27 agosto 2012

A tentação


A estrada larga é a estrada da perdição, avisou Jesus. O caminho da felicidade é estreito e íngreme. No seguimento de Jesus, só há lugar para quem renuncia a si mesmo, para quem o segue carregando a sua própria cruz. Sem cruz, não há salvação. Sem esforço, não chegamos a lugar nenhum.  

E tentação existe. Tentação é aquilo que pode nos afastar do nosso caminho de fé. No Pai Nosso Jesus ensinou a pedir a Deus: "Não nos deixeis cair em tentação". Ele mesmo foi tentado, como está narrado no evangelho. Queriam que ele resolvesse a fome com mágica; e que fizesse pacto com o próprio mal para se dar bem na vida; e ainda que fizesse de seu trabalho missionário um grande espetáculo. Jesus venceu a tentação. Aceitou o caminho difícil de filho do homem, de Deus humanado, aguentando a perseguição dos grandes, a traição dos amigos, o abandono dos que ele beneficiou. Viveu intensamente sua condição humana e fugiu da tentação de querer evadir-se dela.

Tentação existe. Pedro repreendeu Jesus por ele não assumir publicamente sua condição de messias de Israel. E por ele aceitar, com aparente resignação, um final triste de condenado. Também desta tentação Jesus fugiu. Não aceitou a opinião de Pedro, não viu nela a vontade de Deus.  A compreensão de Pedro era de um messias glorioso, sem cruz. É a nossa tentação permanente: fugir da dificuldade, deter-se diante do primeiro obstáculo, vencer sem fazer força. Jesus queria, antes de tudo, realizar a vontade de Deus. Por isso, precisava tomar o caminho de Jerusalém, que é o caminho do enfrentamento e da cruz, mas o único caminho da vitória.

A tentação do mais fácil nos acompanha. Menos esforço e mais confiança na sorte, nas loterias, nos prêmios acumulado. Essa tentação se prolonga na religião: procuramos um deus ou um santo que nos tire do atoleiro, garanta bênçãos em nossa vida e afaste de nós qualquer  sofrimento ou dor. É o que talvez Pedro quisesse para Jesus: um caminho glorioso de Messias, sem calvário, nem cruz. Infelizmente não se sofre menos neste mundo por se ser cristão. Às vezes até se sofre mais. Religião não é pra resolver nossos problemas financeiros ou familiares. É pra fazer a gente viver a vontade de Deus no meio de todas as dificuldades desta vida. E enfrentar com coragem e esperança os dramas da existência humana. A certeza da vitória não nos dá o direito de ficar de braços cruzados e deixar para Deus a luta para vencer o mal e transformar a sociedade. 

Na tentação, a gente tem que escolher: o caminho de Deus ou o caminho da lógica humana. O caminho de Deus é exigente: requer sacrifício para se ser fiel à amizade, à verdade, ao ideal que se abraçou. O caminho da lógica humana, o da tentação, manda a gente pela via do  mais fácil, do mais prazeroso, do mais cômodo. No evangelho, Jesus fala da necessidade de seus seguidores renunciarem a si mesmos e tomarem a sua cruz cada dia.

Mas aquele ditado é certo: "Deus dá o frio conforme o cobertor". Quer dizer: a gente tem condições de vencer a tentação. Ele não nos permite uma provação maior do que as nossas forças. Mas, é preciso fazer a nossa parte. Todo dia precisamos renovar nossa escolha fundamental pela vontade de Deus, pelo seu caminho exigente, pelo seu amor fiel. Para isto rezamos: "Não nos deixeis cair em tentação".



Pe. João Carlos Ribeiro