06 fevereiro 2013

Só os fortes

Pe. João Carlos Ribeiro

Heroísmo. Quando o cristianismo se espalhou, esse era o prato de todo dia: o heroísmo, o martírio. Aliás, com Jesus já foi assim. Sua adesão incondicional à vontade do Pai que o enviou em missão o levou à cruz dos condenados pela justiça dos homens. Depois, foram os diáconos. Os apóstolos. Mulheres e homens, jovens e criança, às centenas. Abraçar a fé significou expor-se ao ódio do mundo, à perseguição, à morte.

Os livros dos Macabeus, do antigo testamento, nos contam a história do velho Eleazar, que não quis escandalizar os jovens, nem envergonhar seus cabelos brancos. Preferiu a morte por espancamento e roda à traição da Lei de Deus. Contam-nos também a história dos sete irmãos e sua mãe morrendo valentemente sem ceder um milímetro no cumprimento da Aliança. E Matatias, que cheio de santo zelo, juntou o povo no interior, preferindo a morte gloriosa de lutadores à traição aos costumes sagrados do povo bíblico. Os livros dos Macabeus exaltam o heroísmo, a resistência, o martírio de um resto fiel frente à tentação de relaxamento no cumprimento da Lei de Deus.

As comemorações de todos os mártires no calendário da Igreja estão a nos dizer que o caminho de hoje ainda é o mesmo, o da porta estreita. Larga é a porta que conduz à perdição, explicou Jesus. E por ela, muitos passam. A porta estreita é que dá acesso à vida. É estreita porque comporta sacrifício, empenho, dedicação, perseverança. Muitos preferiram a morte à traição de sua fé, do seu Senhor. Foi assim o caso de Sebastião, de Luzia, Cecília, Brás, Águida, dos mártires do Rio Grande do Norte que celebramos nesses dias.

Os cristãos já nasceram na contramão da história. Distanciaram-se da hipocrisia dos fariseus; Denunciaram a riqueza injusta; acreditaram na vida comunitária e na partilha entre os irmãos; Não se curvaram aos deuses do Olimpo, nem ao Imperador divinizado. Puseram em cheque as diferenças sociais de escravos e senhores, homens e mulheres, estrangeiros e nacionais. Acreditaram no projeto de Jesus: o das bem-aventuranças dos pobres, dos sofredores, dos famintos, dos perseguidos. Ficaram desde cedo na contramão das sociedades desiguais. Por isso, enfrentaram denúncias, tribunais, feras, cruzes, fogueiras.

A Igreja foi aplaudida só nos dias em que se colocou ao lado do poder e descreu da força do Evangelho. No mais, sempre foi incompreendida e perseguida. E a razão: porque tem compromisso com a vida, a dignidade humana, o poder soberano de Deus. Na contramão da história continua: contra o aborto, contra a eutanásia, contra a corrupção, contra a maconha, contra as drogas. É a porta estreita. Está no contra fluxo da opinião geral. Quando o mundo prega o individualismo e a vitória da vontade individual, a Igreja acredita antes na fraternidade, na comunidade, na comunhão. Quando o mundo trata o sexo como mercadoria do prazer, a Igreja defende a dignidade da sexualidade humana, a força do amor, a santidade do matrimônio. E quando defendem a descriminalização da maconha, os cristãos insistem em abrir os olhos das novas gerações para as consequências danosas da erva: a dependência, a abertura para drogas pesadas e a criminalidade.

Heroísmo, resistência, martírio. Foi sempre assim. É sinal da verdade, não da derrota. É a vitória de quem entra pela porta estreita e conquista a vida. Foi o que Jesus falou: "O Reino de Deus está sofrendo violência, só os fortes o arrebatam".