02 junho 2014

Chega de divisão

Tanta coisa divide o nosso povo... A política distingue candidatos de situação ou de oposição, de direita ou de esquerda.  O dinheiro divide e separa ricos e pobres, patrões e empregados. Gente bem situada morando em privès e gente faminta segregada em favelas. No banco, uns são os de cheque-especial e outros são os de magros contra-cheques. Uns levantando as mãos para os céus por terem  contra-cheque e outros nem ganho possuem. E o povo vai sendo dividido: entre  letrados e  analfabetos. Os brancos e os pretos. Os homens e as mulheres. As casadas e as mães solteiras. Tantas divisões dilaceram a nossa gente... A religião não podia ser geradora de novas fraturas em nossa convivência social.

Mas, infelizmente a religião também tem sido fator de divisão. Católicos de um lado. Crentes de outro. Sem qualquer chance de encontro. Pentecostais de um lado. Umbandistas de outro. Uns apontando para os outros como perversos inimigos. Árabes muçulmanos versus americanos mais ou menos cristãos. A guerra entre católicos e protestantes arrastou-se por tantos anos na Irlanda. Palestinos da religião do Islã todo dia se confrontam com Israelitas da religião judaica. No mais das vezes, a religião é apenas um pretexto para disputas de poder, jogo de interesses não declarados.

Escândalo maior é a separação e a guerra não declarada de católicos e evangélicos entre nós. Todas as igrejas cristãs confessam o único salvador Jesus Cristo, cujo mandamento é o amor a Deus e ao próximo. E no entanto, ao próximo de outra denominação ou Igreja  reserva-se apenas suspeita, desconhecimento, indiferença e até agressão. Sinal de infidelidade ao Mestre e de desconsideração por seu ministério de reconciliação.

A nossa desculpa é sempre que  os outros é que são culpados. El es é que são sectários, agressivos, desrespeitosos. Mas poderíamos pensar também que quem tem mais caminhada e compreensão tem também obrigação de dar o primeiro passo, de ser mais paciente, de ser mais perseverante na busca da unidade.  Afinal, ecumenismo não é um apêndice pra ser realizado quando for possível.

Ecumenismo, escreveu o Papa João Paulo II na sua Encíclica sobre o Ecumenismo, é uma questão vital. É uma questão de base.  Ser uma Igreja em comunhão com as demais igrejas cristãs, disse ele, é uma condição constitutiva da Igreja de Cristo. Não sê-lo é desmentir o evangelho. É desmerecer o pedido de Cristo ao Pai na última ceia: "Pai, que todos sejam um, para que o mundo creia". Não viver o ecumenismo é negar ao mundo o testemunho sobre Jesus Cristo. Sem este testemunho, o mundo dá por mentira o que anunciamos. Como disse Jesus: "Para que o mundo reconheça que me enviaste e que os amaste, como amaste a mim" (Jo 17, 23).

Tanta coisa divide o povo... as igrejas cristãs não podem continuar copiando este espírito mundano de competição, divisão, separação. Para serem fiéis a Jesus Cristo, precisam dar ao mundo o testemunho de que se amam e se reconhecem como membros do único corpo de Cristo. Como agentes de unidade no meio do povo, nós cristãos de diversas denominações precisamos nos unir, nos respeitar e procurarmos agir juntos em vista da justiça no mundo. Precisamos dar ouvidos à prece do Senhor: "Pai, que todos sejam um, com tu e eu somos um" (Jo 17,21). Chega de separações!