Meditação da Palavra

27 junho 2011

Amor e obrigação

O cristianismo não é primariamente uma lei, um código de normas de conduta ou um conjunto de prescrições cultuais. O  cristianismo não é uma lei. O povo da antiga aliança colocou, no centro de sua experiência religiosa, a Lei, a Torah.  No tempo de Jesus, o grupo mais preocupado com a fidelidade à Lei eram os fariseus. Os mais estudados deles, os escribas, desenvolveram centenas de normas e obrigações. Assim, a Lei, ou seja a Torah, tornou-se algo muito pesado, rigoroso e opressor. Um fardo pesado. Jesus denunciou o rigorismo e a hipocrisia dos doutores da Lei. Alertou os seus discípulos nesse tom: "eles amarram fardos pesados e insuportáveis e os põem nos ombros dos outros, mas eles mesmos não querem movê-los, nem sequer com um dedo" (Mateus 23, 4). Jesus, opondo-se a esse olhar legalista sobre os escritos sagrados, marcou a diferença: "o meu jugo é suave, o meu fardo é leve" (Mateus 11, 30), disse ele. Definitivamente, a religião cristã não pode ser uma lei.


É claro que o cristianismo, com a sua Bíblia e mesmo com o direito canônico, tem normas e leis. Tem leis, mas não é uma lei. O que Jesus revelou com sua vida e suas palavras não foram leis e regras de conduta. Ele revelou o amor de Deus. O evangelista explicou assim essa presença de Jesus: "Deus amou tanto o mundo que enviou o seu filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3,16). Deus amou o mundo, por isso enviou seu filho. O que se espera do discípulo de Jesus, em primeiro lugar, não é o cumprimento de normas. Mas, uma resposta de amor ao amor de Deus revelado nele.


Lembram da pergunta que Jesus fez a Simão Pedro, depois de ressuscitado: "Tu me amas?". Simão tinha negado Jesus. Precisava retornar ao primeiro passo, à condição fundamental para ser um discípulo: o seu amor a Jesus. "Tu sabes tudo. Tu sabes que eu te amo", foi a resposta de Pedro. O cristianismo é a resposta de amor do discípulo ao amor de Deus manifestado em Cristo.  Não é uma lei, é um amor correspondido.


Mas também no Antigo Testamento já era assim, só que num certo momento apareceu mais a obrigação do que o amor. A oração por excelência de Israel era: "Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a alma e com todas as tuas forças" (Deuteronômio 6, 4-5). O amor é a resposta esperada. E amor apaixonado, total. "Com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças".


O cristianismo é o amor dos discípulos por Jesus. Amor que faz de nós seus seguidores. Amor acima de tudo e de todos. Como está no primeiro mandamento: amar a Deus sobre todas as coisas. Assim, Jesus cobrou dos seus seguidores: "Quem ama pai ou mãe mais do que a mim, não é digno de mim. E quem ama filho ou filha mais do que a mim, não é digno de mim" (Mateus 7, 37-38). Amar a Jesus de maneira cabal, acima de tudo e de todos: é isso que nos faz ser cristãos. 


É certo que fica a preocupação: mas, e as normas, e as leis, e os mandamento? Tudo tem seu lugar, mas bem depois do amor. São expressões do amor do discípulo para com o seu Mestre e a sua comunidade. Mas só o amor dá sentido a tudo isso. Sem amor a Jesus, isso tudo vira um peso, uma obrigação e caímos de novo no farisaísmo.


Pe. João Carlos – 27.06.2011