11 setembro 2017

A MÃO E A LEI

Levanta-te, e fica aqui no meio (Lc 6, 8).
Jesus está na sinagoga. É um dia de sábado. E há ali um homem doente. Jesus quer fazer o bem. Mas, os fariseus estão de olho para ver se ele vai violar a lei do sábado que proibia qualquer trabalho. Estão preocupados com o sábado, com a norma, não com a pessoa humana.
Na lógica dessa gente, a lei está acima da pessoa, e de suas necessidades reais. Essa lógica, de alguma forma, continua hoje. Em nossa sociedade do mercado, por exemplo, a economia é o valor maior, não as pessoas. Os interesses financeiros e econômicos é que estão em primeiro lugar, não a solução dos problemas reais da população.
Claro, a preocupação dos fariseus era com a Lei de Moisés escrita e oral que eles cobravam que o povo praticasse. Podemos nos perguntar, para que era essa Lei? Quando o povo celebrou sua aliança com Deus, ficaram escritas as normas pelas quais o povo cumpriria sua parte na aliança. Essas normas ou mandamentos visavam que o povo vivesse bem e honrasse o Senhor como seu Deus.. Não furtar, por exemplo, era um mandamento da Lei que visava o bem da convivência social. Guardar o sábado era um mandamento que protegia o trabalhador e honrava a Deus. Não trabalhar no sábado era um modo de o trabalhador ter um dia de folga, não virar escravo do trabalho. E ao mesmo tempo louvar a Deus, que descansou no sétimo dia do seu grande trabalho da criação.
O homem doente estava na assembleia, na sinagoga, naquele sábado. Ele tinha a mão atrofiada. A mão é uma representação da ação humana. Para a civilização daquele tempo, a produção era obra das mãos humanas. Com as mãos se plantava, se colhia, se comercializava, se construía. As mãos representam o trabalho, a capacidade de produção de uma pessoa. Observe essa sentença do Salmo 128: “do trabalho de tuas mãos comerás”. Então, se uma pessoa tem a mão atrofiada não pode produzir, está fadada a não poder providenciar a sua sobrevivência e a da sua família. Curar essa pessoa de sua mão atrofiada é restabelecer essa pessoa na sua condição de trabalhador, de provedor do sustento de sua casa.
Colocar aquele homem no meio, mandando ficar de pé, seria recolocar a pessoa humana no centro das preocupações. Seria declarar que a pessoa humana é mais importante do que os ritos religiosos, as normas sociais, as leis econômicas. Foi o que Jesus fez. Mandou o homem se levantar, ficar de pé no meio de todos. Perguntou se o sábado era para fazer o bem ou o mal? E mandou o homem estender a mão. E a sua mão ficou boa.
Vamos guardar a mensagem de hoje
A preocupação e as cobranças dos fariseus continuam hoje, na sociedade e na Igreja. Eles tratam a lei como fim em si mesma.  Esquecem que a lei, mesmo a de Deus, tem em vista o bem da pessoa humana. Imitando Jesus, precisamos recolocar a pessoa humana no centro, não a lei. No país, precisamos colocar o povo no centro, não a economia. A economia está a serviço da vida, não estamos a serviço do bem da economia. Na igreja, também precisamos colocar sempre a pessoa no centro da comunidade, da liturgia, do direito. Santo Irineu, no século segundo, escreveu: “A glória de Deus é o homem vivo”, diríamos, de pé.
Levanta-te, e fica aqui no meio (Lc 6, 8).
Vamos acolher a mensagem de hoje com uma prece
Senhor Jesus,
admiramos a liberdade com que te movias na tua missão. Não agias para agradar. Nem para fazer média com ninguém. Agias com o amor do Pai que liberta o pequeno e o sofredor de qualquer dominação. Na sinagoga, curando o homem de mão atrofiada naquele sábado, nos ensinas a colocar a pessoa humana, com suas necessidades, no centro de nossas preocupações e de nossos compromissos. Ajuda-nos, Senhor, a ser cristãos segundo o teu coração. Seja bendito o teu santo nome, hoje e sempre. Amém.


Pe. João Carlos Ribeiro – 10.09.2017
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