10 julho 2017

A MENINA E A MULHER

Uma mulher que sofria de hemorragia há doze anos veio por trás dele e tocou a barra do seu manto (Mt 9, 20).
O Chefe da Sinagoga chegou informando que sua filha acabara de morrer. E implorou que Jesus fosse à sua casa, trazer a menina de volta para a vida. Jesus já seguia pra lá quando uma mulher que sofria de fluxo de sangue tocou na barra do seu manto e ficou curada. Na casa da menina falecida, Jesus dispensou o povo e os músicos que estavam no velório. E levantou a menina pela mão e ela voltou a viver.
São duas histórias entrelaçadas, a da filha do chefe da Sinagoga e a da mulher que sofria de hemorragia. Nos evangelhos de Marcos e Lucas, essa história tem mais detalhes. Fica-se sabendo, por exemplo, o nome do chefe da Sinagoga, Jairo e a idade da menina, 12 anos. As duas histórias estão juntas por alguma razão. As duas mulheres têm um impedimento grave para gerar a vida, para ter filhos. Na menina, aos 12 anos, idade da primeira menstruação, o organismo estaria se preparando para a futura maternidade. Morrendo, morrem as possibilidades de futuro, corta-se pela raiz a possibilidade de ser mãe. No tempo de Jesus, as mulheres se casavam muito cedo. E a mulher, sofrendo de perda de sangue há 12 anos, também não podia ser mãe, possivelmente por ter a sua menstruação desordenada.  Afinal, as duas não podem gerar vida, ser mãe.
E não poder ser mãe era realmente um problema? Ainda é um problema muito grande. Muitos casais hoje vivem em grande sofrimento, porque a esposa não consegue engravidar, não é verdade? Nem sempre a causa está na mulher. No tempo de Jesus, a coisa era ainda mais grave. A mulher não sendo mãe era completamente desconsiderada. A viúva sem filhos não tinha nem direito aos bens deixados pelo marido. E família sem filhos, como a de Abraão, não tinha futuro. Para nos darmos conta do drama, basta nos lembrarmos das mulheres estéreis da Bíblia, como Sara (a esposa de Abraão) no Antigo Testamento e de Izabel (a esposa de Zacarias) no Novo Testamento. As duas viviam tristes por não poderem dar filhos aos seus maridos, por não garantirem o futuro de suas famílias. Deus interveio na vida dessas duas mulheres estéreis, garantindo–lhes a fertilidade.
Então, eram duas mulheres: a menina de 12 anos e a mulher que perdia sangue há 12 anos. Elas estão impedidas de gerar filhos, descendentes. Por elas não vai passar o futuro.  Será que essas duas mulheres poderiam estar representando o povo de Deus? Bom, o número 12 é o número do povo de Deus, o povo das 12 tribos. Jesus escolheu 12 apóstolos, em seu trabalho de restauração do povo eleito. E a mulher muitas vezes aparece como representante da comunidade. É só pensar na mulher vestida de sol, coroada de 12 estrelas, em dores de parto, na visão que teve o apóstolo João. Então, essas duas histórias entrelaçadas podem estar representando a condição em que se encontrava o povo de Deus, a comunidade de Israel. Uma comunidade estéril, sem frutos como a figueira sem figos; sem filhos, como a história das duas mulheres Sara e Isabel.
Aí é que entra Jesus. Ele, o redentor, veio exatamente para isso: para restaurar o povo de Deus como comunidade fértil, capaz de gerar filhos para Deus. Por sua paixão, morte e ressurreição, comunicou vida nova à sua comunidade, o povo dos 12 apóstolos. Na primeira pregação de Pedro, anunciando Jesus morto e ressuscitado, no Pentecostes, foram gerados filhos sem conta para Deus... mais de três mil convertidos e batizados. Um útero fértil, o do povo de Deus restaurado.
Vamos guardar a mensagem de hoje
A menina morreu na idade em que o seu corpo começava a se preparar para a maternidade. A mulher estava perdendo sangue, perdendo vida, sem condições de gerar filhos. A menina e a mulher representam bem o povo de Israel em sua condição de esterilidade e incapacidade de gerar descendência e futuro. Foi por meio de Jesus, que as duas mulheres reencontraram a vida. Pelo ministério de Jesus, particularmente por sua morte e ressurreição, o povo de Deus foi restaurado, ganhando a capacidade de gerar filhos, assegurar descendência e futuro como família de Deus.
Uma mulher que sofria de hemorragia há doze anos veio por trás dele e tocou a barra do seu manto (Mt 9, 20).
Vamos elevar a nossa prece
Senhor Jesus,

Na história da mulher do fluxo de sangue que tocou a barra de teu manto, tu lhe disseste “Coragem, minha filha, tua fé te salvou”. A fé é a primeira condição para acolhermos a vida nova que tu nos trazes. A fé é a condição para o batismo. Na fé, renascemos nas águas batismais, como novas criaturas. Dá-nos, Senhor, a graça de viver na fé, como filhos e filhas de Deus, renascidos pela água e pelo Espírito Santo. Seja bendito o teu santo nome, hoje e sempre. Amém.
Pe. João Carlos Ribeiro - 09.07.2017