PADRE JOÃO CARLOS - MEDITAÇÃO DA PALAVRA: devoram as casas das viúvas
Mostrando postagens com marcador devoram as casas das viúvas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador devoram as casas das viúvas. Mostrar todas as postagens

A VIÚVA POBRE E OS FARISEUS SABIDOS


Eles devoram as casas das viúvas, enquanto fingem fazer longas orações (Mc 12, 40)

11 de novembro de 2018.

Na liturgia deste domingo, a viúva está em evidência. Conta-se a história da pobre viúva estrangeira que hospedou o profeta Elias, numa grande seca. E a história da viúva pobrezinha  que deu uma oferta no Templo e foi elogiada por Jesus. Ela deu tudo o que tinha, e mesmo sendo tão pouco – duas moedinhas – deu mais do que todo mundo.  E no meio desse elogio à viúva pobre, tem uma crítica muito forte aos mestres da Lei, os fariseus estudados do tempo de Jesus. O que será tem uma coisa com a outra: a viúva pobre com os fariseus sabidos?

Quando se fala de pobre na Bíblia, aparecem três grupos: a viúva, o órfão e o estrangeiro. A viúva, perdendo o marido, perdeu sua referência e sua segurança. O órfão, pela perda do pai ou da mãe, é a própria figura do desamparo. O estrangeiro, migrante ou exilado, fora de sua terra e de sua parentela, está longe de sua pátria e de sua cultura.

O povo de Deus nunca poderia se esquecer de suas raízes, de sua história. Eles eram um povo de viúvas, órfãos e estrangeiros. Essa era a sua condição na servidão do Egito ou no exílio da Babilônia. Famílias dizimadas pelas guerras, povo deportado de sua terra pela pobreza ou pelos vencedores. Quando o povo  entrou na posse da terra prometida, assumiu o compromisso de cuidar bem dos pobres e sofredores. Eles mesmos tinham passado por essa condição de insegurança, desamparo e saudade de sua terra.  Como povo livre, assumiu o compromisso de amparar a viúva, proteger o órfão e acolher o estrangeiro pobre. Essa é a vocação de Israel, o povo de Deus.

O que Jesus encontrou no seu tempo? Um povo esquecido de sua vocação. Uma sociedade onde a norma era o desamparo e o abandono dos doentes, dos pobres  e a marginalização dos humildes. O que Jesus fez diante desse quadro tão doloroso?  Em primeiro lugar, agiu de maneira diferente. Nós o vemos, quase o tempo todo, ocupando-se dos doentes, cercado de famintos, procurado pelos leprosos, cegos, pessoas com deficiência. Ele organiza sua comunidade a partir dos pobres e marginalizados. Seus apóstolos são pescadores, cobrador de impostos, gente simples. Em segundo lugar, Jesus prega que o Reino de Deus é dos pobres, dos mansos, dos perseguidos.  Anuncia que sua missão é cuidar deles: trazer luz para os cegos, saúde para os doentes, liberdade para os oprimidos.

Em terceiro lugar,  Jesus corrige o que está errado. Ao lado de sua nova prática e de um vigoroso ensinamento sobre a centralidade dos pequenos no Reino de Deus, Jesus denuncia os que negam a cidadania dos pobres e os que tristemente os exploram. Nesse nível, podemos entender melhor a palavra de hoje: “Eles devoram as casas das viúvas, enquanto fingem fazer longas orações”. De quem Jesus está falando? Dos mestres da lei, os fariseus estudados.  Foi o que ele disse, depois de reclamar do modo como viviam de ostentação e de busca de privilégios.  Reclamou que eles gostavam de se sentar nos primeiros lugares na sinagoga. Eles se tornaram fortes lideranças na vida religiosa das comunidades. Assim, em vez de liderar a comunidade como espaço de todos, a começar dos mais humildes, o fazia em benefício de seus interesses. As comunidades cristãs, ao menos no início do cristianismo, eram formadas por gente humilde. O apóstolo Tiago claramente nos diz isso, quando pergunta onde estão os ricos e influentes na comunidade. Em nossas comunidades, há sempre o risco de no centro não estarem mais os pobres e sofredores, mas os ricos e influentes e seus interesses. E a comunidade acabar reforçando a desigualdade social e a marginalização dos pobres presente na sociedade.

Guardando a mensagem

O povo de Deus foi formado por gente muito sofrida. Sua maior referência é a memória que Deus os tirou da escravidão do Egito. Com o salmo 145, o povo eleito celebrava a obra de Deus que protege o estrangeiro, ampara o órfão e a viúva, mas confunde os caminhos dos maus. A comunidade de Jesus anuncia o Reino de Deus dado aos pobres e sofredores. As comunidades cristãs seguintes também foram formadas por gente humilde. Mas, sempre houve a tentação de, à imitação das classes dominantes na sociedade, uma elite tomar a liderança da comunidade, escanteando e esquecendo os pobres, como fizeram os mestres da Lei no tempo de Jesus. Esse é o alerta do evangelho de hoje. Pior ainda, quando, além de tomar o espaço dos pequeninos na comunidade, as lideranças aproveitam-se deles, pela exploração econômica. Esse ensinamento de Jesus é um incentivo para construirmos comunidades segundo o evangelho da viúva e para nos pormos em alerta contra modelos segundo o evangelho dos fariseus sabidos.

Eles devoram as casas das viúvas, enquanto fingem fazer longas orações (Mc 12,40)     
 
Rezando a palavra

Senhor Jesus,
Chamaste a atenção dos discípulos para o modo como os mestres da Lei se comportavam, em sua liderança, buscando prestígio, disputando privilégios e ostentando superioridade. Eles apossavam-se do lugar dos humildes na comunidade, descaracterizando a vocação do povo eleito de amparar a viúva, defender o órfão e acolher o estrangeiro pobre. Fizeste uma denúncia muito séria contra eles: devoram a casa da viúva, em nome da religião. Hás de nos perdoar, Senhor, se ficamos aplicando tuas palavras ao que vemos hoje, em nome da fé. Dá-nos a graça, Senhor, de acolher teus ensinamentos e construir famílias e comunidades cristãs onde os pequenos estejam no centro de nossa atenção, especialmente  as crianças, os doentes e os idosos. Seja bendito o teu santo nome, hoje e sempre. Amém.

Vivendo a palavra

Leia o evangelho deste domingo, em sua Bíblia ( Marcos 12, 38-44) e compartilhe a Meditação com seus parentes e amigos.

Pe. João Carlos Ribeiro – 11.10.2018

Postagem em destaque

Venham a mim.

   18 de julho de 2024.   Quinta-feira da 15ª Semana do Tempo Comum    Evangelho.    Mt 11,28-30 Naquele tempo, tomou Jesus a palavra e diss...

POSTAGENS MAIS VISTAS