11 novembro 2017

MAMMONA INIQUITATIS

Usem o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas (Lc 16, 9.
No evangelho de hoje, vários ditos de Jesus estão reunidos em torno do tema “dinheiro”,  palavra que se repete quatro vezes nesses poucos versículos.  Como entender esse “usar o dinheiro injusto para fazer amigos”? Pode parecer um estímulo à desonestidade, não acha?  O que será que Jesus está querendo dizer?
O que veio antes desse texto? O texto que meditamos ontem. Ontem, lemos a parábola do administrador que ia ser demitido e achou um jeito de assegurar o seu futuro. Administrador era o servo encarregado de cuidar da casa e da propriedade rural do seu patrão. Esse da história de Jesus foi acusado de esbanjar os bens do patrão, de estar gastando descontroladamente. O patrão lhe avisou que seria demitido. Qual seria o seu futuro?  O que pessoas como ele, servo ou ex-escravo, fazia habitualmente nos domínios romanos era trabalhar na terra dos outros ou pedir esmola na cidade. Era comum os pobres viverem da caridade alheia e da distribuição de trigo que os governantes faziam. É bom a gente também se informar sobre como era pago um administrador, um servo responsável pela casa e pelo campo de um senhor. Ele não tinha salário. Ganhava nas comissões. Nos negócios que fizesse em nome do patrão, ele colocava a sua comissão. Era assim também na cobrança dos impostos romanos, na Palestina. Por isso, ele encontrou uma solução que até mesmo o seu patrão elogiou. Qual foi? Ele chamou os devedores do patrão e retirou a sua comissão. Tirou 20% de um, 50%  de outro. Tirou a comissão que era o seu ganho. Claro, os devedores ficaram seus amigos. No desemprego, ele já tinha pra onde correr. Foi uma solução sábia. O patrão elogiou a esperteza dele.
Agora, vamos ao evangelho de hoje. ‘Usem o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas”(Lc 16, 9). Como podemos compreender essa palavra “dinheiro injusto”?  Vamos ver como está escrito no original em grego e em sua tradução latina que é usada na Igreja. O latim traduz por  “MAMMONA INIQUITATIS”, mamona da iniquidade. Então, ‘dinheiro injusto’ está traduzindo as palavras “mamona da iniquidade” ou “mamona iníqua”.  ‘Mamona’ é uma palavra usada também em outros lugares no evangelho para falar da riqueza que é sedutora. De fato, a riqueza tem uma sedução que pode levar a pessoa a se esquecer de Deus e dos outros ou de fazer da riqueza um deus. Fala-se até de um deus mamon, o deus riqueza. Então,  por esse “dinheiro injusto” devemos entender “a riqueza sedutora” ou “os bens na sua sedução”. O administrador não foi propriamente desonesto, foi esperto. Usou o dinheiro para angariar amigos que o acolheriam quando caísse na indigência.
Então Jesus falou: “Usem o ‘dinheiro injusto’, traduzindo mais claro ‘usem a riqueza sedutora’ para fazer amigos, pois, quando acabar, eles receberão vocês nas moradas eternas”. Os amigos do administrador demitido iriam recebê-lo em suas casas, iriam tratá-lo como aliado, como amigo. Pois então, se usarmos a riqueza, os bens que nós temos (que são tão sedutores) para fazer o bem, para socorrer os sofredores, para ajudar os outros nós vamos estar preparando um futuro seguro, na eternidade. Eles, os pobres, os beneficiados, vão nos receber na casa de Deus, eles vão abrir as portas do céu para nós.
Vamos guardar a mensagem de hoje
Os bens deste mundo podem nos atrapalhar, nos afastar de Deus e dos nossos semelhantes. Eles têm uma sedução especial. São riquezas sedutoras, “mamona iniquitatis”. Mas, elas podem ser usadas com sabedoria. Na parábola do administrador demitido, ele foi elogiado pelo seu patrão porque agiu com sabedoria, quando soube que ia pra rua. Ele chamou os devedores do patrão e dispensou a sua comissão. Os devedores, gratos pelo alívio em suas contas, tornaram-se seus amigos que o socorreriam nas dificuldades que viriam. Há muita gente que tem riquezas e não as usa com inteligência, com sabedoria, com preventividade, com esperteza. Não se vale de sua ‘riqueza sedutora’ para apoiar bons projetos, para realizar algo de bom para a coletividade ou mesmo para socorrer um parente pobre... isso é fazer amigos com a “mamona iniquitatis”, a riqueza sedutora. Isso é preparar bem o futuro, se vier a falir, ou ser demitido de seu bom emprego ou mesmo quando a morte lhe demitir dessa vida.
Usem o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas (Lc 16, 9).
Vamos acolher a mensagem de hoje com uma prece
Senhor Jesus,
É verdade, os bens deste mundo têm uma sedução especial. Corremos o risco de endeusá-los. E disseste claro: ‘Não se pode servir a dois senhores. Ou Deus ou Mamona. Ou Deus ou a riqueza sedutora’. Estás nos ensinando também que o dinheiro pode ser usado com sabedoria. Ele pode preparar o nosso futuro, se ele servir também para ajudarmos quem está em situação de necessidade. Obrigado, Senhor, por nos ensinares a lidar corretamente com a sedução do dinheiro neste mundo. Assim, nos preparamos para receber os bens eternos que para nós estão preparados desde toda a eternidade. Seja bendito o teu santo nome, hoje e sempre. Amém.
Vamos praticar a palavra que meditamos hoje
Não me diga quanto você ganha. Responda a si mesmo (a si mesma). De tudo que recebo mensalmente, quanto empenho na preparação do meu futuro em Deus?  Não estou me referindo a plano de saúde, nem aposentadoria, nem seguro funerária. Estou falando do seu futuro na eternidade.

Pe. João Carlos Ribeiro – 10.11.2017