17 julho 2011

Cuidado com a noite

Não tem como a gente negar. Mesmo que a gente não queira repetir a fixação de muitos grupos religiosos, não tem jeito. Existe o mal. Existe o inimigo, aquele que quer destruir a obra de Deus. Na parábola do joio e do trigo, o inimigo do agricultor semeou a semente ruim, na calada da noite. "Enquanto todos dormiam, veio o seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi embora" (Mt 13,25).

O inimigo age na calada da noite, "enquanto todos dormem". A semente boa tinha sido plantada durante o dia. Plantar durante o dia, ótimo, mas vigiar também para que, de noite, não venha o inimigo e plante o joio no mesmo lugar. É preciso estar vigilante também durante a noite. O dia pode representar a clareza e a transparência com que a gente precisa agir. Quando a coisa é pública, é comunicada, é acompanhada por outros, o mal fica sem chance. Coisas escondidas, conversas à meia voz, segredinhos... são campo fértil para a ação do inimigo. Bom, uma coisa é o direito à privacidade. Outra, a ação às escondidas, acobertadas pela mentira, pela falsidade, pela impunidade. É aí que o mal se infiltra, que o inimigo semeia o joio em nossa plantação.

Você recorda, por exemplo, que Nicodemos foi falar com Jesus à noite. Ele tinha medo de perder a posição que detinha no Sinédrio. E Judas traiu Jesus, entregando-o covardemente aos seus inimigos, no Jardim das Oliveiras, numa noite. A noite é uma representação do medo, da covardia, do manto que encobre a ação dos maus. Por isso, São Paulo falou: "vocês que são de Cristo, ajam como em pleno dia".

"À noite, todos os gatos são pardos". Li uma vez essa frase pixada em um muro, quando ia para a Faculdade. Eram tempos de ditadura. E a frase tinha alguma coisa a ver com as lutas daquele tempo difícil. Mas, realmente não entendi. "À noite, todos os gatos são pardos".  Depois, anos depois, caiu a ficha. É que quando não se tem clareza, todas as propostas são parecidas, todas as opiniões parecem boas, todos os gatos são pardos. A noite, então, é essa hora em que as coisas estão embaralhadas, misturadas, confusas, quando a gente não tem uma visão clara. E esse é um momento perigoso, porque a gente pode assumir o que não presta como uma coisa boa, um valor. Nessa circunstância, sem luz suficiente, a gente pode misturar alhos com bugalhos.

A noite, espaço das trevas, é a hora do inimigo, do ladrão. Em outro contexto, Jesus tinha falado do cuidado com a casa, de noite. Ficar alerta, vigilante, falou ele, porque não se sabe em que hora o ladrão vem. O dono da casa não pode cochilar. Precisa verificar se portas e janelas estão trancadas, se não tem ninguém da família ainda na rua, se tudo está seguro. Só assim pode descansar. Mas, sempre atento, a qualquer barulho estranho, precisa estar de prontidão.

É. O mal existe. O diabo ainda não se aposentou. Nem tira férias. E aproveita quando o agricultor dorme, para plantar sua semente ruim na vida da gente, na família da gente, em nossa comunidade. É preciso vigilância. É preciso tomar distância de coisas escondidas, de situações dúbias, de escolhas duvidosas em situações de pouca clareza. E pedir a Deus, como ensinou Jesus no Pai Nosso: "Pai nosso, livrai-nos do mal".

Quando escurece, saem os ratos dos seus esgotos, e as raposas de suas tocas, e os morcegos em seus voos cegos. Ratos, raposas, morcegos, más companhias, traficantes de drogas, prostituição, assaltos... é tudo da noite. Cuidado pra não perder a sua bela plantação de trigo, feita com tanto trabalho durante o dia. Cuidado com a noite.

Pe. João Carlos – 18.07.2011

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