16 dezembro 2011

O que foram ver

O que vocês foram ver no deserto? Jesus perguntou ao povo, aliás, insistiu três vezes nessa pergunta. O que vocês foram ver? Aquelas pessoas tinham ido ver João Batista, o jovem asceta que pregava a conversão e batizava no Rio Jordão. Foram atraídos por sua figura austera e sua pregação vigorosa. Mas, com certeza essa atração pelo Batista era compartilhada também com outros  "famosos". Ontem, como hoje, as pessoas correm pra ver e aplaudir (aplaudir não, ovacionar) qualquer celebridade, seja figurão da TV o do cinema, jogador de futebol, cantor de sucesso. Aliás, nem importa o porte moral da celebridade, pode ser um famoso da contravenção, do jogo do bicho, do big brother, importante é que seja rico, poderoso, famoso e, sobretudo, esteja na mídia.

O que vocês foram ver no deserto? João Batista não era um fenômeno de mídia, não pregava pra agradar, não estava em aliança com o poder, nem se vestia com um palaciano. Vestia-se de pele de camelo, como um pobre na luta pela vida no deserto, comendo gafanhoto e mel silvestre. Por que foram atrás dele? Jesus queria saber. Será que essa gente acolheu mesmo a mensagem de João Batista, de renovar a própria vida em vista da chegada iminente do Messias? Ou tomaram João por mais um pregador famoso, um milagreiro de plantão, um novo fenômeno da atração das massas?

Jesus tratou de purificar a imagem que tinham do Batista. "Ele não é um caniço agitado pelo vento". Caniço é uma planta de haste longa, delgada e que se dobra conforme o vento. O Batista não é o tipo da pessoa agitada pelo vento, isto é, que muda de posição conforme o ambiente e as pressões, cujas posições variam conforme os interesses, a moda, a opinião pública. Tudo que um cristão não pode ser: alguém claudicante, titubeante, mais preocupado em agradar do que estar com a verdade. "Ele não é um caniço agitado pelo vento": é um homem da verdade, uma pessoa autêntica, um profeta.

E Jesus foi mais longe, falando do pregador do deserto. "Ele não representa o poder estabelecido. Vejam como ele se veste. Luxo e requinte é coisa dos que vivem nos palácios".  A mensagem do Batista tem a força do profeta, voz que clama no deserto. Não é o porta-voz oficial da situação. É a voz da tradição da fé do povo que peregrinou no deserto e fez uma aliança com Deus. Não é uma propaganda do poder, é uma palavra independente, enraizada na história do povo eleito, mobilizadora das consciências e dos corações. Definitivamente, João não é uma celebridade qualquer. É um profeta.

A figura de João Batista nos é apresentada nesse tempo de preparação para o Natal, que chamamos de advento. É a figura do profeta que nós somos chamados a ser, preparando-nos  e preparando os outros para a acolhida do Messias. Jesus está nos indicando, ao apontar a figura de João Batista, que devemos nos parecer com ele: profetas, gente que tem opinião, que não se dobra pela força das pressões e dos interesses. Profetas como João, clamando no deserto: convocando os outros à renovação da aliança com Deus. Ser e agir como profetas, como João. É assim que nos prepararemos melhor para o Natal.

Pe. João Carlos Ribeiro
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