20 agosto 2011

Movido a sonho

Aquele menino teve um sonho. E sonho de menino de 9 anos ninguém pode levar a sério. Mas, no fim da vida, ele olhou para trás, e viu que o sonho tinha se realizado. E chorou, como criança.
O menino era agora um padre de 72 anos, exaurido de tanto trabalho e preocupação. Depois da inauguração da igreja do Sagrado Coração que construíra em Roma, estava celebrando no altar de Nossa Senhora Auxiliadora e não se conteve. Passou a missa chorando emocionado. O sonho tinha se realizado.

Depois da missa, a pergunta certa: Dom Bosco, o senhor está se sentindo bem? Aconteceu alguma coisa? E a resposta tranquila:  "Pois durante toda a missa estive revendo o sonho que tive aos 9 anos de idade . . . aquele sonho, como sabes, que decidiu toda a minha vida... aqueles molequinhos que ofendiam a Deus, a transformação deles em animais ferozes, depois em mansos cordeirinhos, a Divina Pastora, seus conselhos de bondade e de doçura... Revi-me a narrar este sonho de manhã cedo a minha mãe e a meus irmãos... ouvi seus comentários... E uma frase especialmente ressoava-me persistente ao ouvido, a frase que a Pastora do rebanho me disse quando lhe implorei que me explicasse o sonho: "A seu tempo hás de compreender tudo isso". Passaram-se sessenta anos!  Agora compreendo tudo!"

Afinal compreendera o sonho em toda a sua extensão. O sonho era uma realidade. Ele tinha se tornado um pastor de meninos e adolescentes trabalhosos, violentos, em situação de risco como as feras do sonho. E, com seu carinho de educador e de pai, os tinha transformado em pessoas felizes, produtivas, religiosas. Mansos carneirinhos, como no sonho. O trabalho tinha crescido em meio a dificuldades financeiras e incompreensões de todos os lados. Mas afinal tinha salvado muitas vidas.  De origens humildes e acanhadas, tinha ganhado o mundo. Agora eram centenas de casas de educação e de educadores religiosos e leigos imbuídos do seu espírito e milhares de adolescentes crescendo no caminho do bem.

Chorou por perceber, com toda clareza, que sozinho não teria ido tão longe. A pastora esteve sempre ao seu lado, estimulando, corrigindo, consolando. "Foi ela quem tudo fez", ele repetia. "Foi ela quem tudo fez". E fez por amor àquele rebanho que ele tinha encontrado vagando pelas ruas, explorado na construção civil, sem escola, sem paróquia, sem família. Aquilo era obra de Deus, pela iniciativa das mãos maternas da mãe de Jesus, a auxiliadora. Foi ela quem o ensinou a educar com o coração, com a confiança e a presença amiga. Foi ela quem o estimulou a partilhar a missão com fiéis colaboradores e colaboradoras. Ela quem o sustentou nas horas de crise, de perseguição, de sofrimento. Ela quem o conduzia pela mão, como conduzia os seus jovenzinhos. Ela, a divina pastora do sonho de menino.

A saúde do bravo Dom Bosco já era precária e veio a falecer um ano depois. O médico foi claro: esgotou-se, desgastou-se pelo trabalho. A morte coroou aquela vida cheia de sentido, porque inteiramente entregue à busca da glória de Deus e do bem dos jovens.  Hoje, sua família espiritual começa a preparar o bicentenário do seu nascimento. Quer começar tudo de novo. Quer refazer o seu caminho, movido a paixão por Cristo e pelos jovens. Movido a sonho.

Pe. João Carlos Ribeiro - 16.08.2011
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