05 março 2017

As três tentações

Jesus lhe disse: “Vai-te embora, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás ao Senhor, teu Deus, e somente a ele prestarás culto’” (Mt 4, 10).



Três tentações. Três é uma conta certa, completa. As três tentações resumem todas as tentações na vida de Jesus e na nossa vida também.

A primeira tentação é essa: vida sem sacrifícios. Foi a tentação de transformar pedra em pão. O pão representa tudo o que toca à sobrevivência: a comida, a roupa, o trabalho, a saúde, o bem estar... Está com fome? Transforme pedra em pão. Nada de fome, de mortificação, de jejum. Nada de esforço, de luta, de sacrifício. E é isso mesmo! Queremos ganhar bem, mas com o mínimo de esforço possível. Possivelmente, ganhar na loteria. Ou ter um cargo comissionado, que só precise ir assinar uma vez por mês. Vida sem sacrifício. Cozinhar, demora, dá trabalho.  Vai de fast food, de refrigerante, de enlatados... Vida sem luta, nem sofrimento. Uma dorzinha de cabeça, corre, compra um remédio. Vai dar à luz, cesariana. Parto natural é doloroso. Desentendeu-se, separa, é mais fácil do que dialogar, do que perdoar.  A primeira tentação é ‘vida sem sacrifícios’. Transformar pedra em pão.  Na vida de Jesus, essa tentação foi vencida. Ele nunca usou o seu poder em benefício próprio. Levou vida itinerante, em grande despojamento. A cruz foi a grande marca de sua entrega em favor de todos. Para os seus seguidores, recomendou a renúncia a si mesmos, a partilha, a solidariedade com os sofredores, a caridade para com os pobres.

A segunda tentação é essa: religião sem obediência.  Foi a tentação de se atirar do pináculo do Templo, para obrigar a Deus a agir mandando seus anjos para ampará-lo na queda. Muita gente está buscando a religião apenas para obter solução para os seus problemas, procurando meios de condicionar Deus a agir em seu favor. Não faltam propostas religiosas mágicas:  “Venha buscar o seu milagre”. “Ele é Deus de promessas, tem que cumprir”. “Faço um voto, sacrifico, e ele se obriga a me abençoar”. “Daqui, eu não saio sem o meu milagre”. A segunda tentação é a ‘religião sem obediência’. Pular no abismo para obrigar Deus a me proteger com seus anjos. Na vida de Jesus, essa tentação foi vencida. Ele denunciou a religião de exterioridade e ostentação. Disse que o seu alimento era fazer a vontade do Pai. Um pouco antes de sua paixão, em grande angústia, mesmo pedindo ao Pai para afastar aquele cálice de sofrimento, preferiu realizar a vontade do Pai antes do que a própria. Na religião cristã, não é Deus que faz o que eu quero. Sou eu que me submeto à sua vontade. Seja feita a vossa vontade, foi como Jesus ensinou.

A terceira tentação é essa: poder sem serviço. Foi a tentação de receber o poder dos reinos do mundo se adorasse Satanás. Muita gente que está no poder, tomara que eu me engane, está lá porque fez aliança com grupos poderosos, juntou-se com quem não presta, dobrou-se a interesses espúrios. E gente muita que, mesmo não estando em cargos de prestígio, sonha com isso, move-se nessa lógica ou reforça esse jogo com a bajulação. E não é preciso ir longe, porque o poder se exerce dentro de casa, na comunidade, na Igreja, na empresa em que eu trabalho.  E aí se manifesta a tentação do exercício do poder como manipulação, como centralização, como busca de privilégios. A terceira tentação é ‘poder sem serviço’.  Fazer aliança com o mal, para participar do seu poder. Na vida de Jesus, essa tentação foi vencida. Ele não veio para ser servido, mas para servir. Corrigiu seus apóstolos, tentados também eles pelo poder. Entre vocês, não seja assim. O maior seja o menor e servidor de todos.

Vamos guardar a mensagem de hoje:

Por um lado, nos sentimos tentados, inclinados ao mal, como descendentes de Adão (Gn 3). Por outro lado, pela nossa união com Cristo, já somos vencedores sobre a tentação e o mal (Rm 5). Na vida de Jesus, estão representadas as tentações que também nos afligem: vida sem sacrifício, religião sem obediência, poder sem serviço.  Em nossa resistência contra o mal, contamos com a oração, a Palavra de Deus e sua graça. “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”.


 Pe. João Carlos Ribeiro, SDB - 05.03.2017