01 julho 2017

NA CASA DO PECADOR

O oficial disse: “Senhor,  eu não sou digno de que entres em minha casa. Dize uma só palavra e o meu empregado ficará curado (Mt 8, 8)
Jesus está chegando em Cafarnaum. Está voltando pra casa. Desde que começara seu ministério público, ele tinha ido morar nesta cidade de Cafarnaum, bem à beira do mar da Galileia, por onde passava uma estrada de grande importância para a integração da região. Entrando na cidade, veio ao seu encontro um oficial romano. Ele expôs  sua aflição pelo estado de saúde de um seu empregado. Jesus se prontificou a ir curá-lo. Mas, o oficial não se achou digno que Jesus fosse à sua casa. Bastaria uma ordem sua, à distância mesmo. Um homem de muita fé, como Jesus reconheceu. Nem dentro do povo de Deus, tinha encontrado uma fé tão grande.
O oficial romano não se achou digno que Jesus fosse à sua casa. Para curar o empregado, Jesus não precisava ir lá. Tudo bem. Mas, haveria algum problema em Jesus ir à casa dele? Havia, sim. De saída, dois problemas.  Judeu não entrava na casa de um pagão, primeiro problema.  E esse pagão ali era um romano, segundo problema. Vou me explicar...
Um bom judeu não frequentava a casa de um pagão. As leis religiosas da Bíblia  (particularmente o livro do Levítico) não permitiam. Para a mentalidade religiosa do povo da Bíblia, manter contato com um pagão significa ofender a santidade de Deus, misturando-se com coisas impuras. Frequentar ambiente pagão significava adquirir uma impureza legal. Para se purificar, para voltar à condição de santidade, precisava realizar vários ritos religiosos, oferendas, banhos... Contato com estrangeiros, com pagãos, com sangue, com mortos, com leprosos, tudo isso fazia contrair a impureza.  Segundo as normas do seu tempo, Jesus não podia ir à casa do oficial pagão, alguém de outra religião, um gentio.
Mas, há outra razão pela qual não ficava bem Jesus ir à casa do oficial. Ele era romano, um militar graduado das forças de ocupação. Além de estrangeiro pagão, era basicamente um inimigo. Por todo o país, se ouvia falar da violência com que os romanos sufocavam manifestações contrárias ao seu domínio. Sobretudo a Galileia, onde eles estavam, era terra de muitos levantes e revoltas contra os romanos, e de grandes massacres, crucificações de revoltosos... Indo à casa do romano, no mínimo, Jesus ia atrair suspeitas e duras críticas por parte da população.
O oficial romano, um homem de fé, quis poupar Jesus. Reconheceu a sua indignidade. “Eu não sou digno que entres em minha casa”. Indo à sua casa, contrariaria a impureza legal. E atrairia muitas críticas e suspeitas.
Agora, encanta como Jesus se prontificou tão rapidamente a ir à casa do oficial romano, não acha?  Claro, percebeu a gravidade da doença do empregado. Certamente, notou também a caridade, o amor ao próximo que o oficial manifestou preocupando-se com o seu empregado. Mas, podemos pensar, ir à casa do pecador é o que Jesus já estava fazendo. Era tudo o que Jesus estava fazendo. .. olha, se você entender essa parte, entendeu a Bíblia toda. O que é que eu estou dizendo? Ir à casa do pecador era tudo o que Jesus estava fazendo. Vou  explicar melhor. Jesus veio da parte de Deus. Assumiu nossa condição humana. Como disse São João: habitou entre nós, armou sua tenda em nosso acampamento. Ele, Deus, veio à nossa casa de pecadores, à nossa humanidade, à nossa vida. E por qual razão? Porque estávamos necessitados, “doentes”. Veio porque estávamos  muito mal. E qual era a nossa doença? O pecado. O pecado que começou com Adão, nos afastando de Deus, nos jogando uns contra os outros. Ele veio à nossa casa para nos curar, isto é ‘nos salvar’. Você está de acordo com isso, não está?
E como foi que ele nos salvou? ... essa pergunta é importante. É surpreendente, mas ele o fez assumindo nossa impureza. Tomando sobre si o nosso pecado. Carregando-se de nossas dores. Ele realizou sua obra exatamente  entrando na casa do pecador e tomando para si o nosso pecado. Se você não se convenceu ainda,  vamos ler o final do evangelho de hoje: “Ele tomou as nossas dores e carregou as nossas enfermidades”. É a profecia de Isaías. É o que estava se cumprindo. Foi assim que ele nos salvou.
O oficial disse: “Senhor,  eu não sou digno de que entres em minha casa. Dize uma só palavra e o meu empregado ficará curado (Mt 8, 8)
Senhor Jesus,
Tu vieste à nossa casa humana, casa de pecadores, par a nos redimir do nosso pecado. Nessa condição, tu irias à casa do romano para curar o seu servo. Não vieste só para os judeus, mas para resgatar a todos. Foste à casa de Zaqueu. Parece uma coisa simples. Mas, simples não era. Zaqueu era um cobrador de impostos, homem de confiança dos romanos, com uma lista de desonestidades nas costas. E foste à sua casa para o resgatar. Levi, chamado Mateus, também era um publicano, um cobrador de impostos, um colaborador dos romanos. E tu o chamaste para ser discípulo e depois o escolheste como apóstolo. Não foi à toa que recebeste pesadas críticas, quando te viram jantando na casa dele, em companhia dos seus colegas de profissão. Foste à casa de Marta e Maria para ressuscitar o morto, teu amigo Lázaro. Entraste na casa de Pedro naquele dia e curaste a sua sogra. Entraste em nossa casa, em nossa condição humana, para nos resgatar, para nos salvar. Esta foi a tua missão. Obrigado, Senhor.
Seja bendito o teu santo nome, hoje e sempre. Amém.
Pe. João Carlos Ribeiro - 01.07.2017
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