Meditação da Palavra

30 julho 2013

Pra não se perder

No meio daquela gente toda, na Praia de Copacabana, qualquer jovem podia aprender uma grande lição: a Igreja de Cristo é formada por pessoas de muitas culturas e nacionalidades. É um povo de muitas raças e bandeiras. Aliás, bandeira é o que não faltava, especialmente bandeira dos países. Cada grupo fazia questão de exibir a sua, até mesmo os brasileiros marchavam pelas ruas sempre em grupos, enrolados na verde-amarela. Medo de se perder, com certeza. Um jovem se desgarrando do seu grupo, coitado, teria muita dificuldade para reencontrar a sua tribo. Uma moça baixinha da Guatemala se soltou do grupo e buscou em vão, por onde houvesse uma brecha na multidão, alguma cara conhecida. Desesperou-se, aos prantos, correndo de um lado para outro, não via mais a sua bandeira. Logo alguém notou, e quando ali um nota é um bando que se alvoroça. Indagaram de onde ela era, como se chamava. Ela, com dificuldade, indicou a líder de sua caravana: Marta. O coro foi crescendo: Mar-ta! Mar-ta! Outros grupos se associaram, já era um grito de socorro estrondoso: Mar-ta! Mar-ta! Um jovem mais forte colocou a peregrina perdida nos ombros, enquanto o coro teimava em chamar a atenção da Marta. Não sei como terminou a história, porque a multidão vai levando a gente como uma onda, mas vi que solidariedade não faltou à peregrina perdida.  A bandeira era uma identificação do grupo, ajudando a não se perder. Imagine alguém que não conhece a língua, nem o Rio de Janeiro, nem sabe direito onde está hospedado, o que vai fazer¿ A bandeira é uma referência segura: esse é o meu grupo, esse é o caminho seguro, vou por aqui, vou com meus amigos.


Mas não era só por medo de se perder que usavam bandeiras. A bandeira também identificava o grupo, quer dizer mostrava a identidade do grupo, sua pertença a um país, ou a um movimento ou pastoral. Somos maristas, somos salesianos, somos PJ, somos Mãe Rainha, somos de Manaus, somos de Boston, nós aqui somos da Coréia... é o que as bandeiras falavam. Temos o maior orgulho de ser brasileiros, argentinos, uruguaios, alemães, franceses... as bandeiras falavam da identidade nacional de cada grupo. Não era só para não se perder.

Para não se perder, além da bandeira, os jovens do grupo ficavam de mãos dadas, nos deslocamentos. Deslocamentos de 4 a 9 km, por avenidas lotadas, túneis e mesmo no meio da multidão em Copacabana. Aliás, nos túneis é que a festa ficava ainda melhor, os cantos, os gritos de “Essa es la juventude del Papa”... no túnel, o barulho ficava mais encorpado. Um grupo de 8 até 30 pessoas circulava de mãos dadas, um segurando o outro, no ritmo que fosse possível andar. Segurando firme, porque se se soltasse, sabe Deus como iriam se reencontrar na multidão, em que uns vão e outros vêm. E neste ponto pode-se aprender uma grande lição. Isolando-se, o jovem se perde. O isolamento revela autossuficiência, que é uma coisa desastrosa para si e para o grupo. Vou por minha conta, quer dizer, não preciso de vocês, dispenso o apoio de vocês e, mais do que isso, me nego a ajudar os outros, me omito a contribuir para a segurança de outra pessoa. Um jovem que se isola, se perde e desgraça o grupo. O grupo fica louco procurando quem se perdeu, perde o ritmo, atrasa-se nos deslocamentos, se desorganiza. Um jovem que se isola, se perde e desgraça o grupo. Aplique isso para a vida na Igreja: um jovem que não se integra no grupo, corre o risco de se perder e, igualmente ou ainda mais grave, omite-se na contribuição de integrar e salvar outro jovem.

Uma coisa curiosa: ninguém vai sozinho a um evento como esse, realmente não vi ninguém sozinho por lá, sempre em grupos. A pessoa sozinha fica deslocada, precisa encontrar um grupo com quem faça amizade, colegas com quem se integre, do contrário fica sobrando, se sente deslocada, aborrece-se e vai embora. Um jovem sozinho, sem referências, sem amigos, no meio daquela massa é impensável. Transponha isso para a vida da Igreja: uma pessoa sozinha, isolada, sem grupo, sem comunidade, tem pouca chance de perseverar, de caminhar na fé. A experiência básica, humana e cristã, é ser membro, ser parte de uma família, um grupo ou uma comunidade. É no grupo que a pessoa é alguma coisa, é ali que pode dar e receber. Fora do grupo, o jovem fica um estranho, um sobrante. Fora da comunidade, na ausência de laços reais de amizade e comunhão, o cristão não experimenta o que é a Igreja, não expressa sua pertença à Igreja, que é finalmente comunhão, comunhão com Deus e com os irmãos.

Por um instante, pensei que o Papa fosse uma bandeira. É, talvez o Papa seja mesmo uma bandeira. Uma bandeira branca, na qual toda aquela massa de jovens reconhecia sua identidade. Por que tanta gente corria, disputando espaços ao longo de toda a Avenida Atlântica para ver o Papa passar, e entre fotos e filmagens, se emocionava ao ver o Pontífice? E olha que o Papa circulou por várias vezes naquela avenida: na cerimônia de boas vindas, na via sacra, na vigília e na Missa de envio. Ainda assim, toda vez era uma correria, com jovens apinhados ao longo da avenida, já duas horas antes da passagem do papamóvel. Eu só encontro uma resposta: o Papa é uma bandeira, a bandeira na qual todos os grupos, todas as tribos, todos os jovens reconhecem sua identidade. Naquela bandeira branca, um senhor idoso e gentil, o bispo de Roma, identificavam algo de muito profundo: a fé que vem lá do tempo dos apóstolos, a fé católica que todos professamos. Mesmo se o Papa não fosse tão simpático como esse, ele continuaria a ser uma bandeira branca, falando da unidade em torno da fé, seria reconhecido como o guia desse grupão de três milhões e meio de cristãos jovens. Quando ele falava, o silêncio era grande; quando sugeriu um momento de oração silenciosa, só se ouviu as ondas quebrando na praia, só as ondas teimosas. Quando ele perguntava – si ou no? -  a resposta era de um grande coro; quando acenava, era a bandeira branca tremulando. É a experiência de ser Igreja, ser um povo em comunhão, gente de mãos dadas, de olho na bandeira... pra não se perder.


P João Carlos Ribeiro – 30 de julho de 2013