Meditação da Palavra

03 novembro 2011

Só o poeta pode salvar o planeta

Qual é a grande lição da Campanha da Fraternidade desse ano? Primeiro, é bom lembrar qual é a campanha da fraternidade deste ano. Em 2011, o tema é "fraternidade e vida no planeta", exprimindo a preocupação com as mudanças climáticas, o aquecimento global e a forma destruidora como a humanidade está tratando a Terra, nossa casa comum.  Então, qual é a grande lição da Campanha deste ano? Cuidar melhor do nosso meio ambiente, por amor ao Criador e às criaturas.


Francisco de Assis teve um olhar fraterno no seu relacionamento com a criação. Sentiu-se não senhor e dono, mas irmão de todos os seres criados por Deus: o homem, os bichos, a água, as estrelas, o vento, a morte. Irmão, em diálogo respeitoso com todos os seres, na complexa cadeia de interdependência. O olhar arrogante do homem da sociedade industrial enxerga valor apenas no que pode ser explorado, vendido, torrado em lucro. O petróleo, a mata, a água, os animais tudo vira mercadoria. Onde toca, desarruma, destrói, desmata, toca fogo, polui, mata.

Só um novo olhar pode salvar o planeta da total destruição, do desequilíbrio que já estamos assistindo nas catástrofes naturais, no aquecimento global, na elevação das águas do oceano... Só uma nova postura da raça humana, não se sentindo fora da natureza, da criação e acima dela, como seu predador mais perigoso e destruidor. Só o coração crente do salmista que toma o salmo oitavo e louva a Deus com todos os seres: "Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que formaste, Senhor, que é o homem mortal para que te lembres dele?"!. Só um São Francisco, irmão do lobo, irmão do leproso, do sol e da lua! Só o poeta que deixa falar as águas, as matas, as ilhas! Só um novo olhar do homem do século XXI pode salvar o planeta, a nossa casa comum.

Jorge Vercillo e Dudu Falcão escreveram uma canção maravilhosa, lançada no recente álbum "Como diria Blavatsky", da gravadora Posto 9. Jorge Vercillo, em seu novo CD, na faixa "Acendeu", empresta sua bela voz à Ilha de Fernando de Noronha. "E se a própria ilha vier contar a sua história?", nos pergunta. E passa o microfone à ilha: "- Eu nasci quando a Terra menina erguia montanhas do fundo do mar, continentes inteiros e mil Himalaias a se projetar. Deu vontade de ver tantas coisas surgindo do lado de cá e emergi sobre as águas, num rastro de lua que entrou pelo mar...." 

Olha o que dizem os autores da música: "E porque não considerarmos a hipótese de que cordilheiras, praias, rios e ilhas possuem consciência independente, dotada de complexa cadeia de raciocínio, emoção, vibração e memória?". São Paulo também foi longe. Disse-nos que a criação está gemendo em dores de parto (Carta aos Romanos), aguardando a manifestação dos filhos de Deus, para também ser libertada.  O poeta pode ajudar a gente a escutar essa criação que está gemendo em dores de parto. Só o poeta - nos púlpitos, no teatro, nas praças - pode sensibilizar o nosso coração, barrando essa sanha de morte e destruição de nossas mãos. Ou de nossa omissão. Só o poeta pode salvar o planeta.

Pe. João Carlos Ribeiro – 02.11.2011