11 setembro 2013

Bem-aventuranças

Quantas vezes nós já escutamos o texto das bem-aventuranças! Houve um tempo em que explicá-las era uma coisa muito simples: "Deus escolheu os pobres e a partir deles ele instaura o seu reinado no mundo". Nas bem-aventuranças do capítulo 6 do Evangelho de São Lucas então a coisa parecia mais do que clara. "Bem-aventurados os pobres! Ai dos ricos!" Hoje, quando a gente vai explicar esta passagem fica cheio de dedos... na verdade, a gente gostaria de amenizar estas expressões tão duras, esses ais tão contundentes. Quem sabe se não seria possível espiritualizar a riqueza e a pobreza, e assim facilitar as coisas.

Mas o texto não deixa dúvidas: felizes os pobres, os famintos, os sofredores; ai dos ricos, dos fartos, dos gozadores. Não há pra onde correr. O texto não deixa margem de dúvida: está falando de posse de bens, de comida, de sofrimento.  Os pobres são humilhados, insultados, desprezados, explica o Mestre.  E é isso mesmo que fazem com os profetas de Deus. Os pobres são também profetas.

Os ricos, os fartos e gozadores são aplaudidos. O texto é concreto, fala de posses, fartura e risos.  Esses aplausos que eles recebem são sinais de falsos profetas. Esses elogios denunciam que eles vivem a condição de falsos profetas. Dentro da lógica do Reino de Deus, eles não são bem-aventurados como todo mundo pensa. Não são herdeiros do Reino. Fartura e riso serão na verdade fome e lágrimas.

Não precisa ninguém ficar com raiva do Evangelho ou do pregador. O texto é uma denúncia muito forte sobre nossa mentalidade. A quem nós damos valor: ao humilde ou poderoso? A quem recebemos melhor: ao engravatado ou ao maltrapilho? Em que nós confiamos: no perseguido ou no aplaudido? O que Jesus está nos dizendo é isso: Pois eu não julgo assim. Dentro da lógica do Reino não é assim. Para nós, primeiro vem o pequeno, o humilde, o sofredor. O reino pra ele chegou como felicidade, alegria, mesa farta. Numa palavra: "Bem-aventurados os pobres, porque deles é o Reino dos céus".

O mundo diz o contrário de Jesus: valor tem quem tem dinheiro no bolso e crédito no banco; confiança merece quem é famoso e socialmente importante; só quero amizade com quem tenha o que me oferecer. Quem continuar pensando assim, escute Jesus, no Evangelho de Lucas: "Ai dos ricos, porque já têm a sua própria consolação".

As bem-aventuranças do Evangelho são o manifesto do Reino de Deus. Manifesto é uma declaração pública de princípios e intenções. A partir da denúncia de uma situação, o manifesto conclama a comunidade para a ação, para um novo tempo. O manifesto do Reino abre um novo tempo, de rupturas e novidades. Os cidadãos desse novo tempo – o tempo do Reino de Deus – são os pobres, os necessitados de Deus e de sua ação libertadora. Os pobres estão descritos nas bem-aventuranças. Eles são os sofredores, os perseguidos, os famintos e sedentos, os injustiçados. Nesse novo tempo que começou com a presença de Jesus, eles são felizes, são bem-aventurados porque para eles o Reino é bênção, perdão, libertação.

Pe. João Carlos Ribeiro