28 março 2012

A hora e o grão de trigo

A "hora" é um tema importante no Evangelho de São João. Bem no início do Evangelho, no capítulo segundo, Jesus diz à sua mãe que lhe apresenta a difícil situação da festa de casamento onde estava faltando vinho: "minha hora ainda chegou!". E no capítulo 13, ao iniciar a narração da última ceia, comenta-se: "Jesus sabendo que já era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, como havia amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim" (Jo 13.1). A "hora" é, portanto, um tema que acompanha a descrição da missão de Jesus no evangelho de São João.
A "hora" é um modo de se referir ao momento supremo da vida do Senhor, a sua paixão e morte. A hora do grande serviço redentor à humanidade, a hora da grande fidelidade ao Pai. A hora da paixão e morte. Jesus se preparou para este momento, mas como gente de nossa estirpe também teve medo e angustiou-se profundamente com a aproximação desta hora. Ele disse aos discípulos:  "Agora, eu estou angustiado. E o que eu vou dizer? Pai, salva-me desta hora; mas foi para esta hora que eu vim" (Jo 12,27). Naquela cena do Jardim das Oliveiras, antes da prisão, Jesus estava sob um forte estresse e tal era o nível de sua angústia diante do que estava para acontecer, sua prisão, condenação e morte de cruz que suava sangue.

Mas a morte de Jesus não seria o fim. Seria o coroamento de sua missão, o ápice do seu serviço. Ele comparou a situação com a morte do grão de trigo. "Se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só. Mas se morre, produz muito fruto". Se o grãozinho de trigo que cai na terra nega-se a entregar-se, a abrir-se à terra, a dar-se por completo.... não passará de um grãozinho a mais, estéril, que ficará talvez de lembrança. Mas, se generosamente se entregar, se abrir de dentro pra fora, morrer na sua condição de grão, vai gerar uma planta que vai dar muitas espigas e multiplicar-se. A morte da semente é geração de uma nova vida, é o milagre do renascimento. Assim a morte já contém a vida.

Jesus que veio nos comunicar a vida de Deus, fez isso de muitas maneiras, nos entregando sua palavra, defendendo e promovendo a vida ameaçada, ensinando-nos o mandamento do amor, trazendo-nos o perdão de Deus. Mas, o gesto mais eloquente de sua missão, a ação redentora por excelência pela qual nos comunicou a vida de Deus foi a sua morte. Deu sua vida, comunicando-nos a vida de Deus. Grão que morre, brotando em uma nova vida. A eucaristia é a celebração dessa oferta de sua vida: corpo entregue, sangue derramado para remissão dos pecados. Assim, a sua morte não é o fracasso, a derrota, o fim de tudo. Mas, antes, a vitória da fidelidade e do amor que nos comunicaram a vida de Deus. A sua morte em  nosso favor já tinha em si a própria ressurreição, a vitória definitiva do humano glorificado em Deus.

Dá pra gente entender melhor essa palavra de Jesus antes da paixão: "Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado" (Jo 12, 23). A hora é o momento de sua paixão e morte que gera vida, que manifesta a glória de Deus, que se transforma em ressurreição. A hora de Jesus é então mais do que a hora de sua paixão e morte. É a hora também de sua vitória, de sua ressurreição.

Nesses dias de Quaresma e na Semana Santa, vamos contemplando a suprema oferta de Jesus em nosso favor, em sua paixão e morte. Para aprender com ele e para mergulhar em sua HORA, as nossas horas, horas de prova, de crise, de angústia. Lembremo-nos do grão de trigo. Se não há entrega, não há vida nova.

Pe. João Carlos Ribeiro – 25/03/2012

Um comentário:

  1. gostei muito,quaresma é mesmo o tempo de parar,pensar,refletir sobre nossos atos e conceitos, sobre tudo q nosfizemos de errado pedindo perdeu ao nosso senhor jesus cristo,e tambem compartilhando o que temos com os nosso irmãos que presica.

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