Meditação da Palavra

06 julho 2011

Analfabetismo bíblico

São vários os tipos de analfabetismo. Em matéria de analfabetismo absoluto, o Brasil ainda tem ainda 10% de pessoas nessa faixa. É triste isso. E mais 20% de analfabetos funcionais, os que não conseguem interpretar um texto. Mas, hoje se fala também em analfabetismo digital. E com razão, pois muita gente que sabe ler e escrever ainda não sabe se comunicar com os recursos digitais: computador, internet, ipod, terminais eletrônicos, etc. Outro analfabetismo é o que Bertold Brecht descreveu: o analfabeto político. Mas, está me ocorrendo um outro analfabetismo igualmente grave para os tempos de hoje: o analfabeto bíblico. Alguns nessa área são analfabetos absolutos. E muitos outros, são analfabetos bíblicos funcionais.

 

Essa forma de analfabetismo me parece grave nos dias de hoje, especialmente entre os cristãos. O analfabeto bíblico seria alguém que, por desconhecer o livro dos cristãos, não consegue uma compreensão e uma comunicação adequada sobre a sua fé. "E não basta crer?", perguntaria alguém. Não. É preciso mais: é preciso dar as razões da própria fé, como está escrito na Carta de Pedro. E a fé cristã está assentada fundamentalmente nas Escrituras Sagradas e na Tradição que a transmite e explica. Sem um conhecimento bíblico mínimo, não se consegue compreender boa parte do discurso religioso católico, protestante, evangélico ou ortodoxo.

 

É claro que o Novo Testamento é a parte mais conhecida pelas pessoas, onde se encontra a história da vida de Jesus, seus ensinamentos e o desenvolvimento das comunidades cristãs após a sua ressurreição. Mas, o Novo Testamento não se entende sem o Antigo. As raízes da fé cristã estão na história religiosa do povo de Israel, o povo em Aliança com o Deus único. A comunidade dos seguidores de Jesus está em continuidade com a grande tradição religiosa do povo eleito: os seus patriarcas (Abraão, Isac, Jacó), os seus profetas (Amós, Oséias, Isaías, Jeremias, Jonas, Malaquias, Daniel), os seus reis  (Davi, Salomão, Josias), a Torah, a lei de Moisés, suas festas religiosas (páscoa, pentecostes, cabanas), etc. Não dá para compreender o Novo Testamento sem uma referência direta às Escrituras de Israel, os 46 livros do Antigo Testamento.

 

E não se pode achar que está tudo bem assim. Não está. Não é possível, nos dias de hoje, um cristão ser leigo na Bíblia. Leigo aqui, de maneira pejorativa. Estamos em uma sociedade com um leque enorme de modelos, possibilidades e opções. Quem for cristão tem que ser de verdade, e saber bem os fundamentos de sua fé. Em um mundo como o nosso, o cristão tem que fazer a diferença. E atitudes, comportamentos e projetos de vida alinhados com o Evangelho não se sustentam na superficialidade. Eles têm que ter um sólido alicerce. O conhecimento bíblico é uma dessas pedras fundamentais na construção de uma vida marcada pela fé em Cristo.

 

Aliás, devemos estender esse pensamento para todo mundo, mesmo para quem não é membro de nenhuma igreja. Estamos em uma cultura ocidental onde quase tudo continua fazendo referência ao mundo religioso cristão, ancorado na Bíblia. E mais ainda, os valores com que hoje pretendemos pautar nossa vida privada e social, continuam a se alicerçar todos eles nos ensinamentos religiosos do livro dos cristãos.  Assim é a justiça, a equidade social, a tolerância, o respeito à vida, a defesa da família, os direitos humanos, a solidariedade, a fraternidade, a honestidade... Enfim, não conhecer a Bíblia é uma grave lacuna na base cultural da nação. Analfabetismo bíblico, absoluto ou funcional, é um sério problema a ser enfrentado.

 

Pe. João Carlos – 07.07.2011