31 outubro 2015

Faça as pazes com a morte

Não era para o cristão ter medo de morrer, não era mesmo. Toda a vida cristã está marcada pela dinâmica da morte e ressurreição, pela dinâmica da Páscoa de Cristo. A gente já começa a vida cristã fazendo um exercício de morte.

O que é o batismo senão uma participação na morte de Cristo? Só há ressurreição se houver morte, ou não? O apóstolo Paulo ensinou isso claramente: no batismo mergulhamos nas águas da morte, com Cristo. Ali afogamos o pecado, morremos para o pecado. Renascemos para a graça. Ressuscitamos justificados por Cristo.

Então, a gente já começa a vida cristã se exercitando na morte. Renunciamos ao pecado, às seduções do maligno. E toda essa renúncia para abraçar o bem e a verdade que há em Deus. É esse o nosso ato de fé no batismo. Mas, batismo não é só na pia batismal. É todo dia. Todo dia procuramos viver como batizados, como filhos de Deus. Exercitamos cada dia a renúncia ao mal, morrendo para o que não presta e só prejudica os outros e a nós mesmos e ofende a Deus.

A espiritualidade cristã fala de sacrifício, de fuga da ocasião de pecado. Cada dia, procuramos viver o batismo como adesão incondicional ao Deus da vida, desmascarando o mal, vencendo o maligno. Assim, a vida cristã vai se tornando um exercício de morte. É morrendo que se ressuscita para a vida eterna, diz a oração de São Francisco. São Paulo explica assim: Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor. Jesus foi claro: “Quem quiser salvar sua vida vai perdê-la. Mas quem perder sua vida por minha causa, vai salvá-la”. Conclusão: viver como cristãos é viver continuamente a dinâmica da morte. Se quisermos viver para Deus, temos que nos desapegar de tantas coisas, nos desviar de muitos maus caminhos, mantermo-nos longe do mal deste mundo. É que nós rezamos no Pai Nosso: Livrai-nos do mal. 

Batizado não era para ter medo de morrer. Já vive na dinâmica da morte e ressurreição. Já mergulhou sua vida na páscoa de Cristo. A cada dia, procura aperfeiçoar-se no caminho do evangelho que é o caminho daquele que avisou que “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos amigos”. E quando chegar o momento de apresentar-se ao Pai, já está acostumado a entregar-se por inteiro nas mãos de Deus. Viveu para este encontro. Não é naquela hora que vai querer fugir dele. Caminhou desde o batismo para esse encontro definitivo. Confia que a morte é apenas uma passagem para vida plena e verdadeira. Mesmo assim, sabe que o negócio não é brincadeira. Por isso todo dia reza: Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém.

E como a morte é certa, é melhor a gente ir se preparando, vivendo bem; vivenciando o batismo, na dinâmica de morrer cada dia para o mundo, para o egoísmo, para o mal que nos habita. Para ressuscitar cada dia mais íntegro, mais de Deus.