03 setembro 2017

VADE RETRO, SATANAS!

Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço (Mt 16, 23)

Quando Dom Bosco se ordenou padre, sua mãe Mamãe Margarida lhe disse uma coisa que ele, certamente, na hora, não entendeu. “Meu filho, começar a dizer Missa é começar a sofrer”. Você também não entendeu, não foi? Mas, vai entender. Olha a sabedoria dessa camponesa analfabeta: quando alguém percorre o mesmo caminho de Jesus, encontra também sofrimentos, como ele encontrou.

Olha o que diz o evangelho. Jesus estava explicando aos discípulos que ele devia ir a Jerusalém e sofrer muito. Notou isso? “Sofrer muito”. Seria rejeitado pelos líderes do seu povo que o entregariam à morte, mas ressuscitaria ao terceiro dia. Essa era uma passagem difícil do caminho de Jesus: a rejeição e a morte. E ele não queria fugir desse momento. Estava resolvido a enfrentar esse sofrimento, com a doação de sua vida e com total confiança no Pai.

Se despendesse de Pedro, a história de Jesus teria sido outra. Ele dispensaria o capítulo da paixão e da morte de Jesus. Jesus realizaria toda a sua missão sem sofrimento, sem precisar passar pelo vexame da cruz. O que Pedro queria é o que nós queremos. Não queremos assumir os sofrimentos, as provações que vêm junto com nossa opção por Jesus Cristo e por seu evangelho. Seguir Jesus, tudo bem. Sofrer como ele, não. Triunfo, sim; cruz, não. Na primeira crise, o casamento desagua em divórcio. Numa avaliação mais rigorosa de um professor, abandona-se a faculdade. No meio de uma crise existencial, o reverendo abandona o ministério.  Basta uma cara feia do coordenador de minha pastoral que eu desisto, não estou aqui para sofrer. Fugimos de qualquer sofrimento.

Pedro chamou Jesus à parte e o repreendeu. “Não diga uma coisa dessas. Tire esse negócio de se dar mal em Jerusalém da cabeça. Deus não vai permitir uma desgraça dessa. Isso não vai lhe acontecer”. A reação de Jesus espantou os discípulos: “Vade retro, satanás! Sai daqui, afaste-se! Você não está pensando segundo o que Deus quer, mas segundo a vontade do homem”. Foi um choque para Pedro e para os seus colegas. Em outro momento, Pedro tinha sido elogiado porque tinha reconhecido que Jesus era o Messias, o filho do Deus vivo. E agora, Jesus o estava tratando como satanás, o tentador.  É isso mesmo! Quem proclama que Jesus é o Messias  tem também que subir com ele o calvário.

Todo o evangelho é um convite a nos tornarmos seguidores de Jesus. Seguidor é o que pega a mesma estrada de Jesus, quem faz o seu caminho.  No caminho de Jesus tem a cruz, a rejeição do seu povo, a traição dos amigos, a inveja dos chefes, a violência dos dominadores. Discípulo é quem o segue. E quem o segue, por causa de sua fé, por causa do Reino que Jesus pregou, vai passar também por alguma dificuldade, por algum sofrimento por causa de sua fé e do seu amor a Cristo. Por isso, Jesus disse: “quem quiser me seguir, tome sua cruz e me siga”.

Então, Mamãe Margarida, a mãe de Dom Bosco tinha razão. “Começar a dizer Missa é começar a sofrer”. Isto ela dizia para o seu filho que tinha acabado  de ser ordenado padre. Mas, o que ela disse se estende a nós também: “Fazer opção por Jesus é começar a sofrer”.

Vamos guardar a mensagem de hoje

Ninguém quer sofrer. Todo mundo foge do sofrimento. Vivemos a ‘civilização do analgésico’. O evangelho nos faz um convite: seguir Jesus. Jesus nos alerta sobre o sofrimento que existe no seu caminho. Quem o quiser seguir, precisa renunciar a ser o centro de sua vida, para realizar a vontade de Deus. Claro, a vontade de Deus não é que a gente sofra. E não é de qualquer sofrimento que Jesus está falando. Trata-se do sofrimento que é inerente à nossa escolha, à nossa opção de viver como seguidores de Jesus. Quem o quiser seguir, tem que estar pronto para participar também da travessia difícil do sofrimento que vem por causa da fé e do evangelho que se abraça. São as renúncias a se fazer, o peso da fidelidade e da perseverança nas horas difícieis, a incompreensão, a discriminação, até a perseguição... Seguir com Jesus não é estar com ele só no triunfo, é estar com ele também na paixão.

Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço (Mt 16, 23)

Rezemos com as palavras do salmo deste domingo, o salmo (Sl 62)

— A minh’alma tem sede de vós como a terra sedenta, ó meu Deus!
— Sois vós, ó Senhor, o meu Deus! Desde a aurora ansioso vos busco! 
A minh’alma tem sede de vós, minha carne também vos deseja, como terra sedenta e sem água!
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, como era o princípio, agora e sempre. Amém.

Pe. João Carlos Ribeiro – 03.09.2017