisa acontecendo ao nosso redor, e em nós. Há muitas palavras sendo ditas. Mas, em tudo sobressai uma palavra especial: a que sai da boca de Deus. O homem não vive só de pão, lembrou Jesus, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. Prestar atenção. Abrir os olhos pra ver e os ouvidos pra ouvir, como se fala no evangelho.

Para entender a Bíblia, a segunda coisa é estudar a palavra. Não é necessário ter curso universitário para ler a Bíblia. O interesse pessoal é mais importante do que muitos estudos. Mesmo quem não sabe ler, pode aprender a Palavra, ouvindo-a. É preciso esforço para ler regularmente a Bíblia, ouvir as explicações dos pregadores, meditá-la... Estudar a palavra é o esforço de ler e reler o texto, procurando o seu sentido, procurando entender a sua mensagem.

A terceira coisa para entender a Bíblia é rezar a palavra. As palavras da Bíblia são uma luz na nossa vida. Elas só podem ser compreendidas dentro do diálogo entre Pai e filhos. Por isso, a oração é o melhor lugar para se compreender a palavra. No diálogo, você fala, expõe sua vida, abre o livro de sua existência. E escuta Deus que lhe fala, nos livros sagrados, iluminando a sua vida, com o amor de Jesus. Rezar a palavra. É o lugar certo onde a palavra ganha sentido. Na oração, o que Deus fala tem um endereço certo: a sua vida, os seus compromissos com os outros e o mundo. Na oração, o diálogo é possível pela presença do Espírito Santo. É ele que nos abre ao mistério de Deus.

Para entender bem a Palavra de Deus, uma quarta coisa: praticá-la. Não se trata apenas de cumprir mandamentos. Mas, de viver à luz da palavra. Viver a palavra. Viver à luz do amor de Deus que a palavra testemunha. Seguir Jesus, como discípulo ou discípula. Reorganizar os próprios valores e a própria existência, segundo a dignidade e a vocação de filho de Deus. Viver na comunhão com Deus. Isto é praticar a palavra.

Prestar atenção, estudar a palavra, rezá-la, praticá-la. Quatro coisas para entender melhor a Palavra de Deus. Porque sem entendimento, é como o caminho que recebe a semente, os pássaros a comem, o maligno a carrega. Não fica nada.

Pe. João Carlos Ribeiro 

Semente na estrada

Jesus contou a história da semente que foi plantada em vários terrenos. Quatro terrenos. À beira da estrada, em terra muita pedregosa, em um terreno coberto de espinhos e em uma terra boa, bem preparada. E aí, é claro, colheu somente no bom terreno. E explicou o que significam os terrenos e a semente. A semente é a palavra de Deus. E os terrenos representam o modo como nós recebemos a Palavra.

Eu nunca prestei muita atenção nessa parte da semente que caiu à beira da estrada. Mas, outro dia fiquei pensando no assunto, e concluí que se trata de uma coisa bastante comum em nossa vida. É que, às vezes, estamos tão distraídos, que não fica nada do que foi semeado. Ou então deixamos todo mundo passar por nós e pisotear tudo o que nos é caro. É por isso que Jesus falou da semente que caiu no caminho: é que nossa vida assim vida vira um estrada, onde todo mundo passa, onde todo mundo pisa. A palavra semeada nem tem a chance de germinar. Como disse Jesus, vêm os pássaros e a comem. Os homens passam e a pisoteiam. A semeadura à beira da estrada não produz nada.

É de se pensar: você não tem uma área de sua vida reservada, o melhor de você mesmo para acolher o que Deus lhe diz? Você não tem um cantinho importante de sua vida, onde ninguém pisa, onde ninguém manda, um lugar reservado onde você pensa sua vida e toma suas decisões? Sabe porque essa pergunta? porque se a gente escuta todo mundo, e qualquer opinião nos influencia, no meio de tantas vozes cada um puxando para o seu lado, a voz de Deus fica apenas mais uma opinião. E aí, a gente perde o controle da direção de nossa própria vida. A gente vira um caminho onde todo mundo passa, uma passarela de opiniões, onde tudo parece ter o mesmo peso... e a voz de Deus, que seria a nossa referência maior, não é mais ouvida ou não é levada a sério.

E a voz de Deus, é claro, tem que ter um peso diferente. Como Pedro falou pra Jesus: Só tu, Senhor, tens palavras de vida eterna. Na verdade, a fala de Deus não é só uma voz que vem de lá pra cá, em mão única, ou uma voz de cima pra baixo. Deus fala conosco como numa pista de duas mãos. Ele fala e eu escuto. Eu falo e ele me escuta. É um diálogo. Uma conversa de amigos, profunda e vital, que acontece no lugar mais secreto de mim mesmo. É lá que eu preciso tomar as decisões importantes de minha vida, depois de um diálogo profundo e vital com o meu Pai e Criador. É lá que a minha vida toma rumo, sentido e direção.

Acabo de me lembrar da ventoinha, aquele espécie de bandeira-saquinho que marca a direção do vento nos aeroportos. A ventoinha enche-se de ar e fica a favor do vento. Mostra a direção da corrente de ar. Pra onde o vento der, ela se vira. Quem manda é o vento. Uma pessoa não pode ser uma ventoinha. Muda de opinião, faz opções segundo o vento, isto é, a opinião pública, o quê os outros estão valorizando ou o que a mídia define como o melhor. Uma pessoa precisa ter um rumo certo pra seguir, valores onde afirmar a própria caminhada. Só a voz de Deus pode dar um rumo certo à minha vida. O seu Espírito, que me habita desde o batismo, é quem vai dialogando comigo, no meu íntimo, e me ajudando a andar no rumo certo. Eu não sou uma ventoinha. E a minha vida não pode ser uma estrada onde todo mundo pisa.

É, a semente que caiu à beira da estrada faz a gente pensar.