31 outubro 2015

Quem quer saber de morte?

Quem quer saber da morte? Ninguém. Ela é representada como uma velha com uma foice afiada vagando pelo mundo, rondando os seres humanos, para ceifá-los como trigo. Ninguém quer morrer, e, no entanto, todos vamos morrer. Temos horror à morte e nos desesperamos inconsoláveis quando perdemos um ente querido. Se a morte é uma certeza, não seria melhor nos reconciliarmos logo com ela, melhorarmos nossa relação com ela?

Nossa cultura não lida bem com a morte. Esconde-a. Morre-se, hoje, na UTI, sem assistência dos entes queridos, sem o afeto da família. A morte virou um grande negócio nos hospitais. Arrasta-se a vida quase vegetativa até não mais se poder.  Nossa cultura banalizou a morte. São tantas as mortes no trânsito e na violência urbana, que não passam de números e estatísticas frias. Nas guerras, nas catástrofes impressionam mais os estragos físicos do que a morte de seres humanos. Nossa cultura mente, adiando indefinidamente a morte. “Você vai ficar bom, não há de ser nada”, se diz a um moribundo, perdendo-se a chance de ajuda-lo a enfrentar seus últimos momentos com o conforto da fé.

A morte é um evento natural líquido e certo na vida de cada um. Como cristãos, podemos ter uma relação mais harmoniosa com a morte. Precisamos fazer as pazes com a morte. Segundo o Novo Testamento, o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor". É o que está escrito na Carta aos Romanos (Rm 6,23). A morte foi vencida pela ressurreição de Cristo, já não pode mais nos assustar. Fomos sepultados com ele, pelo batismo, na sua morte. Agora, já participamos de sua vitória, de sua ressurreição. Assim, a morte já não tem mais poder. Ela foi vencida pela ressurreição de Cristo. Nosso caminho é o da vida, mesmo passando pela morte.

São Francisco de Assis fez as pazes com a morte. Tomou-a por irmã. Integrou-a no rol de todos os eventos de sua vida humana, a um tempo frágil e destinada à vida eterna.  São Francisco preparou o momento de sua morte. Convocou os seus confrades para entoarem o cântico das criaturas, onde um verso dizia: "Louvado sejas, meu Senhor, por nossa Irmã, a morte corporal, da qual homem algum pode escapar!". Fez as pazes com a morte.  Santo Agostinho, também ele reconciliado com a morte, deixou escrito: "A morte não é nada.  Eu somente passei para o outro lado do Caminho. Porque eu estaria fora  de seus pensamentos, agora que estou apenas fora de suas vistas?”

A morte não é o fim. É a porta para a vida definitiva. Pois "é morrendo que se vive para a Vida Eterna", como cantamos na Oração de São Francisco. Precisamos urgentemente nos reconciliar com a morte. Para viver melhor.


Pe. João Carlos Ribeiro

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