16 fevereiro 2012

A luz do carnaval

Ser uma pessoa religiosa não é ser uma pessoa triste. A festa não é uma coisa contrária à fé. Jesus mesmo gostava muito de festas. Basta lembrar o episódio das bodas de Cana. Era uma festa de casamento. Lá ele transformou água em vinho, colaborando para que a festa não tivesse um final desastroso. Como freqüentava refeições de festa na casa de publicanos, foi muito censurado pelos fariseus. Ele explicou o seu comportamento, falando da conversão do pecador, como um momento de festa no Reino de Deus. Foi assim na história que contou do filho pródigo e da ovelha perdida. Chegou até a comparar o Reino de Deus com um banquete de festa.

O carnaval nasceu para encerrar o tempo que precedia a quaresma. Como a quaresma era um tempo penitencial muito restritivo, a festa do carnaval era como uma despedida do tempo do ano mais folgado. Na quaresma, por exemplo, havia abstinência de carne nas refeições, nem se podia mais fazer festejos barulhentos. Com a quarta-feira de cinzas, começava uma quaresma muito rigorosa e nada mais de festa. Então, o carnaval era a  festa da carne que se vai... carne bovina ou suína, se entenda... não é de outra carne que se falava naquele carnaval medieval. Essa foi a origem do carnaval.

Hoje, é claro, o carnaval não é mais o mesmo. Especialmente o carnaval brasileiro evoluiu para uma festa muito diferente. Na Europa, o carnaval ainda continua comportado, com desfiles de máscaras, como por exemplo em Veneza. Mesmo no Brasil, há lugares onde o carnaval ainda é uma festa familiar, inocente, como nos tempos do império. E há lugares onde ele nem existe. É que a mídia focaliza com exclusividade o carnaval de massa de alguns grandes centros, dando a impressão que o Brasil todo está sacudido pelo ritmo frenético das ruas, o que é não é verdade.

Vamos ao carnaval de massa, prestigiado pela mídia, empurrado pela empresa do turismo. Esse carnaval tem muitos valores, não há dúvida: o resgate da cultura local, a grande confraternização de classes sociais, a grande catarse coletiva que produz. Mas, tem hoje muitos problemas também: o crescimento da violência, o consumo exagerado de bebidas alcoólicas, a explosão do sexo como prostituição e promiscuidade e um crescente clima de malhação das instituições e dos valores que fundam nossa civilização cristã.

E dá para um cristão tomar parte neste carnaval massificado, de música de baixa qualidade e de incentivo irresponsável dos órgãos de saúde pública ao uso generalizado da camisinha? Dá, se o cristão tomar cuidado para não resvalar neste clima de desmando geral. Dá, se o cristão ou a cristã estiver em companhia de seus familiares e não se abandonar no anonimato da multidão sem regras. Dá pra brincar um bom carnaval, se não esquecer em casa a sua consciência de batizado. Não é uma coisa muito fácil, mas é possível brincar bem o carnaval, se a pessoa não se deixar levar pelo mal, mas com sua presença ajudar a criar um ambiente de respeito e de alegria verdadeira.

Há muita gente que prefere um retiro. Está certo também. Mas se todo mundo for fazer retiro, o mundo do carnaval vai ficar sem a luz dos cristãos para iluminar as situações escuras e problemáticas. É claro, estamos contando que o cristão, no carnaval, mantenha acesa a luz de sua fé e de sua consciência. E, em vez de deixar-se levar pela massa, seja o fermento que o evangelho falou.

Pe. João Carlos  Ribeiro – 21.02.2004