Meditação da Palavra

29 fevereiro 2016

Santo de casa

Aquilo que Jesus falou "o profeta não é bem recebido em sua própria pátria" foi uma afirmação, uma reclamação ou uma lamentação? Ele disse "o profeta não é bem recebido em sua própria pátria" na Sinagoga de Nazaré, diante da má acolhida dos seus conterrâneos. Eles não quiseram lhe dar crédito. Ele estava explicando que as palavras do livro santo estavam se cumprindo naquela ocasião, em sua missão. Começaram a murmurar, achando que Jesus estava indo longe demais. Todos o conheciam, era o filho do carpinteiro. Seus parentes eram todos conhecidos naquela vila de Nazaré. De onde lhe viria tanta sabedoria? E outros comentavam descrentes: "ele anda fazendo milagre por todo canto, vamos ver se ele faz um milagre aqui". E chegaram a expulsá-lo da sinagoga e da Vila.  A acolhida fria, desconfiada e violenta dos seus conterrâneos dava razão ao ditado "o profeta não é bem recebido em sua própria pátria". Foi uma lamentação o que Jesus disse, não foi uma afirmação. Não é que tem que ser assim. Infelizmente, é assim que vem acontecendo.


"Santo de casa não faz milagres" é o ditado que ainda corre o mundo. Mas isto não quer dizer que seja uma coisa correta. Por que é que nós não damos valor à prata da casa? Por que vemos com desconfiança alguém que nós conhecemos que ascendeu na vida, que se tornou um profissional renomado ou assumiu uma posição de liderança em nossa vizinhança? Na verdade, quando desqualificamos alguém do nosso grupo, estamos nos desqualificando. Não acredito no outro porque não acredito em mim.  A menos que estejamos agindo por pura inveja. Ou que tenhamos absorvido os preconceitos que os de fora têm sobre nós. Aquele discípulo de Jesus, Natanael, quando ouviu falar de Jesus fez um comentário preconceituoso que representava boa parte da opinião corrente: "Por acaso de Nazaré pode sair alguma coisa boa?". Olha o preconceito! Será que os conterrâneos de Jesus tinham introjetado esse preconceito contra eles mesmos? Ou será que trancaram o coração e a razão por pura inveja? Ou quem sabe agiram como nós continuamos agindo porque não nos valorizamos, não damos valor ao que é da terra, considerando que o melhor é o sempre o de fora, o do outro grupo, o da outra rua.  Com certeza, foi  tudo isso junto e muito mais.

"A galinha do vizinho é sempre a mais gorda" é outro ditado que merece uma reflexão. Quando nos desvalorizamos, desqualificando as pessoas que emergem socialmente no nosso meio ou que pleiteiam assumir uma posição de destaque entre nós na verdade, fazemos isso supervalorizando os de fora, os de outro status social. Não acreditando em nós mesmo, em nossa classe, em nossa capela, em nossa família, supervalorizamos os de fora. "Ah, aqui é uma bagunça, uma corrupção generalizada. Bom é nos Estados Unidos". "Nossos artistas são regionais. Celebridades são os do Rio de Janeiro". E agora me lembrei de Chico Anísio: "vampiro brasileiro!" O de fora é que é o tal. Isso em bom português se chama alienação: deixar de reconhecer o seu valor para curvar-se ao valor de outro mais forte, mais rico, mais badalado. A galinha do vizinho nem sempre é a mais gorda. Aliás, quase sempre não o é.

Nessa lógica humana, mesquinha, alienada – que continua sendo a nossa – Jesus para ser o salvador enviado por Deus devia ter chegado de fora, com toda pompa e poder, quem sabe arrodeado por um exército luminoso de anjos, sei lá... Que viesse de fora, de outro país, ou pelo menos de Jerusalém, da capital ou fosse membro das elites de Israel. Mas não foi essa a lógica de Deus e não foi assim que Jesus realizou sua missão. O pai o enviou como filho de uma mulher – é o que sublinhou São Paulo – para falar da condição de dependência, de fragilidade humana que ele assumiu. São João foi claro: "O verbo se fez carne". Essa é a lógica de Deus. Acreditar em nós. Valorizar as possibilidades de nossa própria condição. Apostar que santo de casa é que faz milagre.

P João Carlos Ribeiro - 13.03.2012