19 junho 2013

E como tudo isso vai acabar?

Pe. João Carlos Ribeiro - padrejcarlos@hotmail.com


É claro que não é apenas o aumento das passagens que está em jogo. O aumento das passagens de ônibus é a cereja do bolo. O bolo é a grande insatisfação com a deficiência da infraestrutura nas cidades, comparando-as com os investimentos nos grandes estádios construídos para a Copa das Confederações e a Copa do Mundo FIFA. A indignação dos jovens vem de longe e vem se acumulando há muito tempo, só estava esperando uma válvula de escape. Há um desencanto histórico com os políticos  e governantes, agravado pela corrupção, pela impunidade e pelo retorno da inflação.
O certo é que as manifestações de rua destes dias têm assustado a governos e à própria população. Os cientistas sociais ainda estão procurando uma explicação razoável para o fenômeno.  Hoje, a maior parte da população vive nas cidades. E os médios e grandes centros urbanos estão enfrentando sérios problemas de mobilidade, tal como: engarrafamentos, congestionamentos, má qualidade das calçadas e passarelas, além da evidente falta de investimento na qualidade dos transportes públicos. Por outro lado, o nosso sistema econômico privilegia a produção e o consumo, estimulando a aquisição de automóveis, que, aos milhares, ingressam a cada dia nas já congestionadas ruas e avenidas, aumentando o estresse no transito.  Tudo isso somado às deficiências nas áreas da saúde, da segurança, da cidadania, da habitação.
Outro dado que me parece interessante levar em conta é que a emersão de milhões de brasileiros para a classe média, nesses anos, aumentou a procura por serviços que já eram precários e insuficientes. Vê-se que há mais gente nos aeroportos, nos restaurantes, nos cinemas, nos shoppings. É a nova classe média ocupando o seu espaço. Crescimento na frota de veículos com o baixo investimento em transporte público, deficiências históricas nos serviços de saúde e segurança... só estava faltando um ingrediente: a decepção com os estádios da Copa que, não somente custaram uma fortuna aos cofres públicos, como também os acessos a esses locais expuseram a desorganização e o colapso da mobilidade urbana. No meu entender, esse foi o estopim dessas manifestações, que rapidamente se alastraram pelas grandes cidades, sob convocação através das redes sociais, num movimento que não atende partidos políticos, nem sindicatos, nem qualquer organização institucional.
A grande maioria dos manifestantes deseja realizar os protestos em tom ordeiro e respeitoso. E, nisso, têm o apoio da população e de governantes democráticos. Infelizmente, há dois tipos de descontrole que preocupam, nesse momento: os excessos da força policial na repressão aos protestantes e a ação de grupos minoritários que descambam para o puro vandalismo, destruindo o patrimônio público e ameaçando pessoas e instituições. A grande maioria dos participantes repudia esse tipo de descontrole irracional.
E como tudo isso vai acabar? Em mais de uma passeata mostrada na televisão e nos jornais,  vi esse cartaz “O gigante acordou”, um contraponto ao hino nacional que descreve o Brasil como “gigante pela própria natureza”, e “deitado eternamente em berço esplêndido”. “O Gigante Acordou”. Tudo indica que essa geração jovem que estávamos achando um tanto descompromissada, distante das lutas populares, que tinha  pouca ideia dos tempos difíceis da ditadura e da redemocratização, essa geração ganhou as ruas e deixou tudo em crise: o circo da Copa, as máscaras dos senhores de plantão, a lógica do sistema, e até as expressões religiosas alienadas. E como tudo isso vai acabar? Ah, talvez esse seja apenas o início...  Um novo Brasil cidadão pode estar apenas começando.
Postar um comentário