Meditação da Palavra

07 junho 2011

As três tristezas da viagem

Viajando por esse mundão todo - e olha que eu tenho andado bastante por todo esse nordeste brasileiro - três coisas me deixam com o coração apertado: casa de taipa, capela em ruínas e criança pedindo dinheiro.


Quando vejo uma casa de taipa, me dá uma tristeza... Fico pensando:  como é que uma família se acostuma em morar num negócio desse?  como é que alguém se casa e faz um barraco tão miserável pra morar?  E o que podem esperar da vida as crianças que crescem aí, com os pés no barro batido, morando numa toca de barbeiros?  A resposta que vem é uma constatação dolorosa: casa de taipa é um sinal de abandono dessa gente, mesmo depois de 500 anos de civilização. Pode ser que tenham se acostumado com isso, que achem até normal ou que estejam esperando uma melhora no futuro. Casa de taipa é mesmo a cara da miséria. Viajo por outras regiões do país e não vejo casa de taipa. Passo pelo agreste e quase não vejo casa de taipa. E as pessoas dessas regiões são mais ricas? Bom, no agreste não. Mas, parecem viver com mais dignidade. É uma coisa que parece estar na cultura deles: nada de casa de taipa.


Capelinha deteriorada, em ruínas, "distiorada" como dizem, estou sempre encontrando alguma pelas estradas. Elas sobrevivem em povoações decrépitas, com populações subtraídas pela migração para regiões mais prósperas ou para os grandes centros. Encontro-as em fazendas sem a vida do passado, onde integram uma paisagem desoladora ao lado de chaminés ou bueiros abandonados e telhados caindo. Ou a religião foi abandonada ou a vida por ali perdeu a graça. Mas, se olhar bem pode ser até que veja por ali uma igrejinha evangélica. E a capelinha está ali como um bezerro enjeitado, mirrando, envelhecida e triste. É o retrato da alma de um povo de sobreviventes:  sem herança do passado,  sem confiança no futuro.


E como estradas esburacadas não faltam por esse nordeste pobre, também não faltam meninos tapadores de buraco, sempre fazendo de conta e pedindo um trocado. Um trocado pra vê-los fazer de conta que estão tapando os buracos da pista. Aprendem a lição com os governos que fazem de conta que estão tapando os buracos, construindo e duplicando rodovias com o dinheiro do contribuinte.  Mas tem também menino abordando a gente na saída de restaurantes e pousadas, crianças oferecendo suas pobres mercadorias (castanhas, maçã, balas). Criança pedindo dinheiro é um sinal de abandono dos adultos, e de sua condição de miséria. Dá uma dor no coração. E a gente fica sem escolha. Se compra, incentiva. Se não compra, os condena à fome. Criança sem escola ou com escola de faz de conta. Meninos mal-alimentados, se acostumando a viver sem dignidade.


Em minhas viagens por esse nordeste do interior, três coisas me entristecem: casa de taipa, capela em ruína e menino pedindo dinheiro. A sensação é de impotência. E de revolta.


Pe. João Carlos - 07/06/2011