Meditação da Palavra

02 fevereiro 2012

A Senhora das Candeias

Milhares de romeiros chegam a Juazeiro do Norte cantando: "Valei-me meu Padim Ciço e a mãe de Deus das Candeias".  Na peregrinação de dias de viagem o canto é um só: "no caminho pra Juazeiro nunca ninguém se perdeu, por causa da luminaria da mãe de Deus das candeias". Candeia é candeeiro, luz, candelabro. Nossa Senhora das Candeias é Maria da apresentação do menino Jesus no Templo.

E a razão desse título e desta homenagem é muito simples. É que Maria e José estão chegando ao Templo para o ritual da purificação. O livro do Levítico (capítulo 12) prescrevia tudo com detalhes. Dando à luz uma criança de sexo masculino, a mulher devia passar um resguardo de 40 dias. Depois desta quarentena, devia ir à Tenda de reunião da comunidade para purificar-se. A lei do AT era muito rigorosa em relação a tudo que envolvesse sangue: menstruação, parto, crimes, etc. Tudo isso tornava a pessoa impura e levava a rituais de purificação com holocaustos e oferendas no Templo. Então, uma das razões da ida da família de Nazaré ao Templo de Jerusalém era a purificação de Maria.

A ida ao Templo se explica ainda por uma Segunda tradição. São normas codificadas no Livro do Êxodo, capítulo 13. Era um costume que visava manter viva a memória da libertação do Egito, onde Deus puniu os egípcios com a morte dos primogênitos. Assim, todo primogênito era consagrado a Deus. Primogênito é o primeiro filho, gente ou bicho. Fosse bicho – um carneiro, um bezerro, um jumentinho – seria sacrificado a Deus, como oferenda. Fosse gente, o primogênito seria resgatado, isso é, em lugar dele os pais ofereciam um carneirinho ou pássaros. E é isso que foram fazer em Jerusalém: a purificação da mãe e o resgate do filho primogênito.

O que vemos é um casal profundamente integrado na cultura religiosa do seu povo, cumpridor das regras da lei judaica. Por esses ritos, a sua gente reconhecia a vinda de uma criança ao mundo como uma coisa sagrada. Uma coisa que tinha haver com Deus. E ainda reforçava a sua pertença ao povo da aliança, lembrando o compromisso da consagração do primogênito, como memória da libertação do Egito. Essa peregrinação deles à cidade santa de Jerusalém era uma forma concreta de reconhecer Deus como senhor da história e fonte da vida. As romarias de hoje têm a ver com isso, também. Não é um passeio, uma viagem de turismo. A romaria se faz como um mergulho nas raízes da tradição da fé, onde se reconhece Deus como fonte de tudo e aonde as pessoas vão se integrando ao seu projeto de salvação.

O certo é que em Jerusalém, José e Maria reconheceram sinais de Deus que os confirmavam na missão que tinham assumido, desde a anunciação do anjo. Simeão, justo e piedoso, veio ao Templo e tomou o menino Jesus nos braços. E rezou com todo o coração e cheio do Espírito Santo: "Agora, Soberano Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra. Porque os meus olhos viram tua salvação, que preparastes em face de todos os povos, luz para iluminar as nações e glória de teu povo, Israel". Luz para iluminar as nações.

A mãe que gerou aquele menino e o trazia nos braços, como quem carrega a luz que veio para iluminar o mundo, é saudada como Nossa Senhora da Luz, Nossa Senhora das Candeias. Ela não é a luz. Mas nos traz a luz. É portadora da luz, que é Cristo. O mesmo Mestre que um dia disse aos seus: "Eu sou a luz do mundo, quem me segue não anda nas trevas".  Salve a Virgem Mãe que carrega nos braços a luz do mundo, o seu menino-luz! Salve a Mãe das Candeias!

Pe. João Carlos Ribeiro