02 novembro 2011

Faça as pazes com a morte

Quem quer saber da morte? Ninguém. Ninguém quer morrer, e, no entanto, todos vamos morrer. Temos horror à morte e nos desesperamos inconsoláveis quando perdemos um ente querido. Se a morte é uma certeza, não seria melhor nos reconciliarmos logo com ela, melhorarmos nossa relação com ela?
Nossa cultura não lida bem com a morte. Esconde-a. Morre-se, hoje, na UTI, sem assistência dos entes queridos, sem o afeto da família. A morte virou um grande negócio nos hospitais. Arrasta-se a vida quase vegetativa até não mais poder. 
Nossa cultura banalizou a morte. São tantas as mortes no trânsito e na violência urbana, que não passam de números e estatísticas frias. Nas guerras, nas catástrofes impressionam mais os estragos físicos do que a morte de seres humanos.
Nossa cultura mente, adiando indefinidamente a morte. "Você vai ficar bom, não há de ser nada", se diz a um moribundo, perdendo-se a chance de ajuda-lo a enfrentar seus últimos momentos com o conforto da fé.
A morte é um evento natural, líquido e certo na vida de cada um. Como cristãos, podemos ter uma relação mais harmoniosa com a morte. Precisamos fazer as pazes com a morte. Segundo o Novo Testamento, "o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor". É o que está escrito na Carta aos Romanos (Rm 6,23). A morte foi vencida pela ressurreição de Cristo, já não pode mais nos assustar. Fomos sepultados com ele,  pelo batismo, na sua morte. Agora, já participamos de sua vitória, de sua ressurreição. Assim, a morte já não tem mais poder. Ela foi vencida pela ressurreição de Cristo. Nosso caminho é o da vida, mesmo passando pela morte.
São Francisco de Assis fez as pazes com a morte. Tomou-a por irmã. Integrou-a no rol de todos os seres e eventos de sua vida humana, a um tempo frágil e destinada à vida eterna.  São Francisco preparou o momento de sua morte. Convocou os frades para entoarem o cântico das criaturas, onde um verso dizia: "Louvado sejas, meu Senhor, por nossa Irmã, a morte corporal, da qual homem algum pode escapar!". Fez as pazes com a morte.
Santo Agostinho, também ele reconciliado com a morte, deixou escrito:  
"A morte não é nada.  Eu somente passei para o outro lado do Caminho.  Eu sou eu, vocês são vocês.  O que eu era para vocês, eu continuarei sendo. Me deem o nome  que vocês sempre me deram,  falem comigo como vocês sempre fizeram.  Vocês continuam vivendo  no mundo das criaturas,  eu estou vivendo no mundo do   Criador. Não utilizem um tom solene ou triste, continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos. Rezem, sorriam, pensem em mim. Rezem por mim.  Que meu nome seja pronunciado como sempre foi,  sem ênfase de nenhum tipo. Sem nenhum traço de sombra ou tristeza. A vida significa tudo  o que ela sempre significou,  o fio não foi cortado. Porque eu estaria fora  de seus pensamentos, agora que estou apenas fora de suas vistas?  Eu não estou longe, apenas estou  do outro lado do Caminho.  Você que aí ficou, siga em frente, a vida continua, linda e bela como sempre foi." (Santo Agostinho)
 Pe. João Carlos Ribeiro – 02.11.2011