10 fevereiro 2013

A força do Maracatu

Muita coisa me chamou a atenção no carnaval do Recife. Uma, particularmente, me impressionou. Um quadro vivo, dançante, em minha cabeça. Um casal de crianças brincando o Maracatu.  Aliás, muitos maracatus desfilando. Maracatu Nação, do baque virado. E Maracatu rural, de baque solto.  O rural é aquele dos caboclos de lança, presença marcante na zona da mata norte do Estado.  Nos maracatus rurais, vi gente vinda do interior com certo ar de tristeza, um tanto sisuda. Talvez cansados, talvez inibidos pela exibição na capital. E passistas dos bairros da zona norte da cidade, gente simples, morena, com o ritmo no corpo.
Maracatu, urso, troça, caboclinhos, orquestras, blocos  carnavalescos, blocos líricos, bonecos gigantes... o Marco Zero povoado de agremiações com seus batuques, seus  gingados . E o público que vai se deixando conquistar e arrastar.  Não é carnaval de ver (esse existe também nos desfiles). É carnaval de brincar. Tudo isso no Marco Zero, ziguezagueando, batucando, em meio a muitas cores, crianças, adultos, idosos.  Cadeirantes também circulando  pelas ruas, com desenvoltura e graça.
Graça é o que não falta no carnaval. Cada um arruma sua fantasia, seu toque da festa multicolorida. O Marco Zero definitivamente é um point de família no início das noites do carnaval. E esse espírito de folia se casa com o espírito de iniciativa para dar à luz tantas agremiações. Assim, há lugar pra todo mundo: samba, frevo, maracatu, marchinhas, lirismo .... é o carnaval multicultural, sustentado por um compromisso político da Prefeitura do Recife: apoiar e garantir as manifestações culturais brincantes dessa gente.
Vi um casal de crianças no Maracatu.  Foi a cena que mais me marcou. O Maracatu Nação mirim subiu a rampa do pólo das fantasias (foram vários polos nesse ano: afro, tradições, fantasias, mangue, corredor da folia ... e o polo multicultural, o grande palco do Marco Zero). O Maracatu dos meninos vinha de Bola na Rede.  Um maracatu infantil: o grupo de percussão,  o rei, a rainha e seus pajens, baianas, passistas, todo mundo criança. Meninos e meninas de cor negra. E aquele casal bem na ponta esquerda da rampa de exibição. Trajava azul, com roupas  à moda da corte francesa ou sei lá onde se inspira o maracatu nesse ponto. Ela, com seus 10 anos e vestido longo, com aquela saia armada de dama da corte.  Ele, com seus 11 anos , de manga comprida e aqueles babados no peito, coisa das cortes européias do século XVI ou XVII. O grupo todo dançava bem e com alegria. Mas esse casalzinho parecia em êxtase, dançando e rodopiando com visível satisfação.
O sorriso dessa dupla me impressionou. Sabe Deus que vida de sacrifício e privação esses dois vivem em Bola na Rede. Meninos pobres, negros, da periferia....  agora sob olhares curiosos e admirados de tanta gente, no centro da cidade. Inclusive olhares brancos de turistas  de outras partes do país e do estrangeiro. Ali eles são artistas, não, são cidadãos de uma corte prestigiada,  são gente, reconhecidos pela nação foliona. Se isso é assim, então o carnaval tem sentido, ao menos esse carnaval onde explode a cultura popular e onde o povo se expressa com tanta graça e alegria. Essa talvez seja a força desse carnaval: revela as raízes, ali onde nasce a força de um povo, com espaço para expressar-se com liberdade e criatividade. Sem caricatura de ritmos adventícios, nem a uniformidade dos hits massificados.  No Maracatu, o povo revisita suas raízes afrodescentes, suas memórias mais revolucionárias: a liberdade, a indomável alegria, o orgulho de ser nação.  É só ver a felicidade daqueles dois, rodopiando, reencontrando-se com o seu arquétipo cultural afrodescendente... bebendo da força do seu povo, da beleza de sua raça.
Pe. João Carlos Ribeiro (fev 2012)
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