26 fevereiro 2014

De cabeça baixa?

Nos filmes de guerra, aparece o general vencedor e seu exército entrando na cidade, num desfile onde se exibe inimigos acorrentados como troféus. Eles desfilam sua humilhação, de cabeça baixa.
Nas partidas de futebol, ao apito final, o time vencedor festeja aos pulos e gritos, partilhando a euforia da torcida. Os jogadores do time perdedor retiram-se de cabeça baixa, desviando-se no quanto possível da torcida e da imprensa. Escondem-se do constrangimento.
Na vida real, pessoas habituadas a serem tratadas aos gritos, a sempre cumprir ordens sem serem ouvidas, humilhadas pela miséria ou atormentadas pelo sentimento de impotência ou inferioridade se apresentam, em público, de cabeça baixa.
"Cabeça baixa" é um sinal da pessoa vencida, humilhada, perdedora; arqueada pela prepotência, pela impotência; aviltada em sua dignidade de ser humano. Há pessoas que de tanto sofrimento, de tanto olhar para o chão, adoecem fisicamente, contraem doenças na coluna vertebral.
Jesus encontrou uma mulher encurvada, na Sinagoga. Era encurvada e totalmente incapaz de olhar para o alto, diz o Evangelho (São Lucas 13,11).  Ela estava assim há 18 anos. Dezoito anos de opressão, de humilhação, de sofrimento. Vivia assim, encurvada, cabeça baixa, ombros arqueados, há tanto tempo. A mulher encurvada é um símbolo do ser humano de cabeça baixa, derrotado, vencido, envergonhado. Como diz o Salmo 37: "Estou abatido, extremamente recurvado, todo o dia ando cheio de tristeza" (Sl 37,7).
E o que Jesus veio fazer foi exatamente ajudar a pessoa a levantar a cabeça. Uma vez, lendo o texto bíblico na Sinagoga de Nazaré, ele explicou sua missão: abrir os olhos aos cegos, libertar os oprimidos, ressuscitar os mortos, numa palavra anunciar a boa notícia aos pobres (cf. Lucas 4). A boa notícia da vida, do amor de Deus, da felicidade. Jesus veio para libertar a pessoa humana de todas as suas amarras, prisões, humilhações. Ajudar o ser humano humilhado a levantar a cabeça.
E era um dia de sábado. O chefe da Sinagoga não gostou:  "em dia de sábado, não. São seis dias de trabalho na semana, venham nesses dias", falou o dirigente. Mas Jesus insistia no sábado. No sábado, curava o povo, endireitava os encurvados. E por que? Porque a criação, que teve seu ponto alto na criação do ser humano, foi coroada com o descanso de Deus, no sétimo dia, no sábado. E "a glória de Deus é o homem vivo, de pé", escreveu Santo Irineu, o primeiro grande teólogo da Igreja. Não a pessoa humana de cabeça baixa, mas de pé, de cabeça erguida. Esse sim manifesta a glória de Deus, de quem é a imagem. O sétimo dia, o sábado da Bíblia, é o dia da glória de Deus, da obra de Deus completa e perfeita.
Já fazia 18 anos que a mulher vinha assim, encurvada. E a sua cura foi a vitória de sua dignidade de pessoa, imagem de Deus, a sua ressurreição. Jesus ficou três dias no sepulcro. Ressuscitou de cabeça erguida, vencedor do mal, do pecado e da morte. A mulher já estava assim há 18 anos. 18 é 3 x 6.  Três, a conta certa, o tempo completo. Seis, o falho, o enganoso, o incompleto. 3x6. Esgotou-se o tempo. Chegou a ressurreição ao terceiro dia. O homem e a mulher de pé, ressuscitados: essa é a obra de Deus, a obra de Jesus. Gente de cabeça erguida. Gente digna, vitoriosa, feliz.
Pe. João Carlos Ribeiro – 25.10.2011
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