04 janeiro 2011

A mulher de Ló

 Vocês não acham injusta aquela história da mulher de Ló? A pobrezinha olhou para trás e virou uma estátua de sal.  História do primeiro livro da Bíblia, o livro do Gênesis.  Lot foi o único justo encontrado na cidade de Sodoma. Tudo de ruim havia naquela cidade de Sodoma. O justo foi convidado a sair dali, deixar tudo, abandonar aquela gente. Lot saiu com sua família. Deus ia por um fim naquele antro de maldade, violência e perversidade. A família de Lot saiu da cidade. Havia uma recomendação: ninguém olhe pra trás. A uma certa altura, a mulher de Ló olhou para trás para ver o que estava acontecendo por lá. Não deu outra. Virou uma estátua de sal.

 

Bom, Sodoma e Gomorra destruídos pela cólera divina é uma história contada pelos antigos ensinando às novas gerações que Deus não tolera a civilização violenta e permissiva. Na história dos antigos, possivelmente antes da existência do povo de Isarel, estas duas cidades foram destruídas com uma chuva de enxofre. A imagem é a erupção de um vulcão, coisa que ainda hoje se pode ver alguns lugares. E ao sul do Oriente Médio, encontra-se o mar morto, o mar do sal, cheio de montanhas de sal gema. Foi neste ambiente que circulava a história da mulher de Ló que virara uma estátua de sal.

 

Teria sido mesmo injusta esta punição: a mulher ter virado uma estátua de sal? É claro que se trata de história edificante, um discurso plástico sobre a seriedade com que devemos acatar as orientações divinas. No evangelho, o próprio Jesus, relembrou a velha história e tirou uma lição atual. A moral da história no seu discurso foi: "Quem quiser ganhar a sua vida, vai perdê-la".

 

Vejamos: a chegada do Reino de Deus, Jesus comparou, é como o convite para a saída de Sodoma. Deixar o velho do pecado e abraçar o novo do perdão e da reconciliação oferecida agora no próprio Jesus. Dar as costas a Sodoma e caminhar para um novo modo de ser e viver: esse é o convite do Reino. Não compactuar mais com a velha situação. Paulo lembrou: "Quando ainda éramos pecadores, ele nos amou e enviou o seu filho único". Em outras palavras, Jesus pregou desde o início: "O reino chegou, convertam-se". Conversão é reorientar a própria vida e a vida em nossa volta. Reorientá-la para Deus, em obediência à sua palavra salvadora. Paulo, o apóstolo da Igreja em expansão no Império Romano, escreveu em uma de suas cartas: "Tudo novo, o que era antigo já passou".

 

Por tudo isso, vou entendendo que quem abraçou a novidade do Reino de Deus deixou para trás o que era antigo, isto é, o que era negação do Reino. Não dá pra continuar fazendo média com o que não é obediência a Deus. Converter-se, relembrou Jesus, falando igual aos profetas do Velho Testamento. A mulher de Ló é o exemplo de quem abraça a novidade de Jesus e do seu Reino e fica olhando para trás. Fica com um pé na graça que nos gera novas criaturas e ainda repetindo os velhos hábitos do Adão pecador. Quem foi gerado Novo no Cristo Ressuscitado, não tem mais nada a ver com o velho homem Adão, longe de Deus e amigo do pecado. A mulher de Ló é o exemplo de quem está caminhando para o novo e voltando-se ainda para o passado.

 

Jesus foi claro: "Quem pega no arado e olha para trás, não serve para o Reino de Deus". Sabe de uma coisa: a velha história da mulher de Ló tem sua razão de ser. Porque não é tão antiga assim. É a história de hoje de muita gente, de nós mesmos. E nem é tão injusta como eu estava pensando.

 

Pe. João Carlos

Rádio Folha FM 86.7 – 07h55

Tempo de Paz 05.01.2011

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