20 julho 2011

A vossa vontade

"Quem faz a vontade do Pai que está nos céus, este é meu irmão, minha irmã, minha mãe". O laço mais íntimo que une o discípulo ao Mestre está revelado aqui. Um laço mais forte, mais profundo do que o do parentesco. Ser parente de Jesus, pertencer à sua família, é, especialmente, ser cumpridor da vontade do Pai. Ser como ele. Jesus é o filho obediente, o que aceitou realizar a missão salvadora, porque esse era o plano do Pai.


Jesus é o primeiro realizador da vontade de Deus. A carta aos Hebreus, falando da entrada de Jesus na história humana, coloca essas palavras na boca de Jesus: "Eis que venho, com prazer, fazer a tua vontade, Senhor". E o que Jesus falou, a certa altura do seu trabalho missionário, mostra a sua identidade de filho obediente: "Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou". Ser parente de Jesus é, pois, fazer como ele, cumprir a vontade do Pai.


"Quem faz a vontade do Pai que está nos céus, este é meu irmão, minha irmã, minha mãe". Quem faz a vontade do Pai. E se a condição é a realização da vontade de Deus, então Maria é o grande exemplo. Pois ela, como atesta o evangelho, entregou-se por inteiro ao cumprimento da vontade de Deus. "Eis aqui a servidora do Senhor. Faça-se em mim, segundo a palavra que me disseste". Ela é a Virgem obediente, que será transpassada por uma espada de dor, ao pé da cruz do seu filho obediente.


É compreensível que os parentes de Jesus tenham tido dificuldade de entendê-lo. Até pensaram que ele tivesse perdido o juízo. E foi aí que ficou mais claro: o verdadeiro parente de Jesus é o que está em sintonia com Deus, com a sua vontade, como ele. Talvez essa alusão tenha hoje também a sua versão. Há muita gente que, oficialmente, está a serviço de Deus, ou tem com o sagrado uma relação formalizada, ou porque pertence a uma organização religiosa ou porque tem funções reconhecidas no interior da Igreja. Pergunta-se: é bastante esse laço legal, digamos assim, para pertencer a Cristo, para estar próximo dele, para representá-lo? A resposta é clara: não; tem parte com Cristo, quem, como ele, dedica-se a realizar a vontade de Deus, quem está em sintonia com o querer de Deus.


Jesus contou uma história que não nos deixa dúvidas. O pai tinha dois filhos. O Pai mandou o primeiro filho trabalhar no seu roçado. Esse se prontificou a ir, mas não foi.  Ao segundo filho, o Pai igualmente mandou que fosse trabalhar no seu roçado. Esse disse que não iria, mas acabou indo. Foi este o elogiado por Jesus. O segundo filho, apesar de sua má vontade inicial, fez a vontade de Deus. Então, não se trata apenas de dizer, de querer, de planejar... trata-se, sobretudo, de realizar a vontade de Deus.


E a vontade de Deus não é algo que vai nos anular, contrariar nossa liberdade, cercear nossa realização. Pelo contrário, a vontade de Deus é a nossa felicidade, a nossa realização, o bem de todos.  Por isso, não é tão difícil descobrir a vontade de Deus, porque ela já está inscrita em nossa vida como desejo de realizar o bem, de construir a fraternidade, de viver em santidade, em plenitude.


"Seja feita a vossa vontade, assim na terra como céu". Não é a formulação de um bom desejo. É um compromisso que eu estou assumindo: realizar a soberana vontade do Pai em minha vida, em nossa vida.


Pe. João Carlos Ribeiro – 20.07.2011