17 setembro 2012

A história do Padre Cícero

Pe. João Carlos Ribeiro

Juazeiro era apenas uma pequenina aldeia, a três horas de cavalo da cidade do Crato, sede do município, com umas poucas casas e uma capelinha dedicada a Nossa Senhora das Dores. Ali, no vale do Cariri, um enclave fértil do sertão, na confluência com os estados de Pernambuco, Paraíba e Piauí, haveria de crescer um grande pólo de desenvolvimento econômico e social, hoje a segunda cidade do Estado do Ceará. Foi ali, que em 1872, chegou um padrezinho jovem, de 28 anos de idade, formado em Seminário de linha tradicional, em Fortaleza. Sua liderança, seu zelo pelo bem do povo, sua linha religiosa vigorosa mudaram as feições da vila e atraíram a atenção de boa parte do vale do Cariri e do nordeste brasileiro.


O padre zeloso que em 1872 chegou a Juazeiro chamava-se Cícero Romão Batista, natural do Crato, vizinha sede do município, que logo se sentiria incomodada com o crescimento da pequena aldeia. Tudo andava bem, na simplicidade do trato do padre com o seu povo humilde, na acolhida de visitantes que engrossavam as festas religiosas, no crescimento econômico das fazendas e engenhos do seu entorno. Foi quando um inesperado fato aconteceu. Deu-se com uma beata, durante a comunhão. As beatas eram moças consagradas a Deus, uma forma de vida religiosa organizada no sertão por um grande missionário, Pe. Ibiapina. Havia beatas em várias cidades do Cariri. Eram, na verdade, freiras, à moda do sertão. Pois bem, quando a Beata Maria de Araújo comungou em março de 1889, a hóstia que recebeu verteu sangue. No começo, o Padre Cícero abafou o quanto pode o fenômeno. Mas, o fato tornou a acontecer em outras numerosas ocasiões: ao dar a comunhão à beata Maria de Araújo, a hóstia vertia sangue. A notícia se espalhou e gente muita acorreu para presenciar o dito milagre. Padres da redondeza organizaram peregrinações e Juazeiro ferveu de gente.
 
A notícia chegou aos ouvidos do bispo de Fortaleza (sede da diocese de todo o Ceará). O bispo mandou uma primeira comissão para investigar. A comissão concluiu que não havia explicação humana para o fenômeno. O bispo encomendou uma segunda e apressada comissão que rapidamente decretou que se tratava de embuste, invencionice de fanáticos. Os padres das cidades vizinhas que deram apoio ao fenômeno foram obrigados a se retratar. Os reverendos da primeira comissão foram punidos. E o padre Cícero, suspenso de ordens. Daí pra frente foi só sofrimento e perseguição para o capelão de Juazeiro. A diocese impôs severas restrições ao povo religioso do Juazeiro. E discriminou seriamente os milhares de peregrinos que continuaram a chegar à vila, permanentemente, em romarias.

O Pe. Cícero procurou, de todos os modos, que se lhe fosse concedido voltar a celebrar a missa, confessar, casar, batizar, aconselhar o povo. O bispo do Ceará escreveu cartas pastorais muito duras contra Juazeiro, seus líderes leigos e seu capelão. Por um tempo, Pe. Cícero teve que residir em Salgueiro, Pernambuco, longe de Juazeiro, como Roma ordenava. E depois de ter impetrado recurso, teve que ir pessoalmente explicar-se ao Santo Ofício, na cidade eterna. Passou nove meses em Roma, tratando de sua causa, chegando mesmo a ser apresentado ao Papa Leão XIII. Voltou de lá com uma pena mais branda, e a licença de celebrar a missa, a ser confirmada pelo bispo de Fortaleza. Na volta, o Bispo não lhe deu permissão para celebrar e por isso, voltou tudo quase à estaca zero.

Bom, a história foi longa, de sofrimentos e humilhações impostas a Juazeiro e ao Pe. Cícero. Quando se pensou em fazer uma segunda diocese no Ceará, a disputa cresceu entre Juazeiro e Crato. Juazeiro nem era cidade, por isso travou uma grande luta política e tornou-se sede de município. Mas, não ganhou a sede da Diocese, que ficou no Crato. Por essa altura, para preservar a paz na sua cidade, o próprio Pe. Cícero foi eleito prefeito de Juazeiro. A situação, para o Pe. Cícero, não mudou muito com a instalação da nova diocese do Crato. As disputas políticas da região e os interesses políticos da capital mexeram muito com Juazeiro, pela sua condição influente no Vale do Cariri. E assim o Pe. Cícero viu-se muitas vezes envolvido nestas questões, no sentido de preservar sua cidade de manobras dos coronéis da velha república prejudiciais ao novo município que ele ajudara a nascer.

Nos últimos anos de sua vida, trabalhou muito pela ida de religiosos para sua cidade. Lutou pela ida dos franciscanos, dos premonstratenses e, mais tarde, dos salesianos. Até o fim lutou em defesa de sua inocência e pela revogação de sua suspensão de ordens. Mesmo velhinho e alquebrado por problemas de saúde, ainda estava disposto a voltar a Roma para se defender. No dia 20 de julho de 1934, aos 90 anos de idade, fez sua última viagem. Sua morte foi pranteada pelo nordeste pobre, que mantinha com ele uma relação de profunda amizade e veneração, um vínculo sagrado de amor e respeito entre padrinho e afilhados. 60 mil pessoas acompanharam o seu cortejo fúnebre até a igreja do Socorro, onde foi sepultado, ao lado de sua mãe, dona Joaquina Vicência Romana, de sua irmã Dona Angélica e da beata Maria de Araújo.

Sua morte não foi a morte de Juazeiro. Ao contrário, sua cidade continuou a crescer. O fenômeno das romarias não diminuiu, ao contrário tem aumentado a cada ano. Sua vida e sua obra continuam atraindo a atenção de estudiosos de todo o mundo. Na virada do milênio, o Pe. Cícero Romão Batista foi eleito o cearense do século.