20 fevereiro 2013

A renúncia do Papa

O Papa foi corajoso. Rompeu com uma tradição bimilenar. Temos apenas o registro da renúncia do Papa Celestino V, um monge que foi eleito Papa e renunciou após alguns meses de ministério, há 700 anos atrás. No final do mandato do Papa João Paulo II, chegamos a pensar que ele iria renunciar, dada a grave situação de saúde em que se encontrava. Visivelmente debilitado, suas últimas aparições nos deixavam penalizados. Torcíamos que ele apresentasse a renúncia, que não ficasse preso à tradição pela qual os Papas morrem no cargo, como os reis do passado. O Código de Direito Canônico, em sua nova formulação, permite que o Papa renuncie, na condição de que o faça livre de coações, em condição de plena liberdade. Bento XVI foi corajoso.

O Papa foi humilde. Toda a imprensa reconheceu o gesto magnânimo de desprendimento e humildade do Pontífice Romano. Não ficou preso ao cargo e às honrarias dele decorrentes a que tinha direito até sua morte. Além do mais, sua renuncia poderia parecer fraqueza, covardia diante dos problemas. Muita gente interpretou dessa forma. Mas ele resolveu assumir a renúncia mesmo assim. Não é covardia, é coragem. Não é fraqueza, é humildade. Com certeza, ele calculou que também haveria outro tipo de interpretação maldosa: imaginar que ele não teria suportado pressões ou oposições dentro da Cúria Romana. Ele foi humilde em reconhecer que sua idade avançada, suas forças físicas e espirituais debilitadas comprometeriam a liderança da Igreja no quadro em que o mundo se apresenta hoje.  Bento XVI foi humilde, ao reconhecer os limites que lhe impõem a idade e a saúde.

O Papa foi responsável. O papel do sucessor de Pedro é conduzir o rebanho de Cristo na história. E os tempos são difíceis. Ele mesmo descreveu o nosso tempo como uma época de mudanças rápidas e profundas, com forte influência na família, na educação, na prática da religião. Para este novo contexto, a Igreja precisa de um líder mundial com mais vigor físico e espiritual:  foi o que ele explicou quando anunciou a renúncia. E olha que ele enfrentou crises muito sérias, como foi a onda de acusações de pedofilia contra o clero em várias partes do mundo. Nessa oportunidade, ele cobrou dos bispos e dos responsáveis uma ação enérgica e disciplinadora, ao mesmo tempo em que mandou apoiar e reparar as vítimas. Mas esse, com certeza, não é o único problema a se enfrentar numa instituição do tamanho e da idade da Igreja. Mesmo assistida pelo Espírito Santo de Deus, a Igreja é formada de gente como nós, ainda tentada pelo pecado. E avaliando que as suas forças físicas visivelmente estão se esvaindo, Bento XVI reconheceu que chegou até onde dava pra chegar. E que o melhor, para o bem da Igreja como ele disse, é que seja substituído. Bento XVI foi responsável.

Corajoso, humilde, responsável. É o Papa que a partir de 28 de fevereiro se retira do comando da Igreja. Vai rezar, estudar, escrever. A cadeira fica livre para um novo Papa. É como Moisés que conduziu o povo até avistar a Terra Prometida. Aí passou o comando para Josué.

Pe. João Carlos Ribeiro – 20.02.2013