05 junho 2012

A refeição de Jesus

Comer com estranhos é, quase sempre, uma coisa muito incômoda. Fica-se cheio de dedos, cheio de cerimônias. Passa até a fome. Comer na companhia de gente estranha.. ô coisa chata. Agora, comer na companhia de amigos e parentes, ô coisa boa! Pode ser até uma comidinha fraca, pouca, sem variedade. Mas, a gente come com gosto. A gente passa bem. Tem mais apetite. Vai conversando, contando histórias e comendo tudo que aparecer. Coisa boa é a gente sentar à mesa e jantar com quem a gente gosta e tem intimidade.

A refeição é uma coisa sagrada. É uma hora de encontro e comunhão. Por isso que é tão bom comer em família, com parentes e amigos. Comer e beber juntos é mais do que alimentar-se fisicamente. Quando a gente se reúne ao redor da mesa, faz mais do que ingerir alimentos. A gente reparte alegria, comunica bom humor, conversa sobre a vida. E quando se levanta da mesa, não é só a barriga que está alimentada, é a pessoa toda, na sua corporalidade, na sua psique, no seu coração.

De vez em quando a gente faz planos: tal dia vou almoçar com meu pai ou com minha mãe. Para quem não vive mais na casa dos seus pais, esse é um dia especial, não é verdade? E não é só fazer uma visitinha e voltar na carreira. O bom é sentar-se à mesa para almoçar ou jantar com o pai ou a mãe. Aí, essa refeição é especial. Pode não ter nada de especial na mesa. Mas, aquele tempero é inigualável. Aquela conversa na mesa é restauradora de forças. Uma refeição que é verdadeiramente encontro e comunhão. 

Só pode ter sido por isso que Jesus celebrou a sua páscoa numa refeição. Ele começou dizendo que tinha desejado muito aquele momento. Tinha contado as horas para fazer a refeição da páscoa com eles, seus amigos de caminhada. O seu caminho de missionário estava terminando. Havia uma forte oposição contra ele, por todo canto. Um cheio de traição no ar. Ele estava meio triste, embora estivesse sereno. Mas, que bom, iam comer juntos. Iam cantar os salmos da noite da páscoa juntos. Iam comer o pão ázimo para lembrar a pressa da fuga dos antigos do Egito. Iam beber o vinho que relaxa e alegra os corações. Sobretudo, estariam juntos naquela hora tão difícil e arriscada para todos, sobretudo para Jesus. 

É tão bom sentar-se à mesa com parentes e amigos. E não é só a comida que a gente reparte. A gente conversa e partilha a vida, com tudo que tem de preocupações e esperanças. Jesus estava pronto, estava disposto. Queria obedecer ao Pai até o fim. Por isso, na ceia, ofereceu ao Pai os sofrimentos que iria enfrentar, o sacrifício a que iria se submeter. Ia livremente. Entregaria a sua vida, por amor ao Pai e à gente que ele amava. Quando repartiu o pão ele disse: "Comam. É o meu corpo entregue". E quando passou a taça de vinho: "Bebam. É o cálice do meu sangue derramado".  Dava pra ver no rosto dos discípulos que a preocupação de Jesus era a deles, a decisão de Jesus seria a deles, queriam partilhar da mesma confiança no Pai. A refeição é mesmo um lugar de encontro e comunhão. Eles estavam em comunhão com Cristo. Nem todos, é claro. 

Ah, aquele ceia ficou na história. Comer o pão e beber o vinho na mesa com Jesus significou unir-se a ele, na sua obediência ao Pai, no seu sacrifício salvador. Comungar com ele. Unir-se a ele naquele momento de entrega da própria vida. Corpo entregue à morte. Sangue derramado na cruz. Comer e beber naquela mesa significou participar com ele do seu sacrifício. Acompanhá-lo na sua obediência ao Pai. E acolhê-lo vitorioso na sua ressurreição. Participar com ele da vitória do terceiro dia. 

E hoje, ainda se pode ouvir aquelas palavras do Mestre no final da refeição: "Façam isso em memória de mim". "Em memória de mim". Comer e beber na ceia do Senhor é fazer a memória de sua morte e ressurreição em favor da humanidade. É atualizar aquele único e eterno sacrifício da cruz. É entrar na comunhão com o Senhor na sua suprema homenagem ao Pai. 

É isso que é a Missa. Uma refeição de irmãos e amigos do Senhor.  Um encontro sagrado de comunhão com ele. Ouvindo sua palavra, comendo em sua mesa, unimo-nos ao seu sacrifício e o renovamos em favor da humanidade toda e de cada um de nós. Uma refeição, de onde saímos fortalecidos pela presença verdadeira, real e substancial de Cristo presente no pão e no vinho consagrados. Do Cristo Senhor ressuscitado e glorioso que nos comunica sua vida e sua graça.

Pe. João Carlos Ribeiro
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