Meditação da Palavra

15 abril 2017

Os sinais que eles não compreenderam

Impressionante como os discípulos tiveram dificuldade para perceber que Jesus estava ressuscitado. Também pudera, a ressurreição é algo radical, surpreendente e diverso de qualquer expectativa que eles tivessem! Eles estavam fixados na morte, no túmulo. Nesse texto, a palavra “túmulo” se repete sete vezes.

Preocupados como estavam com o túmulo, isto é, presos no horizonte da morte, não se dão conta dos sinais que estão à sua volta que estão apontando para a ressurreição. Dá para perceber pelo menos quatro sinais,  nesse breve relato de São João, que sinalizam a vitória de Jesus sobre a morte. O primeiro é a indicação de ser a madrugada do primeiro dia da semana. É nessa hora, ainda escuro, que Madalena vai ao túmulo. Com a ressurreição, está começando a nova criação, a nova humanidade redimida. Foi numa semana que Deus criou o mundo. O povo de Deus da antiga aliança guardava o sábado, o dia do descanso, o coroamento da obra de Deus. O povo cristão começou a guardar o domingo, o início da nova criação, o dia em que Jesus ressuscitou. Com a ressurreição, começou um novo tempo.

O segundo sinal é o túmulo vazio. Madalena viu que a pedra tinha sido removida. E ela, como os outros discípulos, mergulhados na lógica da morte, pensam logo que o corpo foi roubado. Não tinham, então, nenhuma expectativa de ressurreição. O túmulo vazio realiza a palavra da Escritura, pela qual o seu servo não conheceria a corrupção.

O terceiro sinal são as faixas de linho no chão. O morto libertou-se das amarras das faixas. Na história de Lázaro, o próprio Senhor mandou desamarrá-lo, soltar as faixas. A morte já não o prende. O quarto sinal: o pano que cobria a cabeça do morto estava dobrado à parte. É o pano chamado “sudário”. Também se menciona esse pano mortuário na história de Lázaro que saiu do túmulo ainda com esse pano no rosto. As faixas e o sudário, antes sinais da morte, agora apontam em outra direção. As faixas não enrolam mais nenhum corpo, estão vazias  e o sudário está dobrado num canto. Quatro sinais que Madalena e Pedro não conseguiram enxergar... mas, um discípulo viu e creu: João.

A ressurreição é  uma mudança radical na história dos homens. Sem a ressurreição, não haveria cristianismo. Teríamos apenas a memória de um homem bom, cheio de Deus, com belos ensinamentos e muitos milagres; um maravilhoso profeta, amoroso com os pobres e fiel a Deus; um judeu perseguido pelas autoridades do seu povo, com um fim trágico nas mãos dos romanos. Sem ressurreição, o cristianismo não teria uma novidade radical para anunciar, nem a força que o levou a expandir-se pelos quatro cantos da terra e a influir na vida e na cultura de numerosos povos. Como escreveu São Paulo, se não houver ressurreição, é vã a nossa fé.

Pela ressurreição, os cristãos anunciam que Deus interferiu no processo que levou Jesus à morte cruel no madeiro, levantando-o dos mortos ao terceiro dia, dando-lhe razão, confirmando suas palavras e suas promessas. Pela ressurreição, confirmou-se que o profeta Jesus, nascido de Maria Virgem, é o filho amado de Deus, o enviado do Pai. Pela ressurreição, ficou esclarecido que sua vinda ao mundo foi para nos levar a um novo patamar de relacionamento com Deus, vencendo a distância que o pecado criou, elevando-nos à condição de filhos de Deus. Pela ressurreição, ficou sua Igreja autorizada a continuar sua missão de abençoar, de perdoar, de santificar, de elevar ao Pai o louvor da entrega de sua vida pela salvação dos seus irmãos.

Jesus tinha ressuscitado o jovem de Naim, a filha de Jairo e o seu amigo Lázaro. Mas, a sua ressurreição foi de outra ordem, não foi apenas a reanimação do corpo morto. Foi a entrada de Jesus em outra esfera de existência, inédita, surpreendente, superando definitivamente a morte e os limites do espaço e do tempo; uma forma tão surpreendente que os seus discípulos tiveram dificuldade para assimilar, mesmo vendo-o, tocando-o ou comendo com ele. Pela ressurreição, mesmo estando permanentemente com os seus, particularmente por sua palavra e pela eucaristia, participa do senhorio de Deus sobre tudo e sobre todos, sentado à direita de Deus Pai. Pela ressurreição de Cristo, primogênito de muitos irmãos, ficou assegurada para nós também esta esfera de superação completa da morte e dos limites de nossa condição humana. Em Cristo, também nós ressuscitaremos.  

Pe. João Carlos Ribeiro, sdb – 15.04.2017