28 fevereiro 2017

A vida que renasce das cinzas

Um dia Jerusalém foi tomada pelos babilônios, um império muito poderoso e cruel. O exército inimigo, depois de um longo período de cerco à cidade, entrou com tudo. Uma parte da corte e a elite da capital foram levados como escravos. O exército dos babilônios destruiu tudo o que podia. Os soldados derrubaram os muros da cidade, roubaram as coisas preciosas do templo e tocaram fogo no próprio templo, quebraram tudo. A cidade de Jerusalém, a bela capital da nação judaica, a cidade onde Deus morava no seu templo foi humilhada, queimada, destruída. O povo se dispersou, o reino de Israel se acabou. Isso foi por volta do ano 587 a.C.

Todos os anos, mais ou menos no aniversário daquela desgraça – a destruição da cidade santa de Jerusalém – muita gente voltava àquelas ruínas para visitá-las, lamentar-se pelo ocorrido e pedir a Deus que tivesse piedade do seu povo. No fundo, todos sabiam que tudo aquilo fora consequência dos atos irresponsáveis do próprio povo e de suas lideranças. O rei, os sacerdotes, a corte, os nobres, a população toda ... esses eram os verdadeiros culpados, pois distanciaram-se da aliança com Deus, foram infiéis às orientações dele, traíram sua fé com outros deuses e suas ideologias. O livro das Lamentações, parte da Bíblia, tem hinos desse tempo.


O povo voltando àquelas ruínas, no meio da poeira e das cinzas, ficava pensando, chorando... e rezava a Deus pedindo perdão de seus pecados. Sabia que aquilo tudo era a paga dos seus atos, a consequência de sua infidelidade a Deus. Por isso, pediam perdão, reconhecendo suas faltas e confirmando sua fé no Deus que podia salvá-los, reconstruindo a sua nação e o seu reino. As cinzas lembravam a destruição produzida pelo pecado e, ao mesmo tempo, a certeza de que Deus, em sua bondade, iria restaurar a sua cidade, o seu templo, reconstruiria a sua aliança.

O povo da Bíblia, quando queria mostrar ou cultivar o arrependimento, fazia assim: se sentava nas cinzas, se cobria de saco. Foi assim na pregação de Jonas em Nínive. O profeta anunciou que Deus, descontente com o desmantelo da vida daquela gente, iria destruir a cidade. O rei e todo o povo reconheceram suas faltas, sentaram-se nas cinzas e ficaram implorando a misericórdia de Deus. A condenação divina foi suspensa. O profeta é que não ficou muito satisfeito com essa mudança de planos de Deus.

Nas cinzas, o povo de Deus escuta o apelo à conversão, repensa sua vida, reconhece seus descaminhos. E aguarda a misericórdia de Deus, que lhes reconduzirá à vida nova, à restauração da aliança. As cinzas lembram a destruição que o pecado provoca. E, ao mesmo tempo, a tomada de consciência e a firme decisão de recomeçar. Nas cinzas, a vida renasce.

O início da quaresma do povo cristão, especialmente da tradição católica, tem as cinzas. Cinzas para lembrar que, longe de Deus, os caminhos errados nos levam à destruição. Destruição da vida, do meio ambiente, da vida em família, da justiça, da paz. O pecado traz destruição, como disse o apóstolo Paulo: o salário do pecado é a morte. Recebendo as cinzas, a gente diz que quer dar ouvidos aos apelos de conversão e refazer a aliança pessoal com Deus. Ao receber as cinzas, ouvimos do ministro essas palavras de Jesus no início do seu ministério: “Converta-se e creia no Evangelho”.


Pe. João Carlos Ribeiro – 05.03.2014

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