Meditação da Palavra

10 março 2014

A mulher de Ló

Vocês não acham injusta aquela história da mulher de Ló? A pobrezinha olhou para trás e virou uma estátua de sal.  História do primeiro livro da Bíblia, o livro do Gênesis. Ló foi o único justo encontrado na cidade de Sodoma. Tudo de ruim havia naquela cidade de Sodoma. O justo foi convidado a sair dali, deixar tudo, abandonar aquela gente. Mas, é claro, o convite para sair dali foi feito a outros também. Mas, os seus próprios genros não levaram a sério. Ló saiu com sua família. Deus ia pôr um fim naquele antro de maldade, violência e perversidade. A família de Ló saiu da cidade. Havia uma recomendação: ninguém olhe pra trás. A certa altura, a mulher de Ló olhou para trás para ver o que estava acontecendo por lá. Não deu outra. Virou uma estátua de sal.

Bom, Sodoma e Gomorra destruídas pela cólera divina é uma história contada pelos antigos ensinando às novas gerações que Deus não tolera a civilização violenta e permissiva. Na história dos antigos, muito antes da existência do povo de Israel, essas duas cidades foram destruídas com uma chuva de enxofre. A imagem é a erupção de um vulcão, coisa que ainda hoje se pode ver em alguns lugares. E ao sul do Oriente Médio, encontra-se o Mar Morto, o mar do sal, cheio de montanhas de sal gema. Foi neste ambiente que circulava a história da mulher de Ló que virara uma estátua de sal.

Teria sido mesmo injusta essa punição: a mulher ter virado uma estátua de sal? Mesmo que isso seja uma história edificante, um discurso plástico sobre a seriedade com que devemos acatar as orientações divinas, precisamos digerir melhor esse final triste da pobre mulher. Bom, no evangelho, o próprio Jesus, relembrou essa antiga narrativa e tirou uma lição. A moral da história no seu discurso foi: “Quem quiser ganhar a sua vida, vai perdê-la”.

Vejamos: a chegada do Reino de Deus, comparou Jesus, é como o convite para a saída de Sodoma. Deixar o velho do pecado e abraçar o novo do perdão e da reconciliação oferecidos agora no próprio Jesus. Dar as costas à Sodoma e caminhar para um novo modo de ser e de viver. Não compactuar mais com a velha situação. Paulo lembrou: “Quando ainda éramos pecadores, ele nos amou e nos escolheu”. Em outras palavras, Jesus pregou desde o início: “O reino chegou, convertam-se”. Conversão é reorientar a própria vida e a vida em nossa volta. Reorientá-la para Deus, em obediência à sua Palavra salvadora. Paulo, o apóstolo da Igreja em expansão no Império Romano, escreveu em uma de suas cartas: “Tudo novo, o que era antigo já passou”.

Por tudo isso, vou entendendo que quem abraçou a novidade do Reino de Deus deixou para trás o que era antigo, isto é, o que era negação do Reino. Não dá pra continuar fazendo média com o que é desobediência a Deus. Converter-se, relembrou Jesus, falando igual aos profetas do Velho Testamento. A mulher de Ló é o exemplo de quem abraça a novidade de Jesus e do seu Reino e fica olhando para trás. Fica com um pé na graça que nos gera novas criaturas e ainda repetindo os velhos hábitos do Adão pecador. Quem foi gerado novo no Cristo Ressuscitado, não tem mais nada a ver com o velho homem Adão, distanciado de Deus e amigo do pecado. A mulher de Ló é o exemplo de quem estava caminhando para o novo e não conseguiu se desligar do antigo, do passado.

Jesus foi claro: “Quem pega no arado e olha para trás, não serve para o Reino de Deus”. Sabe de uma coisa: a velha história da mulher de Ló tem sua razão de ser. Porque não é tão antiga assim. É a história de hoje de muita gente, de nós mesmos. E nem tão injusta como eu estava pensando.


P João Carlos Ribeiro