12 janeiro 2012

O diabo anda solto

Fico pensando que nos dias de hoje está havendo uma inflação de "demônios" nas igrejas. O tal do "demônio" é uma explicação fácil pra tudo quanto é problema: doenças, traições, desemprego. É tudo culpa do diabo. Será!? Em proporção semelhante, estão também aparecendo pregadores que em grandes teatralizações expulsam os ditos demônios. O negócio chega a ser meio folclórico e primitivo. A ação do demônio vira explicação para todas as desordens, assim ninguém precisa mais assumir a responsabilidade de suas ações, ou mesmo conviver com a flagrante fragilidade da natureza humana à mostra na doença e no sofrimento. Já temos um culpado: o demônio. É só aparecer quem o enfrente, quem o desbanque, sem necessidade de nos darmos ao trabalho de discutir as causas dos problemas ou o doloroso ônus do compromisso com a mudança de vida pessoal e social.


É claro que alguém vai me lembrar de que tudo isso está na Bíblia Sagrada, que os evangelhos estão cheios de cenas de expulsão de demônios. Não posso negar. Mas posso explicar. Nos evangelhos, vemos Jesus realizando diversas curas milagrosas. Entre as doenças estão também aquelas que no tempo de Jesus eram atribuídas a demônios, como epilepsia e doenças mentais. Aliás, na mentalidade daquela gente do século primeiro, se supunha que quase toda doença tinha por trás uma influência negativa de um espírito mau. Doença estava ligada a espírito mau. Lê-se isso, por exemplo, em Marcos 1,34: "Jesus curou muitas pessoas de vários tipos de doença e expulsou muitos demônios". A cura era como um exorcismo: expulsava o mal presente naquela pessoa.

É de se perguntar se Jesus, o Filho de Deus, não sabia que aquelas pessoas eram apenas doentes mentais ou portadoras de distúrbios neurológicos? A própria Palavra de Deus nos ajuda a responder a essa pergunta. João 1,14: "E a Palavra se fez carne e habitou entre nós". Jesus é "a Palavra que se fez carne e habitou entre nós". "Se fez carne" quer dizer que Jesus se fez pessoa humana, gente como nós. "E habitou entre nós" quer dizer que Jesus se encarnou num lugar e num tempo concreto e que sua condição e inteligência estavam inseridas no horizonte cultural do seu tempo. Assim, a encarnação nos diz que Jesus viveu intensamente a condição humana. O Pai não quis infundir em Jesus uma inteligência tal que não pudesse ter sentido para as pessoas do seu tempo. Assim, Jesus vivia a própria limitação cultural de sua época. E se expressa dentro desse contexto.

Ao apresentar Jesus como aquele que tem o poder de expulsar os demônios, os Evangelhos estão nos dizendo que Jesus vem nos libertar de todas as forças que se opõem à santidade de Deus, que destroem ou desfiguram a vida humana. Essas narrações bíblicas estão nos dizendo que Jesus tem o poder sobre todas as forças do mal, sobre tudo o que engana e oprime o ser humano. Assim, iluminados por esse exemplo, somos chamados a lutar contra tudo o que produz o mal na vida das pessoas, contra tudo o que nos impede de viver com dignidade. Foi assim que Jesus nos ensinou a rezar no Pai Nosso: "Livrai-nos do mal".

Pe. João Carlos Ribeiro – 11.02.2012